Hulton Archive Collection
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'A relação mais importante da vida do meu pai era com o leitor', diz filho de J. D. Salinger

No centenário de J. D. Salinger e no momento em que 'O Apanhador no Campo de Centeio' ganha nova tradução, Matt Salinger, filho do célebre escritor americano, fala sobre o pai e seus misteriosos inéditos

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

15 de junho de 2019 | 03h00

Quando Matt Salinger nasceu, em 1960, O Apanhador no Campo de Centeio, o livro mais famoso de seu pai que ganha agora nova tradução no Brasil, já estava nas livrarias havia quase uma década. O garoto sempre soube que tinha um pai diferente, mas só perto dos 7 anos é que começou a entender a dimensão disso e os efeitos do sucesso e da reclusão de J. D. Salinger (1919-2010).

Hoje, aos 59, o ator (ele interpretou Capitão América no filme de 1990) e herdeiro de um dos mais celebrados escritores americanos, Matt Salinger está mergulhado em inéditos de seu pai cuja existência ele tornou pública muito recentemente. Matt Salinger, que organiza esse material para uma futura publicação com Colleen O’Neill, viúva do autor, conversou com o Estado por telefone. 

O que são exatamente esses inéditos e qual é o seu volume? 

O que posso dizer é que ele continuou escrevendo como ele sempre escreveu: entre 4 e 8 horas por dia, durante 50, 60 anos. Nada mudou depois que ele parou de publicar em 1965. É muita coisa escrita. Nem tudo estava bem organizado, pronto para ser entregue para uma editora. Muito foi escrito em máquinas manuais, e ele costumava usar espaço duplo e fazer anotações entre as linhas e nas margens. E escrevia muito à mão – tinha cadernos espalhados pela casa toda, sempre um bloco em seu bolso e papéis no carro. Encontrei uma grande variedade de anotações e de tipos de escritos. Eu queria que ele tivesse feito esse trabalho todo de preparar esse material para ser publicado, e ele sempre pensou em fazer isso. Sua orientação para mim foi: publique tudo – o bom e ruim, o que foi meticulosamente polido e o que não foi. Devemos ter algo pronto em seis ou sete anos.

Encontrou algum livro inteiro?

Não posso entrar nisso, e explico. A relação mais importante da vida do meu pai era com o seu leitor. Isso era sagrado. E ele queria que fosse uma relação direta e pura: sua imaginação por meio de sua escrita diretamente na imaginação do leitor. Foi por isso que ele nunca autorizou filmes ou peças e nunca permitiu resenhas, sinopses ou fotos na capa de seus livros. Se eu começar a falar sobre o que encontrei ou não encontrei, e sobre o que acho daquilo, isso iria aumentar a expectativa dos leitores ou diminuí-la, ou apenas mudar o tipo de expectativa. E esse é exatamente o tipo de bagunça, de uma intermediação disruptiva, que o meu pai nunca, nunca quis. 

Como é mergulhar nisso tudo?

Muito emocionante. Eu amo isso, é uma honra, gosto de seus escritos e amo meu pai. Esse trabalho manteve meu pai vivo para mim de uma forma muito real. Acho que artistas têm sorte nisso. Eles não morrem do mesmo jeito que as outras pessoas morrem. Meu pai deixou todos esses escritos para trás e em todos eles eu sinto seu senso de humor, sua capacidade para o amor, sua gentileza, suas brutalidades. Tudo. Ele deixou para trás parte de sua alma em seus escritos. É maravilhoso e emocionante.

Como leitor, do que você mais gosta na obra de seu pai?

Sua obra-prima é Franny & Zooey. Uma vez, quando eu era muito jovem, perguntei a ele se ele não se sentia solitário (ele passou um tempo vivendo sozinho) e ele respondeu: ‘Não, Matt, nunca, nunca. Sou cercado por amigos. A maioria deles está morta, alguns estão dentro de livros, outros são autores de livros. Mas quando quero passar um tempo com um deles apenas pego o livro da estante’. Me sinto mais ou menos desse jeito com relação a ele e à sua obra.

Ele gostava de escrever, mas não de publicar – e pediu que cuidasse disso. Por quê?

Ele nunca gostou da fama e a atenção que começou a receber da imprensa o perturbava profundamente. Sabia que um novo livro seria um acontecimento enorme e ele não queria participar disso. Considerou lançar uma versão maior da novela Hapworth 16, publicada em 1965 na The New Yorker, falou sobre escrever uma longa introdução para essa edição, e havia outro livro sobre o qual ele falava. Mas dizia que se fizesse isso teria de desaparecer um ano na Irlanda ou Suíça, e não fazia.

No fim das contas, ele foi feliz com o que conquistou e com seu estilo de vida?

Não quero falar por ele, mas minha sensação é de que sim, ele foi muito feliz. Ele relia seu trabalho com alguma frequência e o de outros autores, e ele sentia muito prazer nisso.

Nove anos depois que seu pai morreu, do que sente mais falta?

Oh, boy. Sinto falta de sua voz, de ouvir sua risada. Ele tinha uma risada estrondosa, feroz. Totalmente descontrolada. Sinto falta de sua agudeza. Ele era tão perceptivo. Ele não apenas lia, ele estudava um assunto por décadas, mergulhava por inteiro nas coisas. Em alguns de seus livros ele fala sobre sabedoria e sobre como ela é diferente de conhecimento. Ele não era sempre sábio. Ele mesmo dizia que podia ser uma mula, e podia mesmo (risos). Mas ele era o mais próximo de ser sábio do que qualquer outra pessoa que eu conheci. 

Qual foi a lição mais valiosa que ele ensinou?

A não acreditar em autoridades, a tentar descobrir as coisas por conta própria, a procurar outras opiniões e saber o que as outras pessoas fizeram ou pensaram para construir seu próprio caminho – e não se prender a ele se isso não fizer mais sentido. Ele acreditava na habilidade inata e no direito de as pessoas determinarem o curso de suas vidas. 

Escreveria uma biografia?

Não. Ele disse que qualquer coisa que as pessoas poderiam querer saber sobre ele está em seus livros. E isso será ainda mais verdadeiro quando o material inédito for publicado. As pessoas vão saber muito mais do que elas provavelmente gostariam de saber (risos). 

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