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Shakespeare, Mandela e Martin Luther King Jr. guiaram a trajetória de Barack Obama

Alguns trechos da entrevista que tratou das preferências literárias do presidente que, desde muito jovem, exercitou a escrita em contos e diários e planeja lançar suas memórias

THE NEW YORK TIMES

17 Janeiro 2017 | 04h00

Michiko Kakutani, a principal crítica literária do The New York Times, entrevistou Barack Obama na sexta-feira, 13, na Casa Branca. Eis alguns trechos da entrevista que tratou das preferências literárias do presidente que, desde muito jovem, exercitou a escrita em contos e diários e planeja lançar suas memórias.

Já desejou se tornar escritor?

Adorava ler quando era criança, em parte porque viajávamos muito e havia momentos em que me sentia deslocado. Um estranho. Quando me mudei pela primeira vez para a Indonésia, era aquele tipo de garoto alto, pele escura, que chamava a atenção. E, quando retornamos ao Havaí, tinha um comportamento e hábitos provavelmente de uma criança indonésia. Assim, a ideia de ter esses dois mundos que eram portáteis, que eram só meus e nos quais podia entrar me seduzia. Mas, adolescente, eu não lia muito além do que era exigido na escola, jogava basquete e cortejava as garotas, e absorvia coisas que não eram muito saudáveis. Depois redescobri a leitura e a escrita, e a reflexão no meu primeiro ou segundo ano de faculdade e foi uma maneira de me reformular interiormente.

Que tipo de contos escrevia?

É interessante quando eu os leio, muitos estavam relacionados a pessoas mais velhas. Acho que, em parte, é porque trabalhava em comunidades com pessoas que eram muito mais velhas do eu. Íamos às igrejas e, provavelmente, a idade média dessas pessoas era de 55, 60 anos. Muitas delas partiram do zero e lutaram muito para chegar a um nível de classe média. E estavam vendo as comunidades nas quais investiram suas esperanças e sonhos, e criaram seus filhos, começando um processo de decadência – siderúrgicas fechadas e muita mudança racial nessas comunidades. E prevalecia também uma sensação de perda e frustração. Não tem muito a ver com Jack Kerouac e o jovem que pegou a estrada em busca de descobertas. Era algo mais melancólico e reflexivo.

A escrita foi uma maneira de compreender sua identidade?

Sim, acho que sim. Para mim, escrever foi a maneira que achei para determinar muitos aspectos opostos em minha vida – raça, cursos, família. E acredito sinceramente que foi uma parte do caminho em que consegui reunir todas essas peças e me tornar um indivíduo relativamente completo.

Houve alguns livros que considera fundamentais para o senhor nestes oito anos?

Shakespeare continua a ser uma referência. Como muitos adolescentes, na escola secundária, quando tínhamos de ler A Tempestade ou algo semelhante, eu pensava: “Meu Deus, como é chato!”. Mais tarde, tive aulas maravilhosas sobre Shakespeare na faculdade, quando comecei a ler as tragédias e mergulhei nelas. Mas há ainda os escritos de Martin Luther King Jr., Nelson Mandela, Gandhi, Abraham Lincoln. E alguns livros ajudavam a imaginar o que se passa na vida das pessoas em todo o país, como os romances de Marilynne Robinson. O hábito noturno da leitura levou também a obras como The Underground Railway, de Colson Whitehead. Song of Solomon, de Toni Morrison, é um livro em que penso quando imagino as pessoas passando por privações. Não é só dor, mas também alegria e glória e mistério. 

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