Stephane Mahe/Reuters
Stephane Mahe/Reuters

Para a diretora Claire Denis, uma vida sem cinema é angustiante

Nascida em Paris há 75 anos, Claire Denis já dirigiu cults como ‘Nenette e Boni’, além de ‘Bom Trabalho’ e ‘Bastardos’e fala ao 'Estadão' sobre seu novo filme rodado na pandemia e destaque no Festival de Berlim

Rodrigo Fonseca, Especial para o Estadão

09 de fevereiro de 2022 | 15h30

É na montagem de The Stars at Noon, trama rodada no Panamá, sobre um amor selado no contexto político da revolução sandinista, a cineasta francesa Claire Denis compartilhou com o Estadão o que tem sido sua vida ao longo de dois anos de pandemia.

“Cozinhei muito. Li. Não vi muitos filmes em casa, pois sou do tipo que prefere ir ao cinema e não ficar diante dos streamings. Trabalhei nesse projeto no Panamá. E rodei um outro longa, que idealizei, escrevi e tirei do papel em meio a essa loucura toda, com uma Paris de máscara”, diz a diretora parisiense, de 75 anos, referindo-se a Avec Amour et Acharnement (Com Amor e Paixão), também uma narrativa pautada pelo querer e com a qual concorre ao Urso de Ouro na 72.ª edição do Festival de Berlim, que abre nesta quinta, 10, de volta ao presencial, apesar do desafio de uma covid que marca novos picos na Alemanha todos os dias.

Nada no Berlinale Palast será como nas edições anteriores da pandemia. Mas também não será o mausoléu que o local do festival se tornou em 2021, ano em que ficou confinado ao estritamente virtual. Mesmo assim, não haverá festas, as galas terão lotação controlada e o uso da máscara no interior é obrigatório, enquanto o European Film Market será em formato virtual. 

A primeira exibição (em concurso) será de Peter von Kant, de François Ozon, um dos 18 títulos da competição oficial. Nela tem medalhões (Paolo Taviani), promessas autorais (Carla Simón, Kamila Andini, Natalia López Gallardo), polemistas (Ulrich Seidl) e divos da cinefilia (Hong Sang-soo) brigando pelos prêmios. 

Mas nenhum deles parece chegar com maior torcida do que Claire, diretora de cults como Nenette e Boni (Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, em 1996), Bom Trabalho (1999) e Bastardos (2013). Batizado inicialmente de Feu, seu novo longa, acompanha um turbilhão afetivo na vida de um casal: Sara e Jean (Juliette Binoche e Vincent Lindon). A paz deles pode ser abalada quando um antigo amor do passado de Sara, François, vivido por Grégoire Colin, reaparece. Na conversa a seguir, Claire explica como esse projeto foi idealizado, como uma resposta ao isolamento imposto pela covid-19.

A senhora filmou em Paris, no finalzinho de 2020, em meio ao inverno, logo após um segundo lockdown. Que Paris era aquela e que história extraiu dela?

Eu não entendo filmes como histórias. Penso filmes como experiências. Filmamos em dezembro de 2020. Era um momento estranho, em que as pessoas podiam trabalhar de suas casas, sem precisar circular nas ruas e obrigadas a utilizar máscaras para sair. Filmamos com orçamento pequeno, em cinco semanas. E só levou esse prazo porque, no inverno francês, por conta do frio, por anoitecer rápido, você perde horas de filmagem com muita facilidade. Juliette e Lindon convenceram o produtor Olivier Delbosc que, em meio ao que estávamos passando naquele momento, com a pandemia, precisávamos reagir. E a nossa forma de fazer isso era criar, era filmar. Eu escrevi esse filme em meio ao isolamento. O meu produtor, no set, chegou a perguntar: “Mas vocês vão retratar Paris desse jeito, com o povo de máscara?”. E eu disse: “Sim. É o nosso tempo e temos de passar por isso”. 

Como a pandemia impactou a sua vida e a sua relação com o cinema, de 2020 até aqui?

Eu estava em Los Angeles, no início de 2020, buscando locações para um outro filme, que não saiu, quando as notícias da covid-19 na China começaram. Aí, em março, eu me vi nos Estados Unidos, com tudo fechando, com meu hotel vazio, e recebi uma ligação da Air France para me avisar: “A senhora pretende voltar para a França? Seu país vai entrar em lockdown. Aí também. Se quiser voltar, há um último voo aqui, com poucos lugares. Corra”. Voltei às pressas para uma Paris esvaziada, onde a gente só podia sair para ir ao mercado. Cada dia que passava, eu pensava: “Vai acabar. Amanhã isso passa e tudo volta ao normal”. Mas a coisa não passava. As pessoas iam ficando doentes. Ali eu experimentei um momento de estar em Paris e não poder ir ao cinema, com as salas fechadas. E pior ainda era o horror de ver as pessoas adoecendo. Mas é angustiante uma vida sem cinema. E não tinha como eu me concentrar nos streamings. Vivi outras artes. Ouvi música. Fui aos livros. E escrevi esse filme. Ele não é exatamente um triângulo amoroso. Ele é um filme sobre coisas que ainda não acabaram. Coisas que querem voltar. 

E onde entra Stars at Noon nesse processo?

Ele ainda está em edição. Ele se baseia em um romance de Denis Johnson, que li há uns doze anos, e a descoberta de Margareth Qualley (a protagonista da série Maid). Esse projeto já estava planejado antes do Avec... Há uns quatro anos, comecei a fazer locações na Nicarágua, onde a trama se passa, mas, por uma série de questões políticas, de eleições deles, não pude rodar lá. Robert Pattinson ia ser o meu protagonista, mas ele ficou preso no projeto Batman. E a Margareth bateu o pé de continuar comigo. É uma grande atriz. Mas dei a sorte de encontrar um ótimo ator, o Joe Alwyn.

Stars at Noon é um projeto em inglês e espanhol, mas tem coprodução francesa. Já Avec Amour et Acharnement é um representante do que a indústria da França aposta de mais forte para 2022. Em que pé está essa indústria? Ela ainda te surpreende nas telas?

A pandemia nos afetou muito, mas nem os produtores nem os distribuidores desistiram: a quantidade de filmes que fizemos nesse período da covid-19 mostra que a gente reagiu. Eu não espero frescor só do cinema. Tem um Hong Sang-soo novo (Encontros) aqui perto de casa que eu quero ver e que me promete frescor. Outro dia, tinha um cineminha aqui com uma fila gigante para conferir uma projeção 70mm do novo longa do Paul Thomas Anderson, Licorice Pizza. Ou seja, o cinema está sobrevivendo, como pode. Está tentando. A questão é, eu gosto de ver cinema no cinema.

Nascida em Paris, mas criada entre Burkina Faso, Camarões e Senegal, a senhora tem uma conexão forte com a África, já explorada em alguns de seus filmes (como Doses de Rum), mas também tem ligações familiares com o Brasil, com parentes em Belém do Pará. Como está sua família brasileira na pandemia?

Tenho uma tia no Rio de Janeiro, também. Meus parentes aí já não são tão jovens. Mas estão bem. O importante é a população brasileira, com todo respeito às liberdades individuais, se conscientizar da importância da vacina.

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