Orion Pictures/Estadao
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Às vésperas da estreia de 'Rambo - Até o Fim', lembre os outros filmes da série

O personagem de Sylvester Stallone surgiu nas telas em 1982 e evoluiu bastante nesses 37 anos; confira

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2019 | 10h00

Em meados dos anos 1970, após o episódio da quebra de confiança produzida pelo escândalo de Watergate - que levou à renúncia do presidente republicano Richard M. Nixon, a 'América' olhou para dentro de si mesma com esperança e elegeu o democrata Jimmy Carter, que prometia uma era de ética. 

Como emblema desse período surgiu o filme Rocky, Um Lutador, de John G. Avildsen, com seu personagem emblemático. Rocky recebeu os Oscars de melhor filme, direção e montagem de 1976. Dois anos depois, Michael Cimino fez a autópsia do que representara para a nação a Guerra do Vietnã, em O Franco-Atirador, e venceu os Oscars de filme, direção, montagem, som e ator coadjuvante (Christopher Walken).

Na sequência de O Franco-Atirador surgiu Rambo - Programado para Matar, de Ted Kotcheff, em 1982. Os Estados Unidos haviam mudado de presidente, e o ex-ator Ronald Reagan, aproveitando o fiasco representado pelas sucessivas falhas da administração Carter - na economia, na política internacional, com o caso dos reféns no Irã -, iniciou outra fase de mudança. Sylvester Stallone, que interpretara Rocky, também foi John Rambo, e o personagem despontou crítico. Stallone transformou-o em emblema da era Reagan - seus dois personagens icônicos, Rocky e Rambo, alinharam-se com os interesses da Casa Branca.

Rambo venceu na ficção a guerra (do Vietnã) que os EUA haviam perdido na realidade e Rocky venceu no ringue a guerra ideológica com o soviético Drago. Às vésperas da estreia de Rambo - Até o Fim - nesta quinta, 19 -, vamos lembrar a série toda.

 

Programado para Matar, de Ted Kotcheff, 1982

 


O filme chamava-se assim no Brasil e só depois do sucesso de Rambo - A Missão, o nome foi incorporado ao título. Rambo surgira num livro escrito por David Morrell em 1972 e o autor disse que o nome, inspirado num tipo de maçã da Pensilvânia, impôs-se, para ele, pela força sonora, mas também era uma homenagem ao poeta francês Artur Rimbaud, que escrevera Uma Estação no Inferno. Como ex-prisioneiro no Vietnã, Rambo também teria conhecido o inferno.

Foi assim que ele apareceu pela primeira vez na telas. O canadense Kotcheff já fizera um filme clássico sobre a matança de cangurus na Austrália - Pelos Caminhos do Inferno. Imaginou esse veterano de volta da guerra e em choque com o xerife de uma pequena cidade. As duas faces da mesma moeda chamada violência. O xerife (Brian Dennehy) tem ideias próprias sobre lei e ordem em sua cidade. Tenta enquadrar o arruaceiro Rambo, mas ele recorre às técnicas de guerrilha que adquiriu combatendo no Sudeste Asiático para enfrentar - e subverter - a autoridade. Programado para Matar centra-se no confronto desses dois homens. A vitória de Rambo é a da individualidade e da rebeldia. Era um (grande) filme 'contra' e Kotcheff voltou ao Vietnã, no ano seguinte, com Uncommon Valor/De Volta ao Inferno, para deixar claras suas ideias. Só para esclarecer. Tornou-se produtor executivo e diretor na série Law and Order, com Christopher Melloni e Mariska Hargitay.

 

Rambo II - A Missão, de George Pan Cosmatos, 1985

 


Aqui começa a mudança e John Rambo volta ao Vietnã para resgatar companheiros que permanecem num campo de prisioneiros. Se no primeiro filme basta um inimigo, e uma morte, agora vira carnificina. No 1, com o maior sangue-frio, Rambo/Stallone costurava a própria carne para estancar a sangueira produzida por um corte profundo. Cabra (muito) macho. No 2, os diálogos dão conta de que ele recebeu 2 Estrelas de Prata, 4 Bronzes (Estrelas de Valor), 4 Purple Hearts, etc. Dessa vez Rambo tem dois inimigos - um oficial norte-americano e outro russo. Richard Crenna, como o coronel Trautman, é quem o entende (e tenta ajudar).

As mortes multiplicam-se, Rambo vence na ficção a guerra que os EUA perderam, mas, para falar a verdade, ele chegou um pouco atrasado. Um ano antes Chuck Norris se antecipara e fizera O Super Comando, em que seu personagem, Braddock, antecipava Rambo nas selvas do Vietnã. E, ah, sim, James Cameron quase foi o diretor. Chegou a escrever um esboço de roteiro, mas, fantasia por fantasia, preferiu abraçar, com Arnold Schwarzenegger, a de O Exterminador do Futuro.

 

Rambo III, de Peter MacDonald, 1988

 


No terceiro filme, e cada vez mais empenhado em vencer na fantasia as guerras em que os norte-americanos se atolavam na realidade, Rambo foi enfrentar os soviéticos no Afeganistão. Mas, calma, o começo é de paz, ele está num mosteiro budista, tentando apaziguar seus demônios internos. É quando recebe a notícia de que seu mentor, Trautman, foi preso pelos russos. E o que faz? Vai atrás, claro.

Os russos são pintados como monstros, os norte-americanos são aliados dos afegãos e esses são pacifistas natos. Não são, é claro. O próprio cinema já mostrou os afegãos como um povo selvagem do deserto, cujo divertimento é dividir-se em grupos para disputar violentamente a cabeça decepada de um bode como bola, no 'esporte' conhecido como buzkashi - o futebol deles - e Hollywood fez um grande filme sobre o assunto, Os Cavaleiros do Buzkashi, de John Frankenheimer, com Omar Sharif e Jack Palance. Todo feito sobre estereótipos, Rambo III, segundo o Guinness, é o filme mais violento produzido, com um total de 221 atos selvagens e 104 mortes que o espectador pode contabilizar. Virou game.

 

Rambo IV, de Sylvester Stallone, 2008

 


O próprio Stallone dirige e Rambo agora leva uma vida solitária no norte da Tailândia, pilotando seu barco. Um grupo de missionários lhe pede ajuda para levar suprimentos para uma comunidade fronteiriça. O grupo é atacado pelo Exército de Myanmar, que não é identificada como tal, mas como Burma/Birmânia, e Rambo parte para a luta. Os russos deixam de ser inimigos, uma diferença e tanto, porque Myanmar é um país dividido por etnias e grupos guerreiros que disputam o poder a ferro e fogo. Na moderna ficção, os militares de Myanmar substituíram os nazistas. A moral da história - um Rambo de esquerda, na oposição ao radicalismo de extrema direita? - é expressa pelo herói numa frase. “Quando você é provocado, matar é tão fácil quanto respirar.”

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