Mais sobre o fantasismo brasileiro — #1
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Mais sobre o fantasismo brasileiro — #1

Bruno Anselmi Matangrano (FFLCH-USP) e Enéias Tavares (UFSM) comentam em entrevista as ideias do livro 'Fantástico Brasileiro – O Insólito Literário Do Romantismo Ao Fantasismo'

Guilherme Sobota

04 Setembro 2018 | 11h17

Os pesquisadores Bruno Anselmi Matangrano (FFLCH-USP) e Enéias Tavares (UFSM) lançaram recentemente o livro Fantástico Brasileiro – O Insólito Literário Do Romantismo Ao Fantasismo (Arte & Letra).

No estudo, que repassa o elemento “insólito” na literatura brasileira, eles propõem uma nova formulação de movimento literário: o “fantasismo” pega elementos da tradição literária fantástica e os adapta à nova realidade do mercado editorial brasileiro do século 21.

Eneias Tavares e Bruno Anselmi Matangrano, na livraria Martins Fontes, em SP. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Eles me concederam uma entrevista por e-mail. Como por conta do espaço tive que resumir muito, resolvi publicar a íntegra do material aqui, em três partes — a primeira delas hoje. Nessa primeira leva, eles comentam o uso do termo “insólito”, o preconceito com a literatura fantástica, e explicam como ele se sedimentou no Brasil.

Pergunta: A ideia é tentar, digamos, naturalizar o termo “insólito” no lugar de “fantástico”?

Bruno: Creio que o termo insólito não vai substituir o fantástico, um conceito antigo e sedimentado desde o século XIX. E esse não é o objetivo (tanto que em nosso livro fizemos questão de trazer os dois conceitos já no título). Contudo, como ferramenta teórica, o insólito é mais prático e menos polêmico, por assim dizer. Isso porque nem sempre há consenso sobre o que é o fantástico. Na França e na Espanha, por exemplo, entende-se fantástico como uma narrativa de sobrenatural, na qual a hesitação do leitor ante a anormalidade e o choque entre o real e o sobrenatural criam o efeito de estranhamento intrínseco a esse tipo de história, conforme teorizado por Tzvetan Todorov e outros teóricos. Editores, escritores e críticos de outros países, no entanto, muitas vezes entendem o fantástico como qualquer narrativa onde há um ou mais elementos que extrapolem a noção de realidade.

Outra corrente crítica, sobretudo americana, vê o conceito como um macrogênero englobando três outras categorias: a fantasia, a ficção científica e o terror. Já o grande público, muitas vezes entende o fantástico simplesmente como sinônimo de fantasia, não percebendo outras vertentes como fantásticas, quando de fato poderiam ser.

No Brasil, a crítica especializada entende que há dois fantásticos: o de sentido estrito (tal como entendido na Espanha e França) e o de sentido lato (visto como macrocategoria, passível de ser dividida em diversas vertentes e não apenas nas três, como consideram os norte-americanos). O insólito equivaleria, portanto, a esse fantástico lato sensu. A vantagem teórica está em ser um conceito isento de preconceitos, sem ambiguidades e ainda mais abrangente, pois enquanto o fantástico muitas vezes é relegado às ditas “literaturas de gênero” ou “literaturas populares”, o insólito abarca tanto o popular, quanto o erudito, a “alta literatura”, como a “literatura pop”, analisando-as pelo que possuem em comum, sem hierarquizá-las. Mas, como fica claro, ambos os conceitos nem sempre designam a mesma coisa e, por isso, creio que coexistiram pacificamente, como de fato tem acontecido na última década. No mercado editorial, creio, o termo fantástico continuará prevalecendo. E isso não é de modo algum um problema.

Enéias: Enquanto pesquisadores e escritores, estamos acostumados a vivenciar grande preconceito por parte de alguns professores e até pesquisadores quando o assunto é o fantástico. Na verdade, o que está em jogo nesse embate é a errônea e prejudicial separação entre alta literatura e literatura popular, ou de entretenimento, separação que perpassa os programas de muitos cursos de graduação e, por extensão, a educação no Ensino Médio. Sabe aquela cena clássica do professor de literatura brasileira repreendendo um estudante que está lendo a saga Crepúsculo dizendo que “aquilo não é literatura?”.

Chamei-o de errôneo acima porque toda a literatura dita clássica – ou alta – foi um dia justamente uma literatura de entretenimento, no sentido mais popular que você possa imaginar. Pegue Homero, Shakespeare e Machado, por exemplo, que criaram histórias – hoje clássicas – para audiências que consumiam poesia oral em praça pública, teatro e folhetim, respectivamente. Por sua vez, prejudicial por formar a mente de professores que reproduzem essa distinção, distinção que, a meu ver, tem mais a ver com diferentes faixas etárias e gostos pessoais do que com qualquer outra coisa.

Em resumo, o “insólito” fragiliza esses preconceitos quanto ao popular, ao entretenimento e ao fantástico por direcionar a discussão para elementos textuais específicos, não associados a determinados padrões ou ao gosto. Para nós, trabalhar com os dois conceitos é também fortalecer uma barricada importante que tem por objetivo não o ataque a críticos de uma ou outra vertente e, sim, a formação de jovens leitores e aceitação de gostos literários – sejam eles quais forem – como fundamentais ao percurso de qualquer leitor.

Vocês acham que essa definição pode, por exemplo, diminuir o preconceito com essas histórias?

Bruno: Sim, com certeza. Infelizmente, no Brasil, o termo fantástico passou a ser associado a alguns juízos de valor. Insólito é um conceito ainda neutro, pelo qual pode-se perceber as semelhanças entre literaturas a princípio díspares. Como é um termo que já nasce dentro da academia – seus maiores difusores e teóricos foram professores e pesquisadores da UERJ, num primeiro momento, aos quais logo se somaram pesquisadores de diversas partes do Brasil –, o conceito de insólito já nasce “protegido”, por assim dizer, ou, ao menos, bem fundamentado, com o respaldo das instituições advindo de muita formulação teórica já o defendendo de possíveis ataques, como por exemplo, no esforço em identificá-lo em autores canônicos, num benéfico apagamento de fronteiras.

Enéias: As barreiras continuam e continuarão existindo, apesar de serem cada vez mais frágeis. E isso se dará por uma razão muito simples: O esvaziamento de cursos que defendem posturas mais tradicionais e a multiplicação de trabalhos de iniciação científica, mestrado e doutorado que versem sobre o insólito e o fantástico. Diferentes dos nossos pais e professores, hoje nossos alunos – e os leitores em geral – estão muito mais atentos aos seus próprios gostos e interesses, muitas vezes escutando mais sua sensibilidade, os amigos e as redes do que os tradicionais formadores de opiniões. Mas no meu caso, meu enfoque – como pesquisador, professor e escritor – está mais voltado a evidenciar o quanto textos clássicos do passado sempre foram interessantes e instigantes. O problema não está no texto e, sim, nas formas como eles foram trabalhados por décadas. O insólito convida-nos a revisitar o cânone e a vê-lo com outros detalhes. Por isso a minha certeza de que sim, de que ele nos ajudará a ver nossos clássicos de outro modo e a redescobrir outros, tanto no passado quanto no presente.

Aliás, é possível mapear de onde vem esse “preconceito”, ou quando a literatura fantástica/insólita passou a ser considerada um “gênero” menor?

Bruno: Mapear um preconceito é sempre difícil, mas podemos especular. Mas antes, porém, convém dizer que esse preconceito não é universal. Na literatura de língua inglesa, por exemplo, o fantástico nunca foi deixado de lado como algo “menor”. Ninguém hesitaria em chamar Poe de alta literatura, tampouco Lewis Carroll, para citar nomes bem óbvios. Nas literaturas de língua alemã, temos expoentes como Goethe, os Irmãos Grimm, Hoffmann e Kafka, autores que se valeram de recursos inequivocamente fantásticos. Os latino-americanos criaram o realismo maravilhoso e muito se orgulham – e com toda razão – de Borges, Cortázar, García Marques, Horácio Quiroga, dentre outros autores respeitadíssimos e fantasticíssimos. No entanto, o Brasil ignorou Murilo Rubião por muito tempo, fingiu que Aluísio de Azevedo nem chegara a escrever contos insólitos, e tentou fingir que um de seus livros mais importantes, e mais inequivocamente fantásticos, Macunaíma, de Mário de Andrade, não pertencia também a essa categoria.

Creio que isso se deve a dois motivos: o primeiro, nascido de uma ingenuidade. O segundo, de outro preconceito. Aquele se deve, parece, à incessante busca de uma identidade nacional e de uma literatura que nos representasse e que nos fizesse ser “levados a sério” enquanto nação. Precisávamos de um cânone e nele não havia espaço para algo supostamente infantil, estrangeirizante, alienado. A literatura oitocentista hoje estudada e elogiada é aquela mais pretensamente nacionalista e intencionalmente séria e qualquer coisa que fuja disso parece ter sido vista com maus olhos. Álvares de Azevedo, cuja Noite na Taverna se passa em solo europeu, com protagonistas europeus e referências do velho continente, por exemplo, não fazia literatura brasileira, dizem alguns acadêmicos mais conservadores. Por outro lado, quando um Mário de Andrade se vale do maravilhoso intrínseco aos mitos fundadores para criar nosso próprio mito paródico-antropofágico, o livro é visto puramente como metáfora e alegoria, como se outras obras declaradamente fantásticas não tivessem ou pudessem ter também essa profundidade simbólica.

O segundo motivo nasce do preconceito em relação ao que vende, ao que entretém, ao que agrada aos jovens, em particular, e ao grande público, de modo geral. Vou dar um exemplo disso: na FLIP de 2012, perguntaram – muito ignorantemente – ao escritor norte-americano Jonathan Franzen como ele se sentia sendo, ao mesmo tempo, um escritor de “alta literatura”, elogiado pela crítica, e, também, um escritor popular, que entretém o público e vende bem (ou seja, um best-seller – palavrinha tão doce para editores e tão amarga para alguns críticos). Ao que ele respondeu dizendo não entender porque o mercado brasileiro vê o entretenimento (e a venda consequente a essa capacidade) como algo negativo. Afinal, não é desejo de todo escritor ter seu livro comprado, lido e elogiado? Para ele, e para mim também, o entretenimento é algo intrínseco ao prazer da leitura. O que muda é qual elemento entretém. Para alguns é só o enredo. Para outros, é a forma. Etc. Pois, do contrário, porque você leria algo que acha chato? Franzen comentou que isso não fazia sentido para ele (assim como a própria pergunta não fazia sentido, pois nascia de um preconceito – isso já sou eu que digo).

Contudo, no Brasil, por muito tempo perpetuou-se que literatura boa é chata, fazendo muita gente perder o gosto pela leitura, quando na verdade, qualquer livro pode ser divertido ou chato, dependendo do público. Como o fantástico costuma entreter e costuma agradar, sobretudo ao grande público e, mais especificamente, a crianças e adolescentes, muita gente, por preconceito, entendeu de pronto que só podia ser ruim. E, novamente, isso não deixa de ser igualmente ingênuo. Para não dizer, ignorante.

Enéias: Eu apenas adicionaria, como razão para esse preconceito ao fantástico, para não dizer desconhecimento, algo que os estudos culturais, pós-coloniais e feministas explicitaram nas últimas décadas: o cânone ocidental e nacional é resultado de interesses políticos, culturais e sociais, resultando comumente de especialistas caucasianos, heterossexuais e cristãos. Por muito tempo se defendeu a ideia de que, mesmo entre os que reconheciam o preconceito, que mulheres, negros e homossexuais não publicaram suas obras porque não tiveram oportunidade. E isso é um erro, dado as dezenas de autores e autoras do passado que a crítica tem reapresentado a uma nova audiência. No caso do Brasil, esse tópico é ainda mais problemático, porque além de termos sim um número significativo de mulheres escritoras entre o século XIX e o início do XX – como Júlia Lopes de Almeida e Emília Freitas, para citarmos apenas duas – sempre se tentou “embranquecer” nossos autores, sendo o caso mais escandaloso o de Machado de Assis.

Uma vez que entendemos que o cânone parte desses interesses, podemos também cogitar também outros interesses, como o de valorizar um critério – a experimentação estilística, por exemplo, ou a crítica de costumes – e ignorar ou deixar de lado outros, como a trama mais imaginativa ou com remissões ao insólito. Acho que o exemplo de Macunaíma, dado pelo Bruno, exemplifica isso: é feito de tudo para ignorar o insólito e quando não se pode, destaca-se o que não é insólito. Se pensarmos que esses mesmos críticos formaram nossos professores que por sua vez formaram outros professores e assim sucessivamente, eis a explicação desse preconceito. Em verdade, nosso Fantástico Brasileiro sugere a necessidade de revisarmos fortemente nossa historiografia, especialmente se o nosso olhar estiver voltado para os leitores e leitoras de amanhã.

LEIA AQUI: Pesquisadores propõem um novo movimento literário brasileiro: o fantasismo