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Netflix centra suas forças em busca do Oscar

‘Roma’, de Alfonso Cuarón, é forte candidato ao prêmio, mas ainda é dúvida se longa vai ser visto nas telonas

Steven Zeitchik, The Washington Post

23 Setembro 2018 | 06h00

TORONTO - Todo mês de setembro os estúdios de Hollywood se reúnem em Toronto para um festival de cinema em que apresentam em primeira mão os filmes que acreditam que lhes vai dar o principal prêmio do setor: o Oscar de melhor filme. No Festival de Toronto, encerrado no domingo, dia 16, o candidato mais provável à premiação foi Roma, um filme de língua espanhola que narra a história de babás no México na década de 1970. O longa tem todos os elementos de um forte candidato ao Oscar: excelentes críticas, fotografia suntuosa, o diretor, Alfonso Cuarón, já foi premiado pela Academia pelo filme Gravidade, não atores sendo ovacionados e, para completar, tem insights sobre raça, feminismo e as relações entre México e EUA. O único problema é que o filme é distribuído pela Netflix.

A provedora de filme e séries de TV via streaming há anos tenta conquistar Hollywood, mas na maior parte das vezes só consegue gerar antagonismos, especialmente por não levar seus filmes para os cinemas, privilegiando o próprio website. Agora, quando se dispõe a colocá-los nos cinemas, isso pode não só determinar o próximo vencedor do prêmio da Academia, mas revelará se a Netflix finalmente deixará de ser uma outsider perturbadora e se tornar uma participante regular dentro do setor cinematográfico.

Roma mostra a sede enorme da Netflix de ser reconhecida pelo setor apesar do seu desprezo pelas atividades cinematográficas convencionais. A questão também força Hollywood, onde é realizada a votação do Oscar, a decidir se deve premiar a qualidade, não importa onde ela aparece, ou atender a preocupações sobre seu próprio anacronismo.

Oficialmente, os filmes precisam ser exibidos por uma semana em NY ou Los Angeles para se qualificar. Muitos eleitores defendem filmes com presença forte nos cinemas, pelo menos no caso das principais categorias. E a Netflix se opõe a levar seus filmes para os cinemas antes de serem exibidos em sua plataforma de TV ou no seu website.

A temporada do Oscar começa em setembro, quando em Toronto os estúdios exibem produções candidatas à premiação antes de serem lançados comercialmente. A ideia é criar impacto e reunir informações para sua campanha, que vai se desenvolver o restante do ano com painéis, jantares, cerimônias de entregas de prêmios e outros festivais.

Se a Netflix for indicada para o prêmio com Roma com uma divulgação limitada nos cinemas, ela mostrará que muitos dos que votam na Academia estão dispostos a pôr fim aos velhos costumes. E isso poderá ter amplas consequências para o setor, tornando a provedora e suas concorrentes uma opção viável para cineastas e artistas que desejam concorrer a um Oscar, mas também a oportunidade para trabalhar fora dos estúdios convencionais de Hollywood. Mas se a Netflix decidir lançar o filme em grande circuito isso vai mostrar que ela não é tão ortodoxa no campo da distribuição através do seu serviço como afirma e pode se transformar num estúdio mais tradicional.

E se Roma for rechaçado? Será uma prova de que continua grande a resistência de Hollywood à Netflix, que busca desesperadamente o seu primeiro Oscar importante. Apesar dos grandes gastos em anos passados com filmes candidatos a prêmios como Mudbound e Beasts of No Nation, ela obteve prêmios apenas em categorias menores, como documentários e cenografia, mas jamais uma indicação de melhor filme.

Scott Stuber, que dirige a divisão de filmes da companhia, disse que Roma teria alguma forma de lançamento nos cinemas. A exibição duraria poucas semanas e depois disso o filme seria promovido como “Agora nos cinemas e na Netflix”, um anúncio atraente num setor que até agora dividiu os dois. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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