Diamond Films
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Filme 'Projeto Flórida' põe na tela população marginalizada

Longa que estreia nesta quinta, 1.º, flagra pessoas que vivem perto da Disney, mas bem longe desse mundo de sonho

Mariane Morisawa, Especial para O Estado de S. Paulo

01 Março 2018 | 06h00

LOS ANGELES - Sean Baker gosta de olhar para aqueles à margem da sociedade. Em Take Out (2004), mostrava a luta de um imigrante chinês sem documentos para pagar uma dívida. Em Tangerine (2015), rodado com iPhones, uma prostituta transgênero descobre a traição do namorado e cafetão.

Agora, em Projeto Flórida, que estreia nesta quinta, 1.º, mostra Halley (Bria Vinaite), uma jovem e um tanto irresponsável mãe, vivendo com a filha Moonee (Brooklynn Prince) num motel chamado Reino Mágico a pouca distância do Disney World. Foi o corroteirista Chris Bergoch quem chamou a atenção de Baker para o problema na Flórida.

“Sua mãe estava morando na área de Kissimmee e tinha visto no noticiário essas pessoas que não têm como pagar aluguel, então moram em quartos de motel (que são hotéis de beira de estrada nos Estados Unidos)”, disse Baker em entrevista ao Estado. “Acredito que a maior parte dos americanos não sabe dessa situação.”

O cineasta americano de 47 anos, porém, afirmou não procurar diretamente casos de pessoas esquecidas pela sociedade. “Não é tão consciente assim. Sei que jornalistas e críticos sempre apontam essa linha comum, e acho que é verdade, mas para mim é algo natural.” Para poder montar o roteiro, Baker atua como um jornalista – ou documentarista.

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“Ficamos um bom tempo conhecendo a comunidade, isso era muito importante para nós. Queríamos ter certeza de que não seríamos condescendentes, queríamos respeitar a comunidade e que as pessoas que estão nessa situação gostassem do filme, sentissem que foram apresentados de forma justa”, explicou o diretor. “Levamos um tempo entrevistando as pessoas, ouvindo suas vozes, e, no fim das contas, não se trata de nós darmos voz a eles. É ajudá-los a amplificar sua voz. Chegamos lá sabendo apenas que seria a história de uma filha e sua mãe.” O nível de detalhamento chegou até na representação demográfica desse grupo de pessoas.

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“São aproximadamente 45% brancos, 45% hispânicos 10% negros”, disse Baker. “Tem gente que acha que embranquecemos o filme, mas não foi o caso.” Também foi da pesquisa que surgiu o casal de brasileiros que fez reserva de lua de mel no hotel por engano. “Percebemos que o Brasil é o país que mais manda turistas para a região, e todo brasileiro me conta como é um sonho ir para lá.”

O filme foi inteiramente rodado em locação, no próprio motel Reino Mágico em pleno funcionamento. O elenco veio de origens variadas. Bria Vinaite, que faz a mãe desbocada e mal-educada, foi encontrada no Instagram. Brooklynn Prince, hoje com 7 anos, fez teste. Outras crianças foram achadas na rua, inclusive no supermercado.

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Willem Dafoe, que faz o paciente gerente Bobby, era experiente. Por esse papel, ele está indicado para o Oscar de ator coadjuvante. Mas ele teve de se encaixar naquele universo. “Quando cheguei lá, Sean estava dando liberdade para as crianças. Elas faziam o que queriam. Ocasionalmente, eu tinha de colocar ordem”, disse o ator ao Estado.

“Meu trabalho como gerente do hotel é manter a paz, evitar que as coisas fiquem loucas. E meu papel foi este também. Era um grupo pequeno, muitos nunca tinham feito um filme, estavam todos empolgados. Era um dos poucos elementos masculinos nesse mundo muito feminino. Tinha de ser sutil.” Atrás das câmeras, ele ressalta, todas eram muito educadas. “Adorava que me chamassem de Sr. Willem”, contou, divertido. 

Baker gostava de aproveitar coisas do momento, por exemplo, quando um bando de pássaros invade a entrada do hotel. Em outra hora, a luz estava bonita, e ele pediu para Dafoe subir ao segundo andar e fumar um cigarro. Mas, por mais que tenha usado o improviso, o visual é elaborado, com enquadramentos sofisticados.

“Muita gente acha que documental é câmera tremendo, mas acho que isso está sendo usado demais”, disse Baker. “Se você pensar, as pessoas têm seus telefones agora, com um estabilizador interno. Então a nova geração não está vendo a câmera na mão. Acho que esse meu estilo documental vem de rodar em locação, não ter trilha, tento fazer o diálogo parecer não roteirizado. As pessoas dizem que parece documentário, e isso é um elogio para nós.”

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O que chamou sua atenção no projeto?

Eu conhecia a reputação do diretor Sean Baker e de seu filme Tangerine (2015). Depois de ler o roteiro, nos encontramos, conversamos sobre como ele queria rodar, que seria num motel em funcionamento, que íamos aproveitar coisas do momento, com uma equipe pequena e um orçamento modesto. Achei que era tudo muito inteligente e a única maneira de filmar. Porque há algo de mau gosto nessa coisa de Hollywood maquiar tudo, especialmente ao falar de comunidades marginalizadas. Sabia que aqui seria realista, que íamos nos tornar essas pessoas o máximo possível para podermos ter acesso e uma visão respeitosa deles. Porque eles nos ajudaram a fazer o filme. 

Por que gosta de trabalhar com diretores europeus e de outros países, inclusive o Brasil, com Hector Babenco, com quem você rodou Meu Amigo Hindu?

Gosto de trabalhar com bons diretores. E também para evitar cair na mesmice, que restringe. Mesmo que o cinema seja uma linguagem internacional, os valores e a cultura variam muito de país para país. É interessante ver como você consegue escapar do condicionamento cultural. Em outros lugares, aprendo porque os valores são diferentes. 

Como foi trabalhar com Babenco?

Foi um filme especial para ele, permeado de muitas coisas pessoais. Tentei estar presente para ele. Amava a equipe. Hector Babenco era duro com a equipe, muitas vezes. Mas havia motivo: ele tinha paixão pelo filme, pela vida e pelo cinema. É disso que trata o longa. De novo, era outra cultura. Era o cara de fora e pude aprender muito.

 

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