Lucas Jackson / Reuters
Lucas Jackson / Reuters

Vitória inédita do filme sul-coreano 'Parasita' no Oscar coloca Hollywood no caminho do globalismo

Bong Joon-ho fez história ao faturar quatro estatuetas na premiação

Ubiratan Brasil, ENVIADO ESPECIAL

10 de fevereiro de 2020 | 21h03

LOS ANGELES - Foram inúmeros os convites para festas, mas Bong Joon-ho – o cineasta sul-coreano que fez história no Oscar, domingo, 9, ao faturar quatro estatuetas, entre elas a de melhor filme do ano com Parasita, fato inédito por ser um longa não falado em inglês – sabia para onde iria, já na madrugada de segunda-feira: na celebração promovida por Tom Quinn, o chefão da Neon, a distribuidora de Parasita nos Estados Unidos. “Essa noite foi inacreditável”, disse o diretor a uma seleta plateia, que o aplaudiu de pé.

O gesto, aliás, já se repetira ao longo da noite, seja no palco do Dolby Theatre, onde Joon-ho subiu por quatro vezes, até na sala de imprensa, onde foi ovacionado. Era, de fato, um momento histórico nas 92 edições do Oscar e todos naquela festa estavam cientes disso. “Esta noite, colocamos a indústria em xeque”, disse Quinn aos convidados, segundo relato divulgado pelo jornal Washington Post.

De fato, o mundo cinematográfico americano vive um momento particular – em 2019, as bilheterias no exterior atingiram a estonteante cifra de US$ 31 bilhões, um recorde, quase duas vezes e meia a quantia arrecadada em território americano. Por outro lado, ainda segundo o Post, as produções estrangeiras fizeram pouco barulho no mercado americano. Nos últimos anos, o filme que mais chamou atenção foi Amor (2012), de Michael Haneke, que arrecadou US$ 7 milhões nos Estados Unidos. Enquanto isso, Parasita já faturou US$ 36 milhões em território americano, o que deverá aumentar consideravelmente depois das conquistas no Oscar.

Há um consenso agora que a indústria americana não apenas dá as cartas no jogo mundial do cinema, mas também está aberta a ouvir o que vem de fora. Claro que não em uma proporção ameaçadora à sua hegemonia, mas algo muito mais eclético do que se via há alguns anos.

E o movimento começou internamente, como comprova o esquema de promoção para o Oscar, adotado pelos produtores coreanos e distribuidores internacionais. Ao contrário de seguir a cartilha tradicional (promover sessões especiais para os votantes da Academia, nos Estados Unidos e em algumas cidades da Europa), eles iniciaram a estratégia em maio do ano passado, quando Parasita foi selecionado para o Festival de Cannes. Iniciou-se ali a “estratégia Twitter”, ou seja, um esquema promocional via redes sociais que buscava atingir a chamada base: os espectadores comuns.

A conquista da Palma de Ouro deu novo ânimo à campanha, que continuou nos meses seguintes, à medida que o filme estreava em diversos países, principalmente nos Estados Unidos. O plano de ação, então, se diversificou, com as redes sociais bombando os eleitores mais jovens da Academia (assim como da mídia digital) enquanto o esquema antigo, o de exibições especiais sistemáticas, era utilizado para atrair o eleitor da Academia menos afeito à internet.

“Você precisa do filme certo, no momento certo”, disse ao Post o executivo de uma empresa rival que falou sob condição de anonimato, lembrando que Parasita é um filme disruptivo, com uma trama aceitável em qualquer sociedade. “Alguém agora duvida que esses campeões online desempenharam um grande papel nesta vitória?” 

O certo é que, com a vitória de Parasita, abriu-se uma nova forma de conquistar público de forma massiva e, ainda que os grandes estúdios relutem em adotar tal método, outras empresas (médias ou menores) se sentirão mais motivadas.

Centro das atenções, Bong Joon-ho sabe, ao menos, qual o melhor caminho para conquistar uma audiência planetária, como o fez com Parasita: “Quanto mais eu me aprofundar em assuntos que estão ao meu redor, quanto mais ampla for a história, estou certo que a trama vai se tornar mais atraente para um público internacional”, disse, na entrevista coletiva depois da cerimônia do Oscar.

Também ali, o cineasta coreano demonstrou que já raciocina segundo a nova ordem mundial. “Durante o Globo de Ouro, mencionei a barreira das legendas, mas sinto que isso já não é mais um empecilho: as pessoas já superaram esse tipo de barreira”, comentou Joon-ho. “Existem serviços de streaming, YouTube, mídias sociais e o ambiente em que vivemos atualmente que nos permitem estarmos conectados. Assim, acredito que logo chegará o dia em que naturalmente assistiremos a um filme que não seja falado em nossa língua. O idioma não será mais uma barreira.”

Bong Joon-ho garantiu ainda que a avalanche de premiações recebidas não alterou seus planos. “Tenho trabalhado nos últimos 20 anos e, independentemente do que aconteceu em Cannes e no Oscar, eu já vinha arquitetando dois projetos e não vou mudar nada por causa desses prêmios. Só posso adiantar que um é em coreano e o outro, em inglês.”

Clique aqui para conferir a lista completa de indicados e vencedores do Oscar 2020.

Show de Eminem foi grande surpresa da cerimônia

Outra grande surpresa do Oscar foi a apresentação surpresa do rapper Eminem. Tudo começou quando o cantor e compositor Lin-Manuel Miranda apresentou, aparentemente sem motivo, um clipe com trechos de música pop antiga e, quando as luzes se acenderam, um Eminem barbudo já estava no palco do Dolby Theatre para interpretar Lose Yourself, a canção do filme 8 Mile: Rua das Ilusões, que lhe valeu um Oscar em 2003 – como não foi à cerimônia, perdeu a chance de receber a estatueta das mãos de Barbra Streisand.

Enquanto ele se apresentava, a plateia acompanhava atônita. Billie Eilish ficou boquiaberta, enquanto outras artistas acompanhavam o ritmo com a cabeça, caso das atrizes Zazie Beetz e Kelly Marie Tran, além da cantora Janelle Monae. Mas nem todos ficaram emocionados – ao final da apresentação do cantor, com as luzes novamente acesas, o diretor Martin Scorsese parecia estar saindo de um cochilo, acordado pela gritaria do público que aplaudia Eminem de pé.

“Olha, se eu tiver outra oportunidade... Desculpe por ter demorado 18 anos para chegar aqui”, tuitou o rapper, errando na conta (são 17 anos).

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