Gramado 2018: A polêmica de ‘Simonal’ e o aviso para os dias de hoje
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Gramado 2018: A polêmica de ‘Simonal’ e o aviso para os dias de hoje

Filme faz de Wilson Simonal uma vítima do racismo, mais que um perseguido por patrulhas ideológicas ao ser acusado de informante da política na época da ditadura militar

Luiz Zanin Oricchio

21 de agosto de 2018 | 13h23

Fabrício Boliveira e Ísis Valverde em ‘Simonal’

 

GRAMADO/RS

Como se previa, ‘Simonal’ foi, até agora, o concorrente mais polêmico da mostra competitiva do Festival de Gramado. A cinebio do grande cantor, que cai em desgraça ao fazer com que amigos da polícia dessem uma prensa num contador que ele julgava desonesto, propõe sérias reflexões políticas sobre o Brasil da época e – por que não? – sobre o País atual. É um filme incontornável.

Dirigido por Leonardo Domingues (é seu primeiro longa), Simonal trouxe à serra gaúcha atores globais, como Fabrício Boliveira, que interpreta o cantor, e Isis Valverde, que faz sua mulher, Tereza, e com quem Simonal teve três filhos. Dois deles também vieram à serra, Max de Castro e Simoninha.

O longa é muito bem construído. Abre com um suntuoso plano-sequência em que um grupo de empresários entra num teatro para relançar a carreira de Simonal, caído em desgraça após a acusação de ser informante da polícia, difundida em especial pelo jornal O Pasquim e espalhada por toda a classe artística, em sua maioria contra a ditadura, quando não vítima de perseguição política.

O caso se deu no período mais obscuro da ditadura militar, no início dos anos 1970. Suspeitando de desfalque em suas contas, Simonal pediu a amigos do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) para darem a tal “prensa” no contador Raphael Viviani (Taviani, no filme) para que este confessasse um desfalque. Acontece que contador, ao ser demitido, havia entrado com um processo contra Simonal. Os agentes pegaram pesado e, ao invés da “prensa”, torturaram o contador. O caso terminou em processo de sequestro e extorsão contra Simonal, que acabou preso, permaneceu nove dias na cadeia e acabou cumprindo a pena em liberdade.

Mas, num ambiente político tóxico, sua carreira estava acabada. Os shows eram cancelados em série e Simonal passou o resto da vida tentando provar que não era informante da polícia. Morreu no ano 2000, ainda no ostracismo.

+++ Em entrevista, Paulo Vanzolini diz que ‘Simonal era dedo duro mesmo’

Ao morrer, ganhou obituários na imprensa, destacando, em geral, o grande artista, mas também o patrulhamento ideológico de que supostamente fora vítima. Tudo isso deve ser visto no contexto de outra luta política, a que se iniciara na pós ditadura, com a ascensão de partidos de esquerda – Lula seria eleito pela primeira vez em 2002.

Falamos da construção do filme e é bom prestar atenção em seus detalhes. Há outro plano sequência impressionante, quando Simonal, dominando a plateia, como sempre fazia, deixa o público cantando sozinho o hit Meu Limão meu Limoeiro, passa pelos corredores, sai do teatro para tomar um trago no boteco e volta para assumir de novo o microfone. É muito bem feito.

“A inspiração para ambos os planos veio de filmes como Os Bons Companheiros (de Martin Scorsese) e também de Boogie Nights (de Paul Thomas Anderson)”, disse o diretor Leonardo Domingues. Não se trata de mero exibicionismo de câmera. Os planos se inserem com leveza na narrativa.

Na fase luminosa da história a filmagem é tons claros e vivazes. A música é sempre muito presente. (Não existe nada mais chato que filme sobre artista musical sem música).

Na segunda metade, trata-se da queda. Mas o tempo todo, os aspectos mais ásperos do personagem não são omitidos. Vindo da pobreza, Simonal tornou-se rico. Dono de musicalidade excepcional, virou famoso para valer com musiquinhas que cantava junto com o auditório. Seu carisma era inegável. Mas, no meio musical, o que se comentava era ele ser um artista que desperdiçava seu imenso talento com um repertório menor.

Casado com uma mulher loira, Simonal era também visto como “negro atrevido” numa época de racismo menos disfarçado que a atual. Seus conflitos com a esposa e infidelidades estão presentes. A questão racial também, e com muita ênfase.  

Não por acaso, portanto, que um filme de 2018 coloque o acento nesse aspecto racial, deixando em relativo segundo plano os aspectos políticos. O Brasil vivia a pior fase da ditadura. Matava-se e torturava-se no Brasil e a imprensa vivia sob censura. O que não impedia pessoas mais informadas de saberem o que estava acontecendo. E o meio artístico, ao qual pertencia Simonal, era majoritariamente contra o regime. Nesse contexto os fatos se dão e fazem sentido.  

Trata-se de uma construção do filme (não estou discutindo se verdadeiras ou não). Na narrativa, Simonal é chamado a depor no DOPS ao cantar a música em homenagem a Martin Luther King. No artigo da Wikipedia, diz-se que Simonal foi chamado a depor em 1969 por causa da presença de uma bandeira da União Soviética no cenário do seu show De Cabral a Simonal.

Há outra cena reveladora. Já caído em desgraça, Simonal conforta-se com Elis Regina. Elis havia tido problemas também ao cantar na Olimpíada do Exército. Embora controversa, a situação não se parece nem de leve com a de Simonal. No filme, Elis “diz”: “Eu também fui atacada e me recuperei”. Ao que Simonal (Boliveira) responde algo como: “Mas eu sou negro, é diferente”.

Qual a verdade, qual a invenção? Não sabemos. O filme, que se diz, “baseado em fatos reais” apresenta sua versão: Simonal foi patrulhado por causa de sua cor. Um apaixonado Fabrício Boliveira assume integralmente essa tese: “Ele era o negão abusado, que portanto tinha de ser distraído. Eu mesmo sofro esse tipo de discriminação e todos os negros bem sucedidos são vistos com desconfiança, por isso é fundamental que esse filme seja discutido hoje em dia”.

Com certeza, todos os “negros abusados” do país já sofreram discriminação, como o próprio Simonal e o jogador Paulo César Caju, que também gostava de loiras, de carrões e foi jogar na França, numa época em que jogadores pouco saíam do Brasil e não costumavam se exibir com suas conquistas. Low profile era o mínimo que se esperava dos que tinham conseguido vencer a barreira de cor numa sociedade racista, que nunca se assumiu como tal. 

Todos esses aspectos, o resgate de uma figura importante, o viés com que sua história é tratada, como caso de racismo, e a relativa ausência da contextualização política na trama, fazem de Simonal um filme muito importante. Fala sobre a época em que os fatos se deram. E fala muito sobre a nossa época atual, 18 anos depois da morte do personagem real. Nos leva a meditar que, fatos como aqueles só seriam possíveis no quadro de uma ditadura, em que liberdades pessoais estivessem abolidas e não houvesse livre trânsito de informações.

Esta nossa época, em que parte dos brasileiros parecem sentir nostalgia daquele passado. Um tempo obscuro que, provavelmente, a maioria deles não viveu.

 

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