Cody O'Loughlin/The New York Times
Cody O'Loughlin/The New York Times

Os muitos lados de Dan Brown

Autor de ‘O Código da Vinci’ fala sobre a estreia no universo infantil com ‘Sinfonia dos Animais', misto de livro ilustrado e álbum musical que ele criou há quase 30 anos e lança nesta semana

Alexandra Alter, The New York Times

03 de setembro de 2020 | 12h00

Desde a explosão do seu livro O Código Da Vinci, o escritor Dan Brown ficou conhecido pelas tramas sinuosas, repletas de adrenalina, mas cerebrais, envolvendo criptografia, simbologia, parceiras inteligentes e sexy, cultos religiosos secretos e violentos, e fanáticos desequilibrados propensos a assassinatos em massa e destruição.



Mas seu novo livro, por outro lado, é sobre um rato maestro que recruta um grupo de animais para tocar numa orquestra, ao mesmo tempo que oferece provérbios sobre as virtudes da coragem, paciência e cooperação. O público-alvo são crianças em idade de três a sete anos.

O livro será lançado nesta semana juntamente com um álbum de música clássica para crianças chamado Sinfonia dos Animais, com músicas compostas por Brown e baseadas em canções que ele criou há 30 anos quando era um aspirante a músico, por volta dos 20 anos de idade – bem antes de publicar qualquer romance.

Na época, Brown, que hoje tem 56 anos, gravou as músicas usando sintetizadores no seu minúsculo estúdio. Ele produziu 500 cassetes (e livros de bolso de poesia) e os vendeu em consignação para a livraria da localidade onde morava. O álbum recentemente lançado tem versões atualizadas das músicas originalmente compostas juntamente com outras novas, todas interpretadas e gravadas pela Zagreb Festival Orchestra na Croácia.

É um desvio de caminho inesperado de Brown, depois de lançar sete thrillers com mais de 234 milhões exemplares vendidos que o tornaram multimilionário.

Sinfonia dos Animais também se tornou, curiosamente, um objeto de disputa numa batalha legal complicada entre Brown e sua ex-mulher, Blythe Brown, depois do seu divórcio no ano passado.

Numa ação impetrada este ano, Blythe Brown afirmou que seu ex-marido distorceu os dados do seu patrimônio durante o processo de separação e que Sinfonia dos Animais foi um dos vários projetos que, alegou ela, não foi revelado quando se separaram, acrescentando ainda que ele manteve uma “vida secreta” durante anos, ocultando um caso com uma treinadora de cavalos holandesa e as compras luxuosas que fez para sua amante, incluindo dois cavalos Frísios, um deles chamado Da Vinci. (O outro era um cavalo muito cobiçado, premiado, um garanhão preto chamado Edição Limitada que custa US$ 345.000, segundo informação no processo).

Dan Brown contestou a ação em 30 de julho, alegando difamação e injúria, afirmando que sua ex-mulher estava disposta a “degradá-lo publicamente e destruir o seu legado”. “Qualquer insinuação ou afirmação de que menti ou ocultei dinheiro é absolutamente falsa”, Brown afirmou numa entrevista recente. “Estou realmente chocado com a decisão dela”.



 

Talentos ocultos


Brown conversou comigo por vídeo numa tarde recente de agosto, da barroca e cavernosa biblioteca em sua casa em Rye Beach, New Hampshire, não muito longe de onde ele cresceu, no campus do internato Philips Exeter, onde seu pai foi professor de matemática.

Durante a entrevista, ele me mostrou uma câmara secreta atrás da biblioteca que esconde uma gaveta onde está seu primeiro livro, escrito quando ele tinha cinco anos, intitulado A Girafa, o Porco e as Calças em fogo, como também um piano Steinway onde pratica seu hobby e foi sua primeira aspiração profissional: compor música.

Para ter acesso ao seu estúdio de gravação, onde há um sintetizador conectado a um computador, ele pressiona o canto de um quadro na parede mostrando uma mulher vitoriana sentada num jardim – e uma porta escondida se abre.

As paredes do estúdio estão decoradas com discos de ouro que recebeu pelas vendas explosivas dos seus audiobooks em língua alemã – não era bem o que tinha em mente quando decidiu se tornar um músico, “mas eu os conservo”, afirmou.

O processo musical de Brown se desenvolve deste modo: ele compõe no piano, criando melodias e inserindo-as numa peça que ele memoriza. E toca a música no teclado conectado a um computador que lhe permite adicionar a instrumentação distribuindo as frases musicais para diferentes instrumentos.

Depois, normalmente a música fica guardada no seu cofre-forte digital. Mas há dois anos, quando estava em Xangai para promover seu romance de 2017, Origem, um entrevistador de TV perguntou a ele sobre um antigo e esquecido projeto. O apresentador exibiu um exemplar do álbum infantil que ele havia gravado décadas antes, originalmente chamado Synthanimals.

“Disse a ele que estava ali para falar sobre o livro Origem”, lembrou Brown. “Mas ele insistiu em falar de música”.

O novo projeto avançou logo depois disto. Brown ficou surpreso com o fato de seu álbum infantil vir à tona daquela maneira, num programa de TV chinês e isso causar sensação. A editora chinesa sugeriu lançá-lo. E seu editor americano também se interessou pelo projeto.

Assim, Brown requisitou a ajuda do projetor Bob Lord, diretor executivo da Palma Recordings e seu amigo há mais de 15 anos. Ele viajou para a Croácia para gravar com a Zagreb Orchestra e refinar a execução, fazendo pequenos ajustes nas sequências e ritmo das músicas.

“Ele realmente sabe o que está fazendo”, disse Lord, revelando que Brown também canta. “Não é só um hobby. É crucial para sua visão artística”.

Para satisfação de Brown, a editora de música clássica Boosey & Hawkes assinou contrato para editar suas partituras.

“Isso deu a ele uma validação como músico”, disse Mallory Loehr, vice-presidente sênior e editor da Random House Books for Young Readers Group, que está publicando o livro ilustrado através da Rodale Kids. (Será lançado também um aplicativo que toca músicas relacionadas a cada animal, com músicas como Busy Beetles, Brilliant Bat e Happy Hippo).

Por mais surpreendente que esta última aventura de Brown seja para seus fãs, existem elos comuns na sua música e escrita. Compor e escrever ficção estão intimamente interligados para ele.

“Para escrever uma canção ou uma peça de música clássica você tem de compreender a estrutura, a tensão e o desbloqueio. Boas frases musicais perguntam e dão uma resposta. Você não pode ter cinco cenas de caça consecutivos, da mesma maneira que não pode ter cinco fortíssimos consecutivos. É preciso haver intervalos para permitir que o ouvinte ou o leitor respire”.

 

O romance como Plano B


Daniel Gerhard Brown sempre teve uma inclinação musical. Sua mãe era professora de piano e organista da igreja e Brown já tocava piano desde pequeno. Adulto, adorava Bach, Tchaikovsky e Béla Bartók, e começou a compor quando tinha cinco anos de idade. 

Estudou composição musical e Inglês no Amherst College e depois de formado ficou em dúvida se seguiria uma carreira de escritor ou músico. Compor música parecia “muito mais divertido”, afirmou.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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