Ahn Young-Joon/Seul, via Associated Press
Ahn Young-Joon/Seul, via Associated Press

Problemas da capital coreana inspiraram diretor de 'Parasita'

Cineasta Bong Joon-ho se concentrou nas questões sociais da Coreia do Sul no premiado filme

Choe Sang-Hun/NYT, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2020 | 12h00

SEUL - A pizzaria de Eom Hang-ki, no decadente distrito de Noryangjin, em Seul, atraiu cinéfilos do Japão e até dos Estados Unidos e da Argentina nos meses mais recentes. Todos querem conhecer o lugar onde Bong Joon-ho filmou parte de Parasita. “Estou muito feliz em ver que meu restaurante desempenhou um papel - por menor que seja - na criação do filme histórico", disse Eom, de 65 anos, a respeito do filme que, no dia 9 de fevereiro, se tornou o primeiro longa-metragem de língua estrangeira a vencer o Oscar de melhor filme.

Além dos atores, as ruas de Seul são um dos personagens de Parasita, desempenhando um papel formativo ao moldar o foco de Bong na questão da desigualdade nesta cidade de 10 milhões de habitantes. Os parentes de Bong disseram à mídia sul-coreana que, desde pequeno, ele se mostrou muito atento às disparidades entre ricos e pobres, trazendo amigos mais pobres para casa para jantar com ele. Quando esteve na Universidade Yonsei, em Seul, os estudantes defendiam os direitos dos pobres.

Quando Bong se matriculou em Yonsei, em 1988, eram quase diários os protestos contra a brutal ditadura militar. Bong disse que não era um ativista na época, limitando-se a fazer quadrinhos para o jornal do campus que frequentemente defendiam a causa dos manifestantes. Mas “está claro que sua visão de mundo foi formada durante a época da faculdade", e ele “desenvolveu mais sensibilidade para os temas sociais", disse Tcha Sung-jai, produtor dos dois primeiros filmes de Bong.

Conforme a Coreia do Sul começou o processo de democratização nos anos 1990, acabando gradualmente com a censura do governo a filmes e livros, uma nova geração de diretores e produtores como Bong e Tcha deu início a um renascimento da indústria cinematográfica sul-coreana no início do novo milênio.

Eles fizeram filmes envolvendo tópicos antes considerados tabu: reconciliação entre Coreia do Sul e Coreia do Norte, tortura de estudantes ativistas, um sistema judicial corrupto, e o massacre de manifestantes defensores da democracia. Alguns desses filmes foram grandes sucessos, superando os produtos importados de Hollywood que durante tanto tempo dominaram os cinemas locais - a tal ponto que o governo teve que obrigá-los a dedicar uma parte da programação aos filmes nacionais.

Bong teve dificuldade no começo. Para ganhar dinheiro, filmava casamentos. Seu segundo filme, Memórias de um assassino (2003), adaptado a partir de um caso real envolvendo um assassino em série, trouxe-lhe o primeiro sucesso. Logo ficou famoso em toda a Coreia do Sul, dirigindo vários outros filmes de sucesso com o público e a crítica.

Os filmes dele abordavam temas como incompetência política, os perigos da engenharia genética e os conflitos de classe que dilaceram a sociedade sul-coreana. Nas suas obras, temas tão pesados são temperados com o humor negro. Mas políticos conservadores começaram a desconfiar de diretores “de esquerda” como Bong, a quem acusaram de produzir “propaganda política".

Os governos de dois presidentes conservadores, Lee Myung-bak e Park Geun-hye, criaram uma lista negra secreta de artistas perseguidos por sua ideologia mais à esquerda. A eles foram negados subsídios, e suas obras não eram mostradas na televisão. Filmes de Bong como Memórias de um assassino e O Hospedeiro (2006) foram feitos de exemplo. O diretor foi acusado de destacar a “incompetência do governo” e de difundir “mensagens esquerdistas” e “antiamericanas”.

Mesmo depois que Parasita foi premiado com a prestigiada Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes, em maio, feito inédito para um filme sul-coreano, muitos políticos conservadores declararam que o filme não passava de “propaganda comunista” que não merecia ser assistida. Mas o Oscar mudou tudo isso. Candidatos conservadores da cidade de Daegu, onde Bong morava, propuseram a criação de um museu e de uma estátua em homenagem as ele, além de rebatizar ruas com o nome de Bong.

"Parasita entrou para a história", disse Park Yong-chan, porta-voz do principal partido conservador da oposição, Partido da Liberdade da Coreia. “É um feito monumental que vai difundir os filmes e a cultura da Coreia do Sul pelo mundo.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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