Apple TV+
Apple TV+

Primeiro filme dos irmãos Russo após 'Vingadores' retrata crise dos opioides em Ohio

'Essa crise foi esquecida durante a pandemia, mas 2020 foi o ano mais mortal', disse Joe Russo

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

13 de março de 2021 | 05h00

Com os quatro longas que dirigiram para a Marvel, os irmãos Anthony e Joe Russo visitaram Washington D.C. e Sibéria, países fictícios como Wakanda e até o espaço sideral. Em Cherry, o primeiro filme dirigido pela dupla desde Vingadores: Ultimato (2019), eles retornam à casa. Mais precisamente a Cleveland, em Ohio, onde nasceram e cresceram numa família descendente de italianos. “É um filme muito pessoal para nós”, disse Anthony Russo em entrevista ao Estadão. O longa, um drama com elementos de humor, terror e romance, está disponível no Apple TV+.

Não que eles não considerem pessoais até as produções da Marvel. “Dá para fazer uma conexão entre os quatro filmes que fizemos para a companhia e o que aconteceu nos Estados Unidos nos últimos quatro anos”, afirmou Joe Russo. “A mensagem de que é preciso lutar por aquilo em que se acredita é muito forte. Havia um tremendo potencial com eles, por causa da quantidade de pessoas que alcançamos.”

Agora o plano é usar a influência conquistada com Capitão América e Vingadores para criar uma plataforma e colocar na roda temas que consideram importantes. 

No caso de Cherry, o tema é a crise dos opioides – o Estado de Ohio é um dos mais afetados pela epidemia que matou 450 mil americanos entre 1999 e 2019. “Essa crise foi esquecida durante a pandemia, mas 2020 foi o ano mais mortal”, disse Joe Russo. “Ela não só continua, mas piora. E acho que a geração Z, da qual o Tom faz parte, é a mais vulnerável. Essa história é muito próxima porque nós conhecemos pessoas que sofrem com essa crise e que lutam para se manter sóbrias. Queríamos usar nosso poder de influência, assim como o do Tom e da Apple, para que esse filme fosse visto por milhares de pessoas, que talvez comecem a discutir o assunto.”

Cherry é inspirado no livro de Nico Walker, autor de Cherry: Inocência Perdida, lançado no Brasil pela DarkSide. No filme, o jovem é vivido por Tom Holland, num reencontro dos diretores com o ator que veste o uniforme do Homem-Aranha. Cherry se apaixona por Emily (Ciara Bravo), mas, depois de um mal-entendido causado pela imaturidade de ambos, acaba se alistando no Exército e é mandado para a Guerra do Iraque. Na volta, sofrendo com estresse pós-traumático, sem apoio para tratamento e reinserção na sociedade, ele se vicia em opioides, depois em heroína e passa a assaltar bancos para sustentar seu consumo. “Eu não pensava estar pronto para atuar num filme desses”, disse Holland. “É muito diferente do que fiz no passado. Não teria feito se não fossem (os irmãos) Russo.”

A história de Nico Walker, dividida aqui em capítulos com estilos visuais e tons diferentes, é mais comum do que parece. Ohio, como outros Estados de passado industrial, sofreu muito com as sucessivas recessões econômicas, que têm efeitos duradouros, como o impacto na educação das crianças e adolescentes. Quando os empregos voltam, em geral são de menor qualidade do que antes. Jovens têm pouca perspectiva. Tudo isso causa angústia. 

Muitos veem no serviço militar uma chance de fazer algo importante. Só que, nos Estados Unidos, alistar-se significa quase sempre ir à guerra. “Existe uma expectativa falsa”, disse Joe Russo. “Na Segunda Guerra Mundial, lutava-se contra um inimigo muito claro, que tinha ideias muito perturbadoras. Mas as guerras mais recentes têm objetivos pouco claros. Na verdade, seus objetivos podem ser apenas o interesse pessoal de quem as declara. É difícil pedir para pessoas sacrificarem suas vidas, sua saúde mental e física, para lutar por algo baseado puramente em motivações econômicas ou interesse próprio.”

O estresse pós-traumático acontece na volta de Cherry a sua casa. A solução que recebe é uma receita para uso de opioides. “Essas drogas foram cientificamente criadas para tornar as pessoas viciadas”, disse Joe Russo. Recentemente, grandes farmacêuticas e consultorias foram alvos de processos. Elas foram obrigadas judicialmente a pagar bilhões em acordos e a reconhecer as estratégias para impulsionar a prescrição e a camuflagem dos enormes riscos de drogas como Fentanil e Oxycontin. 

“A crise dos opioides está sendo alimentada por uma forma perturbadora de capitalismo, fatalista e completamente desregulada. E é assim que as sociedades capitalistas desmoronam, quando não há mais limite, quando tudo pode ser feito em nome do dinheiro, inclusive a perda de vidas humanas. Estamos lidando com isso agora, na pandemia.” 

O filme, no fim das contas, é uma exposição da falência do sonho americano.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.