Tiago Queirpz/Estadão
Tiago Queirpz/Estadão

Artista russo fica nu e pode ser tocado em exposição de performances no Sesc Consolação

Radicado no Brasil, Fyodor Pavlov-Andreevich abre nesta segunda-feira, 6, o seu 'Carrossel Performático', em que oito performances são realizadas simultaneamente

Pedro Rocha, ESPECIAL PARA O ESTADO

05 de novembro de 2017 | 06h00

A arte performática no Brasil vive um momento conturbado, com várias polêmicas. É nesse cenário em que uma nova apresentação pode gerar burburinho, agora com o  artista russo, quase brasileiro, Fyodor Pavlov-Andreevich. Ele se apresenta em São Paulo, como parte da edição brasileira do Carrossel Performático de Fyodor, exposição com oito performances simultâneas que já passou por Buenos Aires (2014) e por Viena (2016).

O "Carrossel" em questão é uma estrutura circular que pode ser movida com a ajuda do público, por meio de bicicletas instaladas no local de exibição. Em São Paulo, será no Sesc Consolação, com entrada gratuita, entre 6 e 20 de novembro. 

Por todos os locais por onde passou, o Carrossel uniu quatro artistas locais e quatro estrangeiros, incluindo Fyodor, também curador  ao lado de Margarita Osepyan. “O mais importante é construir uma ponte entre performance local e internacional”, afirma o artista ao Estado. 

Em sua própria performance, Fyodor, deitado nu, poderá ser tocado por até sete pessoas, e a depender do local, um som musical diferente é executado. Somados, os sons se assemelham a uma orquestra. A cada cidade, um compositor com relação local é convidado - e para o Brasil, o responsável pela música foi Arto Lindsay. “Ele me falou que fez um barulho tão forte que eu vou sofrer com as emoções.”

O artista explica que  estará todo o tempo olhando para o teto e vai apenas sentir os cheiros e os toques. “A pessoa pode tocar de uma maneira mais intensa ou mais tranquila e isso vai interferir na música. A pesquisa é sobre a distância entre a obra de performance e o público, que no caso chega a quase zero.”

Para possibilitar que os toques se tornem som, Fyodor contou com a parceria com um grupo de engenheiros, artistas e músicos, o Playtronica. “Eles desenvolveram uma tecnologia que pode tocar música em qualquer superfície, seja uma fruta ou uma parede.” Para a performance de Fyodor, foi a primeira vez que o coletivo desenvolveu a tecnologia para ser utilizada no corpo humano.

Apesar de viver no Rio, onde há quatro anos comprou um apartamento depois de vender sua casa em Moscou, Fyodor diz se sentir em casa também em São Paulo – por isso, desde o início, pensou em trazer a exposição para cá. “Sinto que, na vida passada, fui um mendigo do Centro de São Paulo – quando passo por lá, sinto uma mistura de tristeza e sensação de estar em casa.” O artista está nervoso em trazer o Carrossel. Não pelas polêmicas com nudez, mas pelo paulistano. “Eu me preocupo muito porque o público de São Paulo está acostumado com esse tipo de arte, já recebeu Tino Sehgal, Marina Abramovic... Estou com dedos cruzados.”

Mesmo com o atual momento da arte performática no Brasil, Fyodor não parece preocupado com possíveis repercussões, principalmente pela experiência que tem como diretor de um museu de performances na Rússia. “Creio que alguns ativistas podem falar alguma coisa, mas a arte está aqui para perturbar. Quero convidar todo o público, inclusive quem não gosta de arte de performance, para experimentar.”

Fyodor acredita que as performances do Carrossel não possuem conteúdo erótico ou que possam traumatizar uma criança. Ainda assim, para evitar qualquer problema, foi estipulado um limite etário de 16 anos. “Não queremos deixar a vida dos nossos colegas do Sesc ainda mais complicada”, diz ao citar protestos contra a palestra de Judith Butler no Sesc Pompeia. Ambos os projetos do Sesc são em parceria com o Instituto Goethe, partes do programa Episódios do Sul. “Esperamos Judith para fazer algo aqui também.”

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A onda de conservadorismo, principalmente em relação às artes, não assusta o artista, que cresceu na União Soviética. “Sou bem familiarizado com censura e opressão, tínhamos a KGB na nossa porta.” A mãe de Fyodor, a escritora Lyudmila Petrushevskaya, só conseguiu lançar o primeiro livro aos 50 anos, por conta do regime do país. A inspiração para o Carrossel, aliás, vem dos primeiros anos de União Soviética, do período do Construtivismo Russo. A ideia veio em parceria com seu melhor amigo, o arquiteto Marko Brajovic. 

“Para nós, é muito importante a ideia de que, quando o visitante entra e precisa pedalar, contribui para fazer o Carrossel girar. Isso tem relação com a ideia do Construtivismo”, acredita. Ninguém, porém, é obrigado a interagir com a estrutura. Nem com ele em sua performance, que em nada tem a ver com Lenin. “Aquilo foi uma brincadeira”, explica. “Apenas disse que, na performance, fico como Lenin em seu mausoléu, porque a minha estrutura no Carrossel se parece com um.” A performance de Fyodor, na verdade, pode fazer referência a qualquer corpo, segundo o artista. 

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