YANA BLAJEVA/LIONSGATE/EFE
A atriz mexicana Adriana Barraza é María Beltrán e Sylvester Stallone John Rambo no filme sobre culpa e perdas YANA BLAJEVA/LIONSGATE/EFE

Stallone no filme de despedida de Rambo

‘Até o Fim’ mostra o ato final do herói, atormentado por seus demônios

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2019 | 07h00

Olhe a foto acima. Ela pertence a uma cena logo no começo de Rambo - Até o Fim, de Adrian Grunberg, que estreia nesta quinta em todo o Brasil. O herói está cansado. Melhor seria dizer, amargurado. No quinto filme da franquia iniciada em 1982, com Programado para Matar/First Blood, de Ted Kotcheff, Rambo cria cavalos na fronteira mexicana. Tem uma família, é um homem de paz. Uma tempestade abate-se sobre a região e ele, como voluntário, tenta salvar vidas. Salva uma, perde duas. Volta para casa abatido, derrotado, e não adianta a mulher que acolheu em sua casa dizer que não foi culpa dele. E o importante é que tentou. Lá no fundo, Rambo é atormentado por lembranças. Companheiros que perdeu em combate, amigos, os mortos dessa enchente.

Felizmente, existe a garota. É filha da serviçal. Trata Rambo como “tio”. Rapidamente, esboça-se o conflito. A garota tem um pai omisso. Descobre o paradeiro dele - no México. Contra as advertências do tio, da avó, vai ao encontro dele. O pai, bem dizia Rambo, não presta. Diz coisas que deixam a garota sem norte e ela acompanha a amiga, que presta menos ainda, na balada. É drogada e vendida como escrava sexual. Os irmãos Morales são os exploradores de mulheres. 

Ao saber do que ocorre, Rambo atravessa a fronteira e vai atrás dela. Nosso homem tem experiência suficiente para saber que a humanidade não presta. Um dos Morales cospe na cara dele a “verdade” - mulheres não significam nada para machos como o irmão e ele. São menos que mercadorias, mas, por aquele gringo ter ousado interpelá-lo, ele vai dedicar atenção especial à jovem. Isso significa violência, muita violência.

Recapitulando - lá atrás, ao surgir em livro, Rambo (o nome era uma homenagem do autor ao poeta Rimbaud), o herói já tinha esse perfil. O ex-prisioneiro que conheceu o inferno na guerra. No cinema, o primeiro inimigo, quando Rambo chegava à América desmobilizado, era o autoritário xerife de uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos. Rambo e o xerife representavam as duas faces da mesma moeda, e o diretor Kotcheff, que já havia feito um filme excepcional (Pelos Caminhos do Inferno, sobre a matança de cangurus na Austrália), estava seguindo a trilha de Arthur Penn, ao mostrar que os norte-americanos só conseguem resolver seus conflitos por meio da violência.

A resposta do público foi imediata e o astro Sylvester Stallone percebeu o potencial do personagem. Fez dele um emblema da era Ronald Reagan. Em Rambo 2 - A Missão, o herói vencia na ficção a guerra (do Vietnã) que os EUA haviam perdido na realidade. Em Rambo 3, enfrentava e, naturalmente vencia, os conselheiros militares soviéticos no Afeganistão. Rambo virou um eficiente soldado da Guerra Fria. Passaram-se 20 anos e, em 2008, no 4, o inimigo era outro, o exército de Myanmar. E, agora no 5, o narcotráfico mexicano, que o presidente Donald Trump não cessa de citar como inimigo da América (e por isso quer construir um certo muro).

Qualquer espectador que tenha visto os filmes precedentes sabe que os irmãos Morales e seus sicários não terão a mínima chance contra Rambo. Ele vai promover uma verdadeira carnificina - você vai perder a conta dos mortos quando ele atrai os traficantes para a rede de subterrâneos que construiu em sua fazenda. Mas isso é só parte do filme. O título já adverte - Até o Fim. Rambo, cada vez mais solitário, perde sua última família. Recolhe-se à cadeira de balanço, como o mais patético dos personagens do mestre John Ford, Hank Worden, em Rastros de Ódio. É um filme sobre perdas. As coisas mortas que permanecem vivas na lembrança e as vivas que começam a desaparecer. Não é um filme catártico. Tudo se perdeu, no mundo atual, e Rambo sabe disso. Ao contrário de Rocky, seu outro personagem emblemático, Stallone não vê um sucessor para Rambo. É um filme de despedida.


 

Créditos finais lembram as muitas faces do astro

Seja ideia do próprio astro ou do diretor Adrian Grunberg, o desfecho do novo Rambo, enquanto estão rolando os créditos do longa, propõe ao público uma viagem pelo passado do personagem, e consequentemente, do próprio Sylvester Stallone.

Ele tinha 36 anos quando fez Programado para Matar, com direção de Ted Kotcheff, em 1982; 39, na época de Rambo 2 - A Missão, de George Pan Cosmatros; 43, em Rambo 3, de George MacDonald; e 62, quando dirigiu e interpretou Rambo 4. Stallone tem agora 73, mas parece até mais velho no Rambo 5. O filme é sobre a última vingança de um velho que viveu pela e para a violência. Não tem volta. Fatalisticamente, Rambo/Stallone diz que ninguém foge ao seu destino, nem deixa de ser o que é.

Adrian Grunberg, que dirige Rambo - Até o Fim, foi assistente em Wall Street - O Dinheiro Nunca Dorme e Apocalypto. Estreou como diretor em Plano de Fuga, com Mel Gibson, em 2012.

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Às vésperas da estreia de 'Rambo - Até o Fim', lembre os outros filmes da série

O personagem de Sylvester Stallone surgiu nas telas em 1982 e evoluiu bastante nesses 37 anos; confira

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2019 | 10h00

Em meados dos anos 1970, após o episódio da quebra de confiança produzida pelo escândalo de Watergate - que levou à renúncia do presidente republicano Richard M. Nixon, a 'América' olhou para dentro de si mesma com esperança e elegeu o democrata Jimmy Carter, que prometia uma era de ética. 

Como emblema desse período surgiu o filme Rocky, Um Lutador, de John G. Avildsen, com seu personagem emblemático. Rocky recebeu os Oscars de melhor filme, direção e montagem de 1976. Dois anos depois, Michael Cimino fez a autópsia do que representara para a nação a Guerra do Vietnã, em O Franco-Atirador, e venceu os Oscars de filme, direção, montagem, som e ator coadjuvante (Christopher Walken).

Na sequência de O Franco-Atirador surgiu Rambo - Programado para Matar, de Ted Kotcheff, em 1982. Os Estados Unidos haviam mudado de presidente, e o ex-ator Ronald Reagan, aproveitando o fiasco representado pelas sucessivas falhas da administração Carter - na economia, na política internacional, com o caso dos reféns no Irã -, iniciou outra fase de mudança. Sylvester Stallone, que interpretara Rocky, também foi John Rambo, e o personagem despontou crítico. Stallone transformou-o em emblema da era Reagan - seus dois personagens icônicos, Rocky e Rambo, alinharam-se com os interesses da Casa Branca.

Rambo venceu na ficção a guerra (do Vietnã) que os EUA haviam perdido na realidade e Rocky venceu no ringue a guerra ideológica com o soviético Drago. Às vésperas da estreia de Rambo - Até o Fim - nesta quinta, 19 -, vamos lembrar a série toda.

 

Programado para Matar, de Ted Kotcheff, 1982

 

 

O filme chamava-se assim no Brasil e só depois do sucesso de Rambo - A Missão, o nome foi incorporado ao título. Rambo surgira num livro escrito por David Morrell em 1972 e o autor disse que o nome, inspirado num tipo de maçã da Pensilvânia, impôs-se, para ele, pela força sonora, mas também era uma homenagem ao poeta francês Artur Rimbaud, que escrevera Uma Estação no Inferno. Como ex-prisioneiro no Vietnã, Rambo também teria conhecido o inferno.

Foi assim que ele apareceu pela primeira vez na telas. O canadense Kotcheff já fizera um filme clássico sobre a matança de cangurus na Austrália - Pelos Caminhos do Inferno. Imaginou esse veterano de volta da guerra e em choque com o xerife de uma pequena cidade. As duas faces da mesma moeda chamada violência. O xerife (Brian Dennehy) tem ideias próprias sobre lei e ordem em sua cidade. Tenta enquadrar o arruaceiro Rambo, mas ele recorre às técnicas de guerrilha que adquiriu combatendo no Sudeste Asiático para enfrentar - e subverter - a autoridade. Programado para Matar centra-se no confronto desses dois homens. A vitória de Rambo é a da individualidade e da rebeldia. Era um (grande) filme 'contra' e Kotcheff voltou ao Vietnã, no ano seguinte, com Uncommon Valor/De Volta ao Inferno, para deixar claras suas ideias. Só para esclarecer. Tornou-se produtor executivo e diretor na série Law and Order, com Christopher Melloni e Mariska Hargitay.

 

Rambo II - A Missão, de George Pan Cosmatos, 1985

 

 

Aqui começa a mudança e John Rambo volta ao Vietnã para resgatar companheiros que permanecem num campo de prisioneiros. Se no primeiro filme basta um inimigo, e uma morte, agora vira carnificina. No 1, com o maior sangue-frio, Rambo/Stallone costurava a própria carne para estancar a sangueira produzida por um corte profundo. Cabra (muito) macho. No 2, os diálogos dão conta de que ele recebeu 2 Estrelas de Prata, 4 Bronzes (Estrelas de Valor), 4 Purple Hearts, etc. Dessa vez Rambo tem dois inimigos - um oficial norte-americano e outro russo. Richard Crenna, como o coronel Trautman, é quem o entende (e tenta ajudar).

As mortes multiplicam-se, Rambo vence na ficção a guerra que os EUA perderam, mas, para falar a verdade, ele chegou um pouco atrasado. Um ano antes Chuck Norris se antecipara e fizera O Super Comando, em que seu personagem, Braddock, antecipava Rambo nas selvas do Vietnã. E, ah, sim, James Cameron quase foi o diretor. Chegou a escrever um esboço de roteiro, mas, fantasia por fantasia, preferiu abraçar, com Arnold Schwarzenegger, a de O Exterminador do Futuro.

 

Rambo III, de Peter MacDonald, 1988

 

 

No terceiro filme, e cada vez mais empenhado em vencer na fantasia as guerras em que os norte-americanos se atolavam na realidade, Rambo foi enfrentar os soviéticos no Afeganistão. Mas, calma, o começo é de paz, ele está num mosteiro budista, tentando apaziguar seus demônios internos. É quando recebe a notícia de que seu mentor, Trautman, foi preso pelos russos. E o que faz? Vai atrás, claro.

Os russos são pintados como monstros, os norte-americanos são aliados dos afegãos e esses são pacifistas natos. Não são, é claro. O próprio cinema já mostrou os afegãos como um povo selvagem do deserto, cujo divertimento é dividir-se em grupos para disputar violentamente a cabeça decepada de um bode como bola, no 'esporte' conhecido como buzkashi - o futebol deles - e Hollywood fez um grande filme sobre o assunto, Os Cavaleiros do Buzkashi, de John Frankenheimer, com Omar Sharif e Jack Palance. Todo feito sobre estereótipos, Rambo III, segundo o Guinness, é o filme mais violento produzido, com um total de 221 atos selvagens e 104 mortes que o espectador pode contabilizar. Virou game.

 

Rambo IV, de Sylvester Stallone, 2008

 

 

O próprio Stallone dirige e Rambo agora leva uma vida solitária no norte da Tailândia, pilotando seu barco. Um grupo de missionários lhe pede ajuda para levar suprimentos para uma comunidade fronteiriça. O grupo é atacado pelo Exército de Myanmar, que não é identificada como tal, mas como Burma/Birmânia, e Rambo parte para a luta. Os russos deixam de ser inimigos, uma diferença e tanto, porque Myanmar é um país dividido por etnias e grupos guerreiros que disputam o poder a ferro e fogo. Na moderna ficção, os militares de Myanmar substituíram os nazistas. A moral da história - um Rambo de esquerda, na oposição ao radicalismo de extrema direita? - é expressa pelo herói numa frase. “Quando você é provocado, matar é tão fácil quanto respirar.”

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Arnold Schwarzenegger brinca com Stallone: minha faca é maior que a sua

Ator também aproveitou para desejar ao colega toda a sorte com o novo filme da série Rambo e completa 'será esmagador'

Redação, O Estado de S. Paulo

18 de setembro de 2019 | 16h33

No clima do lançamento de Rambo - Até o Fim, Arnold Schwarzenegger postou em seu perfil no Instagram nesta quarta-feira, 18, um vídeo em que brinca com o colega Sylvester Stallone sobre o tamanho da faca que ele usou em um dos longas da série do famoso personagem.

"Sly, acabei de ver a faca que você autografou para a caridade, é inacreditável, olhe para ela... Porém, isto não é uma faca", brinca Schwarzenegger no vídeo. Segundos após, ele ergue uma faca ainda maior, com um autógrafo seu, e diz: "Isto sim é uma faca, eu a usei durante o Predador, ela é apenas um pouco maior que a sua, mas não se preocupe com isso".

Em sequência, um pouco mais sério, ele deseja a Stallone "toda a sorte com o Rambo neste final de semana, vai ser um hit, será esmagador, você é o melhor", finaliza. Na legenda do post, ele também diz ter amado o novo filme, e prometeu "comprar uma faca nova para celebrarem". 

 

Veja o post abaixo:

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Good luck with Rambo this weekend, @officialslystallone. I loved it, and when it’s a hit I’m going to buy you a new knife to celebrate.

Uma publicação compartilhada por Arnold Schwarzenegger (@schwarzenegger) em

 

Rambo - Até o Fim, é o quinto filme da série e promete uma viagem amarga e repleta de despedidas. Além de Stallone, estão no filme Paz Vega, Yvette Monreal e Sergio Peris-Manchetta. A direção é de Adrian Grunberg com data de estreia para 19 de setembro.

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