Leo Aversa
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Chico Buarque volta de exílio musical autoimposto com disco, netos, funk, amor e realidade do Rio

Seis anos separam o álbum 'Chico', de 2011, e 'Caravanas', que chega às lojas nesta sexta-feira, 25

Guilherme Sobota, João Paulo Carvalho, Julio Maria, Pedro Antunes e Renato Vieira, O Estado de S.Paulo

23 Agosto 2017 | 06h01

Chico Buarque, seis anos depois, volta à música de fato. E o faz com o pé na porta, sem cerimônias, ainda que com a cadência que lhe cabe aos 73 anos de idade. Sem se expor demais, o cantor e compositor carioca saiu da toca e coloca nas prateleiras (reais e virtuais) a partir desta sexta-feira, 25, Caravanas, o 23.º álbum de estúdio. Com ele, morde e assopra. Afaga e sofre de desamor. E pincela subliminarmente uma visão política, enquanto navega por mares tranquilos organizados, por vezes singelamente, por Luiz Claudio Ramos, o diretor e produtor do álbum. Há planos para uma turnê pelo País, mas, até o momento, nada foi confirmado. 

Chico é calor e frio: é Tua Cantiga, uma canção de amor delicada, e As Caravanas, o beguine, um jazz latinizado dos anos 1930, transmutado em funk. Opostos que se unem, se alinham e costuram, do início ao fim. O retrato de um artista que já foi à frente de seu tempo, foi ultrapassado por ele e hoje flana, livre, por um espaço no qual sabe o que faz, sem correr riscos. Sem avançar demais. Nem de menos.

Soma-se meia dúzia de anos desde Chico, o álbum, até então último disco do carioca. Rumores para lá, rumores para cá. Ele está gravando um disco?, perguntavam-se todos. Estava, mas tudo foi às escondidas. Desde 2015, pingava, com mala, cuia e banda, para gravar uma ou outra canção. Foi tudo feito a conta-gotas, oposto ao das produções recentes, quando se reunia diariamente para registrar as canções, em uma rotina que dizia ser extenuante. Chico, afinal, não tem mais pressa. 

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E, no processo de erguer-se do silêncio e exílio musical de que gosta – é bom lembrar –, Chico se cercou dos seus. Ramos está a seu lado há décadas e o auxilia na construção das camadas, poucas, responsáveis para dar suporte à voz frágil. Afetivo, ele tem consigo os netos. Moça e moço crescidos, Clara Buarque e Chico Brown, ambos filhos de Carlinhos Brown com Helena Buarque, atuam em Dueto e Massarandupió, respectivamente. No caso do guri, a música é dele, que mandou ao avô algumas composições. A canção (quase não enviou por considerá-la “a mais infantil”) foi a selecionada. 

Na parceria com Clara, Chico regravou Dueto, canção originalmente registrada ao lado de Nara Leão, em 1980. Ao ter presença da neta e ao substituir versos de “pravda” e a “vodca” por nomes de redes sociais das novas formas de comunicação – que incluem e-mail, ligações por Skype e por aí vai –, Chico soa como alguém que vive um tempo que não é dele, mas o faz com graça. Diverte-se junto. A ponto de incluir Rafael Mike, do grupo de funk Dream Team do Passinho, para criar o beatbox nos momentos mais acalorados de As Caravanas. Sim, Chico subiu o morro. E colocou o funk para tocar na sua música de protesto.

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Construiu Caravanas (e não confunda esse título do disco com a música responsável por encerrar o álbum, de nome As Caravanas) aos pouquinhos, em visitas periódicas ao estúdio da gravadora Biscoito Fino. Seu disco e sua visão para os tempos extremos e divisórios. O Chico, de seus 73 anos, que canta o hoje. O louco século 21 tem um Chico mais lúcido a olhar bem para ele. Frente a frente com o agora, Chico é outro. Aceita o inevitável – o tempo, esse canalha – e ainda se assume a favor da paz em tempos de ódio, como o faz em As Caravanas, a canção mais contestadora, irônica e sagaz do carioca em anos. 

Porque, em um disco no qual se canta tanto sobre amor, Chico é sarcástico num discurso usurpado. Sacana, ele se porta como um burguês carioca a ver as “caravanas”, como ele compara, de ônibus que trazem moradores dos morros e das periferias do Rio às praias da zona sul, como Copacabana, Leblon, etc.

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É tão ácido que, talvez, haja quem não entenda o discurso. E isso também é interessante para um artista que já provocou a ditadura com versos escancaradamente óbvios, como em músicas como Deus Lhe Pague, ou ainda escondeu suas críticas no jogo de palavras – Cálice é uma aula do início ao fim no quesito. Mostra que Chico, aquele que conhecíamos, ainda está lá, em algum lugar. Nas faixa que encerra o disco, ele deixa essa persona mais contestadora escapar daquele lugar confortável no qual se deita, cujas harmonias podem ser complexas, mas são macias, não pinicam e não causam dores nas costas. 

O mundo não exige mais nada de Chico Buarque. Sua discografia está feita e estabelecida. Ainda assim, ele eventualmente coloca a cabeça para fora da toca. E quando o faz, é sempre Chico. Essencialmente Chico. 

 

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