Arquivo/Estadão
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Angela Maria no cinema: foram mais de 20 filmes, e com cineastas importantes

Estreou com Alex Viany e foi dirigida por Nelson Pereira nos anos 1950, quando o cinema brasileiro queria ser neorrealista

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2018 | 21h24

Existem críticos que dizem que a chanchada da Atlântida, como gênero de filme, era uma espécie de programa de rádio com imagem. Cantavam os astros e estrelas da Rádio Nacional, da Mayrink Veiga, naquela época em que as ondas do rádio, precedendo a TV, uniam o Brasil.

Angela Maria, que morreu neste sábado, 29, em decorrência de uma parada cardíaca após uma infecção que a deixou internada por 34 dias, pertencia a uma geração de cantoras míticas. Rainha do Rádio, como Marlene, Emilinha Borba. Mas ela tinha um perfil um pouco diferente.

Talvez tenha sido pela origem humilde. Nascida Abelim Maria da Cunha, filha de um pastor, sonhava cantar no rádio, mas o pai se opunha. Cantou no coro da igreja, em programas de calouros e em dancings antes de virar princesa e, depois, Rainha do Rádio, com o pseudônimo de Angela Maria.

O então presidente Getúlio Vargas colou-lhe o apelido de ‘Sapoti’ – seria doce como a fruta. O cinema chamou-a e, entre 1954 e 75, ela participou de nada menos de 21 filmes.

Às vezes só cantava, mas em momentos pontuais, com diretores que fizeram história no País, foi solicitada também como atriz dramática.

Em 1954, Alex Viany chamou a antiga operária de fábricas de tecelagem para um papel destacado em Rua Sem Sol, sobre garota que cai na prostituição, na tentativa de ganhar dinheiro para pagar a operação dos olhos da irmã. Viany era crítico e, influenciado pelo neo-realismo italiano, queria colocar o povo na tela. Glauce Rocha era a protagonista e, com ela, dividiam a cena, Dóris Monteiro e Angela Maria, ambas vindas do rádio.

Três anos depois, e também influenciado pelo neorrealismo, Nelson Pereira dos Santos fez Rio Zona Norte, que dava sequência à temática social do cultuado Rio 40 Graus. Grande Otelo fazia o compositor Espírito da Luz, que caía do trem e, morrendo, via sua vida passar em flash-back.

Num dos episódios, ele procura a famosa Angela Maria, estrela do rádio, para lhe oferecer um samba. Angela aparece no próprio papel. Mais dois anos e ela estava de novo em outra obra engajada – Quem Roubou Meu Samba?, de José Carlos Burle, em que um compositor sem escrúpulos assume as criações de sambistas mais talentosos como se fossem dele. Burle, o mais esquerdista dos diretores da Atlântida, discutia os direitos autorais. 

Em 1961, a chanchada já agonizava e logo começaria o Cinema Novo. Angela, no auge da popularidade, fez par romântico com o astro mexicano Antonio Aguilar em Caminho da Esperança/Rumbo a Brasilia, de Mauricio De La Serna, coprodução com o México.

Mais 12 anos e, em 1973, integrava o elenco – cantando – de Portugal, Minha Saudade, comédia de Mazzaropi. Em 1979, com João da Baiana, participou do documentário curta Maxixe, a dança perdida, de Alex Viany, que marcou a despedida do diretor.

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