Javier Narvaez Estrada
Javier Narvaez Estrada

Crítica argentina Sylvia Molloy lança livro e faz debate em SP

Em 'Viver Entre Línguas', a intelectual conta como foi crescer trilíngue; Molloy participa hoje de evento em SP

Guilherme Sobota, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2018 | 06h00

Bem menos conhecida no Brasil do que na América hispânica e nos Estados Unidos, onde estabeleceu residência há pelo menos 40 anos, a crítica literária argentina Sylvia Molloy desembarca no País para lançar a edição brasileira de Viver Entre Línguas, um sensível relato autobiográfico publicado pela editora Relicário.

Molloy participa de um painel com a professora da USP Paloma Vidal, a pesquisadora Mariana Pires e a cotradutora Mariana Sanchez (Julia Tomasini também assina a tradução), nesta segunda-feira, 12, no Instituto Cervantes (Av. Paulista, 2439), às 19h30.

Professora emérita da Universidade de Nova York, onde criou o programa de escrita criativa em espanhol, Molloy constrói no livro um ensaio que pode ser lido como uma defesa da linguagem – num tempo em que estadistas usam o ataque à linguagem como estratégia de dominação autoritária, o livro extrapola as camadas autobiográficas nas quais a autora escreve.

Ela conta como foi crescer num ambiente trilíngue – nascida na Argentina, aprendeu primeiro o espanhol; o pai, de ascendência inglesa, passou a lhe dirigir o inglês quando ela tinha três anos e meio; o francês lhe apareceu, conta, como uma “recuperação”: os irmãos mais velhos de sua mãe falavam o francês com os pais, mas a própria mãe não. “Essa mistura, o ir e vir, o switching pertence ao domínio do unheimliche (misteriosos) que é, justamente, o que abala a fundação da casa”, escreve.

Ela então fundamenta nesse fato discussões e histórias breves sobre território, liberdades, relações domésticas, imigração, violência e literatura.

Conta um episódio no qual ensinava Borges para alunos em Nova York – apresentou a prosa traduzida para o inglês, e depois passou à poesia, em edição bilíngue, quando notou uma quebra na expectativa. A duplicidade primeiro confortou os alunos, mas a disposição das páginas, com o original em espanhol à esquerda, tingiu o conforto de desconfiança.

Molloy arremata esse episódio: “Tenho muitas vezes me perguntado se o fato de este curso coincidir com o ataque às Torres Gêmeas – que abalou a todos espacial, temporal e, poderia se dizer, nacionalmente – teve algo a ver com essa curiosa reação. Todos, por um instante, éramos nova-iorquinos, todos éramos daqui, todos falávamos inglês originalmente. Até eu caí na armadilha: antes de me reunir com a turma pela primeira vez, a três dias do ataque, vi na lista um sobrenome inconfundivelmente árabe e fiquei inquieta, temendo um confronto, um conflito cultural com que não saberia lidar, um hijab impossível de ignorar. No primeiro dia, ao fazer a chamada, identifiquei a aluna: era uma garota queer, com mechas de cabelo tingidas de azul brilhante e uma argola na sobrancelha. Agradeci por se tratar de uma diferença que eu sabia traduzir.”

Em um evento de lançamento do livro em Buenos Aires, em 2016, Molloy apontou seu objetivo ao trabalhar nesse panorama entre idiomas “o que mais me interessa é a mobilidade do fenômeno, não a pureza da língua. Já se cometeram muitos crimes em nome da pureza das línguas”.

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