Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

'Prefiro não me render à tristeza', diz ex-faxineira autora de 'Minha Vida Passada a Limpo'

Verônica Oliveira, dona do perfil Faxina Boa e escritora de um livro presente na Bienal, luta para que negras de periferia possam ‘contar boas histórias sem precisar sofrer’

Leonardo Catto, Especial para o Estadão

03 de julho de 2022 | 05h00

Foi depois de um episódio depressivo que Verônica Oliveira decidiu arrumar a casa. Por dentro. Começou a trabalhar como faxineira e mudou o que viria pela frente. Afastada das faxinas desde o final de 2020, hoje ela trabalha para que diaristas reconheçam direitos trabalhistas e, acima de tudo, pela valorização de quem presta serviços.

Verônica atuava em telemarketing quando perdeu o emprego. Teve de se mudar com dois filhos para uma espécie de cortiço. A depressão se desenvolveu a partir da realidade bruta. Um respiro veio depois da faxina. Ela limpou o apartamento de uma amiga, que lhe pagou pelo serviço e ali nasceu uma possibilidade.

Em 2016, veio a criação de materiais com menções à cultura pop para divulgação do trabalho como faxineira. A Faxina Boa era “o lado limpo da força” – em referência a Star Wars – e virou a identificação de Verônica. O conteúdo viralizou no Facebook, onde depois foi criado um grupo que funciona como fórum de diaristas. O trabalho como faxineira virou conteúdo nas redes. Hoje, o @faxinaboa no Instagram tem quase 330 mil seguidores.

O riso sai fácil para Verônica ao contar sua história. Ainda que em tom jocoso, ela vê no seu trabalho um espaço para resistir. “Não dá para perceber essa resistência. Parece algo inerente”, afirma sobre o fato de ser uma mulher, negra e oriunda da periferia. Em seguida, ela emenda uma piada: “Parece que fui sorteada em todas”. Mas confessa: “A leveza com que conto minha história é muito mais por ser um campo que machuca. Prefiro não me render à tristeza”.

Nas redes, ela já relatou diferentes casos de preconceito enfrentados durante as faxinas, como quando ouviu “ser muito bonita” para ser faxineira. Ela não desmerece o trabalho que fez e o lugar a que chegou, mas reconhece que nem todo mundo vai conquistar sucesso só com esforço. “Ninguém tem como se basear no que aconteceu comigo para construir sua trajetória”, adverte. “É preciso deixar claro. Já reclamei, chorei e passei vários dias olhando para o teto antes.”

Mas sofrimento não é justificativa para o sucesso, adverte. O questionamento que a escritora carrega é o que precisa ser feito para que outras meninas negras e de periferia contem boas histórias sem precisar sofrer antes. Mãe de duas meninas e um menino, Verônica coloca esse desejo também para a família – e até faz piada dizendo que a caçula é tratada como “filha da Beyoncé”. 

Livro

Verônica Oliveira vai estar na 26.ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo para uma sessão de autógrafos de seu livro Minha Vida Passada a Limpo, lançado em 2020. A obra tem prefácios da jornalista Astrid Fontenelle e de Dona Jacira, mãe dos músicos Emicida e Fióti. A sessão será na sexta-feira, 8 de julho, às 18 horas, no estande da VR Editora. 

 

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