Diamond Films
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Filme 'Projeto Flórida mostra o contraste entre o mundo da fantasia e a dura realidade

Longa capta a vida instável de pessoas que vivem em um hotel transformado em moradia coletiva em subúrbio de Orlando

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

01 Março 2018 | 06h00

No início de Projeto Flórida há um certo desequilíbrio que pode irritar alguns espectadores. Tudo parece caótico demais. As crianças andam aos bandos e são indisciplinadas. Falam demais e aprontam todas. Os pais não são muito melhores. A mãe de uma delas, com aparência bem folgada, tenta desculpar a filha enquanto atende aos reclamantes vestida, ou melhor despida, com roupas sumárias. E o pobre zelador faz o que pode para manter um mínimo de ordem em seu condomínio. 

Projeto Flórida é o novo filme de Sean Baker, que se notabilizou com Tangerine, história de uma prostituta transgênero filmada com iPhone 5s. 

Passada a surpresa, entendemos que o “desequilíbrio” faz parte da linguagem da obra, pois registra precisamente isso – vidas instáveis, que se sustentam na corda bamba. E isso, num subúrbio de Orlando, a dois passos do mundo dos sonhos da Disney

O polo narrativo oscila entre o ponto de vista infantil e o adulto.

As crianças são ótimas. Brooklyn Prince (Moonee), Valeria Cotto (Jancey) e Christopher Rivera (Scooty) passam essa credibilidade que nem sempre se consegue com elenco infantil. Em especial, a garota que interpreta Moonee, papel maior e mais problemático que a das outras.

Moonee é filha de Halley, vivida pela estreante Bria Vinaite, outra grande descoberta. Hipertatuada e sem cabeça para nada, Halley vive de “programas” e golpes ocasionais em turistas, aplicados em conjunto com a filha. A vida nada exemplar da dupla entra no radar da assistência social. 

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O zelador Bobby (Willem Dafoe, candidato ao Oscar de coadjuvante, única indicação do filme) tenta agir como uma espécie de poder moderador. Procura dar um mínimo de dignidade ao muquifo que comanda e às vezes age com mão de ferro. Porém é humano, compreende as limitações e aceita os defeitos daquele pedaço de humanidade que lhe é dado administrar. 

Ao situar seu inferno a dois passos do paraíso, Baker relativiza um e outro. O hotel, agora transformado em moradia coletiva, chama-se Reino Mágico. E a Disney, com seu mundo de fantasia, continua a atrair visitantes do mundo todo.

De qualquer forma, naquele caos vive gente de verdade, que dá duro para se manter à tona, seja lá como for. Halley, a mãe vigarista e garota de programa ocasional, é apenas um caso-limite. E ao lado há a Disney, sonho antigo e esmaecido, cuja presença virtual só serve para agravar o abismo entre um mundo e outro. O realismo áspero de Sean Parker registra o contraste sem qualquer atenuante. 

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