Daniel Teixeira|Estadão
Cinearte fecha as portas no Conjunto Nacional por falta de patrocínio. Daniel Teixeira|Estadão

Cinearte fecha as portas no Conjunto Nacional por falta de patrocínio. Daniel Teixeira|Estadão

Como foi a última sessão do Cinearte

Clima de tristeza tomou conta do cinema que encerrou as atividades nesta quarta-feira

André Cáceres , O Estado de S. Paulo

Atualizado

Cinearte fecha as portas no Conjunto Nacional por falta de patrocínio. Daniel Teixeira|Estadão

A quarta-feira, 19, começou ensolarada, mas ficou cinzenta e chuvosa rapidamente após a divulgação da notícia de que o Cinearte, tradicional sala de cinema localizada no Conjunto Nacional, em São Paulo, fecharia as portas em definitivo, por falta de patrocínio.

Do lado de fora, os carros disputavam espaço no congestionado trânsito da avenida Paulista e as pessoas se acotovelavam nos ônibus multicoloridos e na entrada da estação Consolação. A cidade parecia pulsar como em qualquer dia de semana, indiferente à melancolia do Cinearte

O filme responsável por encerrar as atividades do Cinearte foi Parasita, dirigido por Bong Joon-Ho. Mas a estrela principal da noite não era o longa, e sim a sala. Cerca de 50 pessoas, incluindo a reportagem do Estado, acompanharam a exibição do filme sul-coreano vencedor de quatro estatuetas do Oscar. A sala 1, com seu clássico piso de taco, comporta 300 espectadores.

Tudo correu conforme o script: cheiro de pipoca, uma ou outra pessoa no celular, trailers anunciando os futuros lançamentos. Porém ninguém veria esses filmes no Cinearte.

"Temos uma relação de afeto com esse cinema", diz o advogado Felipe Souza, que foi assistir à última sessão do Cinearte com a servidora pública Larissa Freitas. 

"A cidade perde um aparelho cultural, perde uma opção de filmes diferenciados", disse ela, com o olhar marejado. O casal já havia assistido a Parasita, mas decidiu repetir a dose quando ficou sabendo da notícia.  

"Enquanto todos os cinemas estavam lotados só com Vingadores, esse foi um ponto de resistência. É preciso ter essa diversidade", completou Felipe.

Ana Maria Gomes, funcionária que vendeu os últimos ingressos do Cinearte, estava com a voz embargada quando contou que os funcionários ficaram sabendo no mesmo dia sobre o fechamento do cinema. "Mas eu não quero falar nada não", disse. "Vou guardar meu sentimento para mim."

Clara Vasconcelos, com os olhos vermelhos como seus cabelos ruivos, estava enlutada pelo cinema. "Não é só esse, é uma série de cinemas de rua que vêm fechando e as pessoas são cada vez mais obrigadas a ir para os shoppings", lamenta ela. "Eu, que gosto de cinema, vou cada vez menos ao cinema, por que não gosto de ir em shopping."

O distribuidor Adhemar Oliveira, responsável pelo circuito, não dá grandes esperanças para o retorno às atividades e lamenta: "Chega uma hora que não é possível continuar". Para ele, os cinemas de rua cumprem um papel importante, de ampliar a variedade de filmes disponíveis na cidade. "Nem sempre passamos um sucesso de bilheteria aqui, mas mesmo assim continuamos exibindo. Se for para passar blockbuster, é melhor abrir um multiplex", afirma Oliveira. "Eu entrei no cinema por paixão, não por negócio."

Entre os espectadores que acompanharam a última sessão do Cinearte esteve a produtora Assunção Hernandes, que lamentou: "É um empobrecimento para São Paulo. Os cinemas de rua têm um acesso melhor e mais democrático, são um espaço de convivência e, principalmente, oferecem uma programação de qualidade. Trazem filmes que contribuem para a nossa vida, que precisam ser assistidos."

O cinéfilo Aureliano Lazinho lamenta os fechamentos de cinemas de rua, lembra-se de quando assistiu o primeiro Star Wars, em 1977, em um cinema na Avenida Ipiranga. Ele foi assistir à penúltima sessão do Cinearte (Judy: Muito  Além do Arco-íris, de Rupert Goold) com a filha, quando soube da notícia. "Sou da época em que a gente lia a crítica do jornal fixada na parede do cinema. Era uma outra época, hoje em dia não tem mais nada disso", lamenta ele, nostálgico.

"O sentimento é de tristeza", resume um dos funcionários, que pediu para não ser identificado. "O cinema de rua é diferente, é um público diferenciado. Aqui tem funcionários com mais de 20 anos de casa." 

Poucos meses após o Cine Belas Artes quase encerrar suas atividades, e depois ganhar patrocínio da Petra, por falta de patrocínio, agora foi o Cinearte, localizado no Conjunto Nacional, que fechou as portas.

O fim do Cinearte vem quase um ano após o anúncio de que a Petrobras deixaria de patrocinar suas duas salas de exibição - e quase 57 anos após a inauguração do cinema, então chamado Cine Rio, com 500 lugares. Após um hiato de quatro anos fechado, o estabelecimento teve vários nomes: Cine Arte Um, Cine Arte, Cine Bombril, Cine Livraria Cultura...

O escritor Larry McMurtry, em A Última Sessão de Cinema (1966), levado ao cinema em 1971 por Peter Bogdanovich, mostra a decadência de uma cidadezinha do interior do Texas tendo como fio condutor a vida social dos jovens do vilarejo em torno de um cinema que está prestes a fechar. A vida imita a arte, mas dessa vez é a Avenida Paulista, coração da maior cidade do País, que agoniza com a perda de um cinema. 

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