Gaby Gerster/Diogenes Verlag
Gaby Gerster/Diogenes Verlag

Dennis Lehane lança 'Depois da Queda', seu primeiro livro narrado sob a perspectiva de uma mulher

Um dos principais autores de literatura policial, com vários títulos adaptados para o cinema, como 'Sobre Meninos e Lobos', o americano fala sobre seu novo livro - que também vai virar filme

Entrevista com

Dennis Lehane

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

17 de fevereiro de 2018 | 06h00

Se vivesse no Brasil, o americano Dennis Lehane – um dos mais importantes escritores da atual literatura policial – teria farto material à disposição. “Afinal, corrupção é um assunto que interfere na vida de todos, portanto, é de interesse comum”, disse ele ao Estado, em uma entrevista por telefone, na noite de quinta-feira, 15. Lehane fala do lançamento de seu 14.º livro, Depois da Queda, pela Companhia das Letras, que edita sua obra no Brasil. 

Conhecido por tramas normalmente violentas e que, sob uma atmosfera sufocante, apresenta enredos investigativos, Lehane esteve no Brasil em 2007, quando participou da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, na qual participou de uma mesa ao lado de outro autor especializado em novela policial – o mexicano Guillermo Arriaga. Do evento, ele se recorda vividamente de um encontro fortuito com um primo irlandês, o qual só sabia da existência.

Lehane é habitualmente lembrado pelas obras que chegaram ao cinema, como Sobre Meninos e Lobos (2002), filmado por Clint Eastwood, e Shutter Island (2003), aqui publicado como Paciente 67, depois reeditado com o título nacional que ganhou no cinema, Ilha do Medo, longa de Martin Scorsese.

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Depois da Queda, cuja adaptação para o cinema é preparada pelo próprio Lehane, acompanha a trajetória de Rachel Child, jornalista de TV que tem um colapso mental durante uma transmissão ao vivo, quando cobria os efeitos catastróficos do terremoto no Haiti, em 2010. Ela passou parte da vida buscando informações sobre seu pai desconhecido e, após sucessivas crises de pânico, ela reencontra um antigo conhecido, com quem se casa. A vida, no entanto, não se acerta e Rachel é empurrada para uma conspiração cheia de decepções, violência e loucura. Nesse instante, a trama ruma para um caminho diferente, com mais lances de suspense e com Lehane exibindo sua capacidade de investigar complexidades psicológicas. 

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Esse é seu primeiro livro narrado sob a perspectiva de uma mulher. Como foi esse trabalho?

Não foi tão difícil como pode parecer. Nunca tive problema com raça ou gênero, mas curiosamente o que me deixou mais preocupado era escrever sobre determinada classe social – e a de Rachel se aproxima da minha. Parece estranho, mas quanto mais você tem detalhes sobre o assunto, mais trabalho terá. Fiquei muito atento ao escrever sob o ponto de vista de Rachel. Quando terminei o primeiro rascunho da história, peguei muitas bandeiras vermelhas.

Outro detalhe interessante sobre o livro são suas reviravoltas.

Aí foi mais trabalhoso e o jogo estava em equilibrar os tempos presente e passado. Em como fazer com que a descoberta de fatos antigos alterasse o curso da rotina atual. É o chamado “Hitchcock plot device”, ou seja, os dispositivos surpreendentes que mudam uma trama ao serem revelados. Meu cuidado, ao escrever, foi evitar que a narrativa se apresentasse como a prévia de um roteiro, onde tudo se encaixa. Eu me policiei para colocar fatos que vão dificultar uma versão para o cinema, mas que favorecesse o romance e, por extensão, satisfizesse o leitor.

Rachel passa boa parte do livro em busca do pai desconhecido. Como viu nesse fato uma pista que transformasse o livro em um bom suspense?

Primeiro, é a busca da própria identidade. Rachel quer entender quem ela realmente é ao desvendar os mistérios que rodearam a mãe, com quem conviveu toda a vida, e o pai, que foi embora em sua infância. Ela sabe que é o fruto daquelas duas vivências e tenta se reencontrar. Mas devo confessar que foi uma das últimas modificações que fiz no livro – eu sentia que algo não estava funcionando bem e, de repente, às 3 horas de uma madrugada, tive o estalo. O livro já estava pronto para ser impresso, mas pedi para adiar, pois precisava fazer essa alteração.

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Você identificaria um tema que seria comum a todos seus livros.

A importância da família, com certeza. Não diria que é uma obsessão, mas é um assunto recorrente e que, até meu sétimo livro (Paciente 67, de 2003), eu não havia notado esse detalhe. Acredito que, por meio da escrita, proponho questões sobre a função da família ou sua definição – afinal, a família se define a partir de uma relação sanguínea ou é possível determinar quem faz parte de sua relação social e afetiva.

Muitos escritores usam o suspense para tratar de assuntos relacionados à identidade. O que pensa sobre isso?

Sim, concordo plenamente. Identidade é um tema caro a praticamente toda a literatura mundial – e Shakespeare foi mestre ao tratar disso, especialmente em Hamlet. É o que Rachel busca desvendar ao sair em busca de seu pai. A pergunta que todos se fazem é “Quem sou eu?”. E a resposta vai certamente apontar caminhos para a vida de cada um.

Os ataques de pânico de Rachel angustiam o leitor, o que prova a força do texto. Você fez muitas pesquisas para entender esse momento?

Fiz muita pesquisa, sim, para ter detalhes técnicos. Mas não fui a fundo, pois preferi usar minha próxima experiência: há 12 anos, levei um susto porque, durante duas semanas, tive ataques de pânico como esses da Rachel. É muito apavorante, mas me ajudou na escrita.

O Brasil vive um momento marcado por muitas denúncias de corrupção. Esse seria um farto material para um livro policial?

Sim, com certeza. Os assuntos que mais interessam aos leitores são aqueles próximos de sua rotina ou que vão afetar sua vida. E a corrupção é algo que, direta ou indiretamente, acaba interferindo na rotina das pessoas. Sim, corrupção é um assunto muito estimulante.

Quais memórias você guarda de sua vinda à Festa Literária Internacional de Paraty, em 2007?

Foi uma viagem maravilhosa. Guardei muitas lembranças, mas uma se destaca: em um determinado dia em que eu não estava bem do estômago (o que me impediu de experimentar a culinária brasileira, infelizmente), fui almoçar em um restaurante de comida italiana, que fica em uma esquina. Ao dobrar o quarteirão, encontrei um primo irlandês que não conhecia pessoalmente e que, por trabalhar com livros, estava em Paraty. Foi muito inesperado.

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