Acervo Estadão
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Análise: Osesp faz trabalho impecável com as sinfonias de Villa-Lobos

As orquestras brasileiras precisam entender que só podem destacar-se interpretando e fazendo referência no repertório local

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

23 de fevereiro de 2018 | 13h22

O público que praticamente lotou a Sala São Paulo na terça-feira, 20, para o primeiro concerto do Festival Viva Villa saiu de peito estufado e ouvidos plenamente recompensados. Assistiu a um concerto impecável, onde – fato raro, praticamente inédito por aqui – maestro e orquestra demonstraram plena intimidade com as obras de Villa-Lobos.

Afinal, o festival marca o lançamento de uma caixa com 6 CDs contendo as 11 sinfonias dele, pelo selo Naxos. Mais do que isso, estas gravações registram o processo de conhecimento profundo dessas (injustamente) mal-amadas sinfonias, forjado em sete anos de muito trabalho, na revisão e estabelecimento das partituras que agora são referências mundiais e também na interpretação, modelar.

Exagero? Longe disso. O projeto da edição e gravação das sinfonias de Villa-Lobos marca a Osesp da última década assim como os registros das Bachianas e Choros marcaram a Osesp na primeira década do século. Gravações como a das sinfonias de Prokofiev, por louváveis que sejam, nada acrescentam. As do Villa sim. 

As orquestras brasileiras precisam entender que só podem destacar-se interpretando e fazendo referência no repertório local. Só assim conquistam efetivo respeito internacional. Como o próprio Isaac Karabtchevsky, líder deste projeto, fez décadas atrás com a integral das Bachianas nos bons e finados tempos da Orquestra Sinfônica Brasileira. 

Desculpem o tom de manifesto, mas foi assim que me senti ao assistir a um concerto de tão elevada qualidade. Isaac mantém com os músicos uma convivência amigável e em alto nível profissional. A execução do difícil Uirapuru, por exemplo, foi brilhante, detalhista, empenhada. É tudo o que a partitura complexa de Villa merece. E teve na noite de terça.

O segundo movimento, Lento, da sétima sinfonia foi um deslumbramento. Como Villa manipula bem os pressupostos da escrita sinfônica à europeia e os reinventa. Até agora, estas sinfonias eram praticamente ignoradas na vida musical internacional porque não se dispunham de partituras razoáveis. Agora, qualquer orquestra no planeta pode interpretar Villa-Lobos.

E, cereja no bolo, os magníficos e suingantes Choros 10, com a participação do Coro Osesp, fecharam a noite em clima de festa à brasileira. Até domingo, 25, outros concertos gratuitos em torno de Villa-Lobos acontecem na Sala São Paulo, todos imperdíveis.

Este trabalho tem de continuar. Encarar as nove sinfonias de Cláudio Santoro, ainda sem execuções dignas, ou então a produção sinfônica de Guerra-Peixe, tem de ser prioridade absoluta. 

Só assim nossas orquestras legitimarão a ótima porém mal-amada produção brasileira de ontem e, sobretudo, de hoje.

Cotação: excelente

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