Sylvia Molloy ainda me levará a Borges

Sylvia Molloy ainda me levará a Borges

De certos autores gostamos de imediato; de outros, aprendemos a gostar, e gostar mesmo.

Estado da Arte

20 de novembro de 2017 | 12h00

A crítica argentina Sylvia Molloy

Por Pedro Sette-Câmara

Foi por causa de Oswald de Andrade que a ideia de canibalismo literário se disseminou na literatura acadêmica brasileira. Aproveito a ideia de comer para pensar nas nossas apetências literárias, que não estão lá tão distantes das apetências culinárias.

De certos autores gostamos de imediato; de outros, aprendemos a gostar, e gostar mesmo. No meu caso, o melhor exemplo é o poeta inglês W.H. Auden. Até os 26 anos, os poemas de Auden faziam com que eu me sentisse, para recordar uma frase que Bruno Tolentino gostava de repetir, um cachorro ouvindo uma conversa humana. Um dia as portas da percepção se abriram, e hoje, cuidado — sou capaz de falar de Auden até o dia raiar.

Uma autora de que gostei de imediato foi a argentina Silvia Molloy. Já tinha me deparado com seu nome, mas só fui lê-la quando um ensaio seu entrou no syllabus do curso que estou fazendo na Universidad de Buenos Aires. O texto, dedicado a Sarmiento, o “pai da pátria” dos argentinos, é o primeiro capítulo de Acts of Presence — o original é em inglês mesmo —, seu livro sobre a “escritura autobiográfica na América Latina”.

A expressão “escrita autobiográfica” parece, à primeira vista, uma daquelas inflações linguísticas tão ao gosto dos acadêmicos. Silvia Molloy é acadêmica, professora emérita da New York University, mas passa longe de Odorico Paraguaçu. O termo é apenas uma precisão: a palavra “autobiografia”, isolada, poderia sugerir obras inteiras. Mas aqui mesmo neste texto tenho momentos de escrita autobiográfica: estou em Buenos Aires, faço um curso na UBA, e na sexta (17/11) fui ver Silvia Molloy.

Não me surpreendi ao encontrar na pessoa, cercada por alunos da sucursal da New York University em Buenos Aires e por outros interessados, a mesma voz que encontrei naquele ensaio fascinante sobre Sarmiento. A prova da coincidência entre a voz que fala e a voz que escreve veio na primeira leitura da noite, o trecho inicial de seu ensaio “Traducir a Borges” — com o detalhe de que Molloy foi amiga de Borges.

(Afinal, o texto acadêmico apresenta um desafio particular: como preservar a própria voz, algo de particular e pessoal, ao escrever no campo minado da argumentação, buscando apoio em notas de rodapé? Molloy faz pensar naquela palavra que almas classicizantes como a minha apreciam: sprezzatura, a aparência de que a obra é realizada sem esforço.)

Duas coisas que Molloy contou de sua experiência me chamaram a atenção em particular. Seu primeiro trabalho de ficção, En Breve Cárcel (traduzido no Brasil como Em Breve Cárcere, no mundo anglo como Certificate of Absence) não pôde ser publicado na Argentina até o fim da ditadura, por causa da temática lésbica. O livro saiu na Espanha, algumas cópias chegavam à Argentina, o livro circulava via xerox — samizdat há pouco menos de quarenta anos, ao lado do Brasil. Mesmo depois da liberação, Molloy entrava nas livrarias de Buenos Aires e não o encontrava — os livreiros ainda diziam “nunca ouvi falar” com aquela cara que um brasileiro interpreta como grosseria, mas que é uma resignação um tanto teimosa.

E, como ela estava aqui em parte para promover seu livro ensaístico Vivir entre Lenguas, contou mais uma experiência que pode surpreender um brasileiro. Em 2001 ela dava aula para uma turma de primeiro ano na New York University quando ocorreu o ataque de 11 de setembro. A matéria era literatura hispânica, e o ataque acentuou a sensação de estrangeiridade entre os alunos, entre os quais havia apenas uma hispana nativa. Porém, todos falavam uma segunda língua em casa, com os pais ou com os avós — e tinham vergonha disso.

Junto com Beatriz Sarlo, sempre mencionada no Brasil, Molloy é considerada uma das grandes leitoras de Borges. Semana passada, também deu uma conferência sobre o Camões dos argentinos na Biblioteca.

É aqui que retomo minha meditação sobre os autores que nos apetecem. Borges e eu — um relacionamento ainda frio. Admiro alguns poemas, reconheço algumas frases perfeitas, e um conto, aquele do tcheco que ganha de Deus um ano de vida mental na hora da morte, realmente me emocionou.

De resto, continuo a lê-lo, em parte por obrigação (como escrever uma tese de doutorado que trata, em parte, de literatura argentina sem citar Borges?), em parte por fé de que o amor vá surgir em nosso casamento arranjado. Vejam que estou falando de puro gosto, pura apetência. Se Silvia Molloy gosta tanto assim de Borges — ela e tantas pessoas que admiro, de Jean-Pierre Dupuy a Antonio Fernando… Borges, ou José Francisco Botelho, que aqui neste Estado da Arte deixou-nos um delicioso texto sobre o cego —, sigo determinado, na base do crede ut intelligas. Se a mágica não acontecer, a culpa é minha.

 

Pedro Sette-Câmara é tradutor e doutorando em literatura comparada na UERJ

 

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