Alessandro Grassani/The New York Times
Alessandro Grassani/The New York Times

Coleção secreta de arte de italiano recluso é colocada à mostra

Avaliado em US$ 600 milhões, acervo do magnata Federico Cerruti, que morreu aos 93 anos em 2005, pode ser visitado em sua Villa Cerruti, em Turim, na Itália - e tem de pinturas medievais à telas de Francis Bacon

Scoott Rayburn, O Estado de S. Paulo

08 de maio de 2019 | 18h20

Turim - As paredes da sala são na cor vermelha escura  com espelhos de molduras de ouro. O mobiliário italiano do século 18 é suntuosamente rococó. Um quadro de Renoir, “Jovem com rosas”, está pendurado diante das prateleiras repletas de livros bibliográficos finamente encadernados. Há bibelôs dourados por toda parte.

Para os olhos de hoje, acostumados a ver arte em interiores vazios, a vila do recluso colecionador italiano Francesco Federico Cerruti é um cenário inusitado. O que o mundo da arte contemporânea pensaria disto?

“Adoro. É como uma instalação”, disse Carolyn Christov-Bakagiev, diretora do Museu de Arte Contemporânea Castello di Rivoli,  encarregada da vila recentemente restaurada de propriedade de Cerruti. “Os artistas não suportam mais cubos brancos. Você tem de tirar a aura do museu para a arte voltar a ter vida novamente”, afirmou ela. 

Cerruti morreu em 2015 aos 93 anos de idade. Após sua morte um acordo foi firmado entre a fundação que ele criou e o museu Castello di Rivoli, em Turim, na Itália, para  tornar a sua formidável coleção acessível ao público. Algumas obras-primas selecionadas já foram colocadas à mostra no Castello, o primeiro museu de arte contemporânea do país.

Mas o domicílio da coleção de Cerruti, que consiste de mil peças que percorrem os séculos, é a vila de estilo provençal que ele construiu nos anos 1960, não muito longe do museu Castello, nas colinas de Turim. Conhecida pela sua torre de observação, que pode ter sido inspirada pelas 10 pinturas de Giorgio de Chirico que ele possuía,  a casa foi restaurada pelos arquitetos Baietto Battiato Bianco e o Con3Studio, e é administrada pelo museu. E foi oficialmente aberta ao público agora. Um micro-ônibus faz o trajeto do museu para a vila a cada hora.

“Estamos na era dos colecionadores e agora colecionamos um colecionador”, disse Carolyn, que foi diretora artística do festival de arte contemporânea Documenta em 2012 e hoje é diretora do museu. Ela considera Cerruti um modelo de como pessoas abastadas deveriam colecionar, desfrutar e no final compartilhar sua arte. “Ele quis que sua coleção se tornasse um museu público acessível a todos”, observou. 

Cerruti foi um personagem extraordinário, aparentemente mais de ficção do século 19 do que do século 21. Foi dirigente da Legatoria Industriale Torinese, empresa familiar, que deteve o contrato para encadernar as listas telefônicas italiana dos anos 1950 até a década de 1990.

Ele jamais se casou. Durante a semana vivia em um prédio de apartamentos perto da fábrica em Torino. Aos domingos almoçava sozinho em sua vila, acompanhado das orquídeas do seu terraço, no verão, ou ao lado das obras de Chirico na sala de jantar, no inverno. Mas jamais passava as noites ali.

Ele planejava morrer em seu quarto no topo da torre cercado por pinturas medievais italianas, mas no marreu em um hospital em Turim. Na época poucas pessoas sabiam que ele possuía obras de arte, livros, tapetes cerâmicas, móveis e pratas que mais tarde foram avaliadas em US$ 600 milhões. Ninguém tinha conhecimento da sua vida pessoal.

“A sua coleção era a expressão de uma necessidade interna”, disse Carolyn, apontando para uma pintura de Dosso Dossi do século 16, do eremita São Jerônimo, que derrotou as tentações da carne e é o santo padroeiro dos bibliotecários. Cerruti era obcecado por quadros de homens reclusos com livros. O soberbo Retrato de um Cavalheiro com Livro e Luvas, de Jacopo Pontormo,  de cerca de 1540, é provavelmente o melhor.

Sua inclinação por pinturas de velhos mestres e luxuosos móveis do século 18  remete ao elaborado “gosto Rothschild” de decoração de interiores, como encontramos no museu Nissim de Comondo em Paris e a Wallace Collection em Londres. Para muitos, é uma estética que não se enquadra no nosso tempo, especialmente num local abrigando arte moderna.

Mas Cerruti, que por décadas foi discretamente adquirindo obras de arte em leilões e de marchands, também tinha um olho aguçado para obras do século 20.

Por exemplo, em sua vila há um grupo de pinturas impressionante de Francis Bacon, Amedeo Modigliani, Paul Klee, Joan Miró e Fernand Léger. As paredes do quarto da sua mãe estão replenas de obras primas surrealistas, futuristas e expressionistas  que poderiam estar adornando as paredes dos maiores museus de arte moderna do mundo.

Tudo isso implica um desafio para o Castello di Rivoli, que atualmente abriga a mostra The City of Broken Windows, uma instalação multimídia do artista alemão Hito Steyerl.  Não seria um contraste grande demais?

“Nós os manteremos em tensão poética”, disse Carolyn Christov-Bakargiev, referindo-se às duas exposições. Ela resistiu a inserir obras contemporâneas na Villa Ceruti, mas lançou um programa amplo de encomendas em que artistas contemporâneos são convidados a reagir à casa e à coleção. Uma nova peça da artista britânica Susan Philipsz foi instalada no jardim da vila, e no museu Castello a artista chinesa Liu Ding criou uma instalação chamada The Orchid Room: Cerruti’s Attic and the Earthly World, inspirada pelos almoços solitários do colecionador.

Carolyn Christov-Bakargiev sublinhou que nos últimos anos muitos museus  que expõem material mais antigo estão se voltando para a arte contemporânea para reavivar sua atração. “Nós estamos nos abrindo para o passado. Esta é a novidade. Estamos fazendo um experimento e os artistas estão aderindo a ele”.

Tradução de Terezinha Martino 

 

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