Karl Felippe/Editora Arte & Letra
Karl Felippe/Editora Arte & Letra

Pesquisadores propõem um novo movimento literário brasileiro: o fantasismo

Bruno Anselmi Matangrano (doutorando na USP) e Enéias Tavares (professor da UFSM) fazem revisão do elemento 'insólito' na história da literatura brasileira e elaboram uma nova organização do contemporâneo no livro 'Fantástico Brasileiro – O Insólito Literário Do Romantismo Ao Fantasismo'

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

24 Agosto 2018 | 06h00

Não é todo dia que surge a proposta – organizada – de um novo movimento literário. Pois nesta sexta-feira, 24, os pesquisadores Bruno Anselmi Matangrano (doutorando em literatura portuguesa pela FFLCH-USP) e Enéias Tavares (professor de literatura clássica na Universidade Federal de Santa Maria) lançam em São Paulo o livro Fantástico Brasileiro – O Insólito Literário Do Romantismo Ao Fantasismo (Arte & Letra), na Livraria Martins Fontes da Paulista, às 19h.

O livro faz uma recomposição histórica do fantástico na literatura brasileira – os autores dizem que um “elemento insólito sempre se revelou uma parte importante de nosso patrimônio literário, embora nem sempre tenha sido valorizado e entendido como tal”. Eles repassam a obra de nomes como Machado de Assis, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, mas também de nomes mais ligados ao mágico, como Murilo Rubião e José J. Veiga, bem como de gente menos conhecida, como Adelpho Monjardim (1903-1986) e Augusta Rosa (1948), até chegar ao contemporâneo, sempre destacando os aspectos próximos do fantástico.

No epílogo do livro, eles propõem uma nova formulação de movimento literário: o “fantasismo” pega elementos da tradição literária fantástica e os adapta à nova realidade do mercado editorial brasileiro do século 21, com editoras mais atentas a essa produção, novos canais de divulgação, mais pesquisa acadêmica sobre o tema e, simplesmente, mais autores lançando livros (na obra, há dezenas e dezenas de exemplos). 

Eles situam o início do movimento no ano 2000, com o lançamento de Os Sete, de André Vianco, e a indicação de Max Mallmann (1968-2016) para o Prêmio Jabuti por Síndrome de Quimera – livros que iniciam um “lento processo” de abertura para as grandes editoras, que viria a se confirmar em 2007 com A Batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr, e o primeiro volume da trilogia Dragões de Éter, de Raphael Draccon.

Ao mesmo tempo, eles apontam o surgimentos das editoras Novo Século (2000), Giz (2005), Tarja (2008), Draco (2009), Estronho, Vermelho Marinho e Argonautas (2010), bem como a chegada da Leya em 2009 (que lançaria Carolina Munhóz e outros) e da dedicação da Gutenberg, do Grupo Autêntica, ao fantástico. Grupos de pesquisa surgem em diversas universidades, especialmente na Uerj ("Nós do Insólito", coordenado pelo professor Flavio García, que assina o prefácio do livro). Além da movimentação de leitores e fãs, criando prêmios, simpósios, blogs, podcasts e canais no YouTube para divulgar a produção.

“O fantasismo nasce da vontade explícita de um grupo significativo de escritores de fazer literatura fantástica, de modo geral, e de escrever fantasia, em particular”, explica Matangrano. “Num primeiro momento, as fantasias brasileiras na maior parte das vezes colavam-se aos modelos estrangeiros, às vezes de modo quase caricato ou paródico. Hoje, ela criou autonomia, como demonstra Ordem Vermelha – Filhos da Degradação, de Felipe Castilho. Assim, podemos dizer que já há uma fantasia tipicamente brasileira. Pautada, sim, no diálogo com a literatura e cinema estrangeiros, mas deglutidos. O que nos leva a outra característica intrínseca ao movimento: o fantasismo é essencialmente antropofágico – como me parece ter sempre sido qualquer movimento nacional de relevo. A partir do que é feito lá fora, os escritores brasileiros encontram a própria voz, criando algo novo, em diálogo com nossa história, cultura e tradição. Mas, antes de tudo, repito, está a intenção.”

Além disso, há no movimento também uma ampla preocupação com tecnologia e multimídia. “Hoje, projetos transmídia são comuns em universos fantásticos que se espraiam do cinema para os quadrinhos, para os livros, para os jogos, para a internet. Esses projetos extrapolam a noção tradicional que temos de narratividade”, explica Tavares, citando autores de literatura brasileira como Christopher Kastensmidt, Affonso Solano e Leonel Caldela.

Os autores também aplicam o conceito de “insólito”, usado nos estudos literários brasileiros desde a década de 1970, um guarda-chuva mais amplo – e menos estereotipado. “A vantagem teórica está em ser um conceito isento de preconceitos, sem ambiguidades e ainda mais abrangente, pois enquanto o fantástico muitas vezes é relegado às ditas ‘literaturas de gênero’ ou ‘literaturas populares’, o insólito abarca tanto o popular, quanto o erudito, a ‘alta literatura’, como a ‘literatura pop’, analisando-as pelo que têm em comum, sem hierarquizá-las”, comenta Matangrano.

Para os autores, é preciso vencer o preconceito contra a literatura fantástica – nascido, especulam, na necessidade de a literatura brasileira buscar uma identidade nacional e construir um cânone. “Os estudos culturais, pós-coloniais e feministas explicitaram isso nas últimas décadas: o cânone ocidental e nacional é resultado de interesses políticos, culturais e sociais, resultando comumente de especialistas caucasianos, heterossexuais e cristãos”, explica Tavares – essa formação adota critérios, deixa outros de lado, forma críticos e professores e pode ter criado o preconceito.

Entrevista — Felipe Castilho, escritor

‘Tem muito escritor realista ainda desconectado da realidade’

Um dos principais nomes do ‘fantasismo’, autor paulistano diz que esse modo de narrar pode ser genuinamente brasileiro

Uma das principais movimentações do “fantasismo” é recente: em dezembro de 2017, a Comic Con Experience lançou, com a Intrínseca, Ordem Vermelha – Filhos da Degradação, de Felipe Castilho, num esforço conjunto provavelmente inédito no Brasil. A ideia é criar um universo de fantasia 100% brasileiro, e um livro do autor foi escolhido para ser a primeira base do projeto que ainda deve crescer.

Qual é a diferença fundamental entre as maneiras que as literaturas fantástica e realista tratam de temas sociais brasileiros?

Diverge muito de escritor para escritor. Dizem que a literatura fantástica não pode tratar de assuntos assim. Isso é falso. A possibilidade de trabalhar esses temas é a mesma. Se o autor tem sensibilidade, ele consegue passar de qualquer forma. Pode parecer espinhoso, mas tem muito escritor que escreve realismo totalmente desconectado da realidade. Existia uma ideia de que não dava para fazer literatura fantástica no Brasil, isso é errado, e nem precisa usar só os mitos folclóricos. A “brasilidade” está na própria formação do escritor. 

Como foi que nasceu esse projeto da Ordem Vermelha?

A CCXP quis criar um universo que eles pudessem festejar, assim como celebravam os universos de outros autores. Já existia um conceito de pegada medieval, o universo foi cocriado, como numa sala de roteiristas. É uma nova maneira de criar narrativas. Já existem outros assim e pode se transformar numa tendência. E são coisas inspiradas em Isaac Asimov, Ray Bradbury, George Orwell. As pessoas gostam de conteúdos, por que não oferecer novas narrativas? Houve ainda um processo de divulgação muito grande, e essa talvez seja uma forma de trazer o mercado do livro para outros cenários, maiores.

FANTÁSTICO BRASILEIRO – O INSÓLITO LITERÁRIO DO ROMANTISMO AO FANTASISMO

Autores: Bruno Anselmi Matangrano e Enéias Tavares

Editora: Arte e Letra (340 págs., R$ 74,90)

Lançamento: 6ª (24), 19h, na Martins Fontes (Av. Paulista, 509)

ORDEM VERMELHA — FILHOS DA DEGRADAÇÃO

Autor: Felipe Castilho

Editora: Intrínseca (448 págs., R$ 44,90, R$ 21,90 o e-book)

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