Livro explica como ataques populistas à ‘verdade objetiva’ podem minar a democracia
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Livro explica como ataques populistas à ‘verdade objetiva’ podem minar a democracia

Ex-crítica literária do 'The New York Times', Michiko Kakutani lança o alerta dos perigos que ataques à imprensa e o uso descabido do termo 'fake news' podem representar para o sistema político

Guilherme Sobota

25 Outubro 2018 | 14h36

Michiko Kakutani foi crítica literária do The New York Times por quase 40 anos, tempos em que se estabeleceu como figura global do criticismo cultural. Nomes como Jonathan Franzen, David Foster Wallace, Zadie Smith, Ian McEwan, Gore Vidal, Norman Mailer, Philip Roth e J. K. Rowling foram apenas alguns dos autores literários que passaram pelos seus textos.

Mas a carreira dela também se construiu resenhando livros com alta carga política: de biografias a memórias, até uma famosa entrevista com Barack Obama, não é exagero dizer que ela esteve no centro do debate intelectual americano diário — isso até o meio de 2017, quando decidiu sair do jornal para se dedicar ao ensaísmo de maior fôlego, gênero que ela considerou necessário dada a eleição de Donald Trump.

O primeiro fruto desse esforço é o livro A Morte da Verdade — Notas Sobre a Mentira na Era Trump, que a Intrínseca lançou no Brasil com tradução de André Czarnobai e Marcela Duarte, numa bela edição de capa dura.

Embora seja um esforço focado no modo como Trump construiu sua campanha e o primeiro ano de seu governo, as semelhanças com a situação política brasileira são gigantescas.

‘Murió La Verdad’, de Francisco Goya (edição de 1863)

O livro começa assim:

“Dois dos regimes mais abomináveis da história da humanidade chegaram ao poder no século XX, e ambos se estabeleceram com base na violação e no esfacelamento da verdade, cientes de que o cinismo, o cansaço e o medo podem tornar as pessoas suscetíveis a mentiras e falsas promessas de líderes determinados a alcançar o poder incondicional. Como Hannah Arendt escreveu em seu livro de 1951, Origens do totalitarismo: ‘O súdito ideal do governo totalitário não é o nazista convicto nem o comunista convicto, mas aquele para quem já não existe a diferença entre o fato e a ficção (isto é, a realidade da experiência) e a diferença entre o verdadeiro e o falso (isto é, os critérios do pensamento).”

Ela segue lamentando que as palavras de Arendt soam cada dia mais atuais num “mundo no qual as fake news e as mentiras são divulgadas em escala industrial“, causando o isolamento e a perda da habilidade de as pessoas se comunicarem.

Não se trata, porém, de uma analogia direta com os regimes do século 20, mas de uma análise de como sinais da “corrosão da linguagem” podem abrir o caminho para governos autoritários.

O primeiro capítulo do livro analisa o “declínio da razão” e como as visões de especialistas (jornalistas, acadêmicos, cientistas sociais e economistas) são desgastadas por discursos populistas.

No segundo, sobre as “novas guerras culturais”, ela explica como teorias do pós-modernismo emanciparam o trabalho artístico possibilitando o surgimento de nomes como David Bowie, Thomas Pynchon, os irmãos Coen e David Lynch.

Quando aplicada às ciências sociais, porém, as mesmas teorias podem ter consequências desanimadoras para as democracias ao consagrar um princípio absoluto de subjetividade. Ela é especificamente cruel com Derrida e seu conceito de desconstrução.

Em outro capítulo, ela mostra como a apropriação da linguagem por líderes populistas afeta diretamente o impacto que seus discursos ganham na população. Ou seja: palavras importam.

Citando o linguista alemão Victor Klemperer, que manteve um diário do seu período sob domínio nazista na Alemanha, Kakutani reforça como os “nazistas usavam palavras como ‘pequenas doses de arsênico’ para envenenar e corromper por dentro a cultura alemã”.

A crítica aponta como as “diatribes” de Trump contra a imprensa — o uso indiscriminado do termo fake news, por exemplo — abriu espaço para ataques à liberdade de imprensa em outros países, como Rússia, China, Turquia e Hungria — e acrescento aqui, o Brasil.

Recorrendo a Umberco Eco, ela escreve: “Muitos dos recursos que Eco descreveu como sendo intrínsecos ao fascismo lembram assustadoramente a demagogia de Trump: um apelo ao nacionalismo e ao ‘medo da diferença’; uma rejeição à ciência e ao discurso racional; uma invocação da tradição e do passado e uma propensão a associar divergências com deslealdade”.

Sobre as fake news, Kakutani aponta como a “tecnologia se tornou um combustível altamente inflamável” quando o assunto é minar a crença na objetividade, destrinchando o distópico esquema russo de manipulação das redes sociais com robôs, apenas “a ponta do icerberg” segundo alguns críticos.

O perfil que ela traça de Vladislav Surkov, “o mestre contemporâneo russo da propaganda”, também é esclarecedor do fato de como ele, braço direito de Putin, despreza a existência da verdade objetiva.

A questão é que esse desprezo claramente leva à deterioração da democracia (e esse caminho não levou melhorias para nenhuma parte do mundo). Kakutani escreve: “As mentiras de Trump, seus esforços para redefinir a realidade, a violação de normas, regras e tradições, sua normalização do discurso de ódio, seus ataques à imprensa, ao judiciário, ao sistema eleitoral — tudo isso levou a Freedom House, uma ONG que fiscaliza a democracia, a advertir que o primeiro ano do governo Trump produziu ‘uma deterioração mais forte e mais rápida dos padrões democráticos norte-americanos do que em qualquer outro momento que se tenha registro'”.

As semelhanças com a eleição brasileira são gritantes (alguns desses fatores já apareciam em menor número no passado recente).

Já no epílogo, ela cita ainda um belo texto de Thomas Jefferson — um dos fundadores dos EUA, tão erroneamente citados por aqui — em que ele defende uma proposição fundamental da república, afirmando que “nosso objetivo primordial deveria ser deixar abertos todos os caminhos que levem à verdade. Até agora, o mais eficaz dos caminhos tem sido a liberdade de imprensa. Justamente por isso, é a primeira a ser calada por aqueles que temem a investigação de suas ações”.

Ele continua: “Por isso, tenho certeza de que abrir as portas da verdade e fortalecer o hábito de analisar tudo sob a luz da razão são as melhores algemas que podemos prender às mãos de nossos sucessores para evitar que eles algemem o povo com seu próprio consentimento”.

A Morte da Verdade é uma defesa apaixonada e racional de como a “verdade objetiva”, baseada em fatos históricos, científicos e sociais, é um pilar fundamental da democracia.

Atacá-los, atacar quem os defende e quem os divulga — como vem acontecendo com colegas jornalistas, como os repórteres Ricardo Galhardo, do Estadão, e Patricia Campos Mello, da Folha de S. Paulo — é uma posição autoritária.

Suas consequências, infelizmente, são bastante previsíveis.

A Morte da Verdade — Notas Sobre a Mentira na Era Trump

Autora: Michiko Kakutani

Tradutores: André Czarnobai e Marcela Duarte

Editora: Intrínseca (272 págs., R$ 39,90, R$ 24,90 o digital)

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