Em ‘Cabeça’, rock dos Titãs dá contexto a um Brasil habilidoso em replicar seu projeto de passado

Em ‘Cabeça’, rock dos Titãs dá contexto a um Brasil habilidoso em replicar seu projeto de passado

Leandro Nunes

17 de dezembro de 2018 | 20h00

Quem nasceu no início dos anos 1990 pode achar que a música brasileira da época se alternava entre manter bambolês girando, ô miiila e ficar pelado em Santos.

Não havia crises senão a dos maus-tratos de vez de Cigana ou a dúvida do que fazer com a tal da liberdade. Pra quem nasceu nos anos 1990, a música que fazia sucesso nos programas dominicais não parecia apontar para um país violento, miserável e cheio de corruptos.

Então basta recuar apenas quatro anos para se aventurar na ressaca da uma ditadura militar que produziu as letras cáusticas de Cabeça Dinossauro, dos Titãs, e produções de outras bandas de rock da época.

Foto: Ricardo Brajterman

Quem oferece uma perspectiva apurada é o espetáculo Cabeça (um documentário cênico), do Complexo Duplo, coletivo do Rio, que fez apenas – digo, APENAS – duas apresentações em São Paulo, neste fim de semana.

Um parêntesis: Em vez de considerar a capital como uma obrigatoriedade hegemônica por onde deve circular toda produção das artes cênicas e cultural do Brasil, só consigo pensar que o público daqui é quem perde alguns tipos de espetáculos concebidos em outras capitais só porque os projetos não nasceram para caber no viciado modelo de programação das principais instituições culturais que abrigam temporadas na cidade. Se sobra recurso, já que há sempre uma peça em cartaz em um teatro da cidade, parece faltar vontade dos programadores e curadores de diversificar a cena paulistana já tão saturada de sua própria produção local.

Bem, a fórmula de Cabeça não é novidade, mas o tema e o foco propostos ultrapassam o perfil de um espetáculo comum. Não cabe aqui definir a montagem como um musical ou uma peça de teatro. A montagem do Complexo Duplo busca redefinir uma maneira de olhar uma obra, no caso o disco Cabeça Dinossauro, e expressar uma identidade pessoal e nacional. Só por isso, multiplicam oportunidades de conexão com o público, independente se você nasceu nos anos 1990 ou mesmo antes da ditadura. A escolha do álbum como ponto de apoio permite às diferentes audiências fabular um tipo de Brasil mediado por fatos, memórias, depoimentos, temas, notícias, gráficos, imagens, vídeos, tudo atravessado pela música rebelde, de letras curtas e sem códigos criada pelos Titãs.

Em uma rede de relações, criada primeiro entre os artistas no palco, depois com a plateia, o espetáculo funciona mesmo como uma viagem, uma olhada sobre um período ainda tão turbulento no Brasil, com as Diretas, a posse de Tancredo Neves que nunca aconteceu, Sarney, o presidente-civil, o fim da ditadura militar, o plano Cruzado, a promulgação da Constituição, a vinda do televangelista Jimmy Swaggart ao Brasil. Do lado de fora com os governos de Reagan e Thatcher, a explosão da Challenger, a Argentina como campeã mundial, a Aids descoberta, e o fracasso dos planos econômicos para salvar a década perdida na América Latina.

São muitos pontos nesse mapa mental conduzido pelas guitarras, baixos e bateria no palco, que fala de nós, do outro e do mundo. Ainda há espaço para a primavera da propaganda e seus jingles no Brasil, a cena mais divertida do espetáculo, que brinca com o hábito de consumo, que transforma o consumidor no próprio produto.

Muita coisa mudou não é? Mas Cabeça avança em nos atualizar sobre a violência institucional e policial, a ascensão do projeto político das igrejas neopentecostais, que expressa a atual situação do Rio e do Brasil, também, abençoado pelo Jesus da goiabeira.

As experiências dos artistas do palco criam conexões nesse cenário que expõe a violência policial, as paixões da adolescência, o pesadelo do serviço militar e a solidão compartilhada com discos.

Falando no texto, a dramaturgia é esperta muitas vezes, ao estabelecer os temas que antecedem uma faixa, sem ser tão previsível como os títulos das músicas. Mas a cena que traz o trecho da peça de Brecht quer fazer o caminho contrário, cifrar um discurso que dispensa a elaboração do autor alemão. Por curto que seja, parece não pertencer ao conjunto.

Cabeça cumpre sua vocação de ser um documentário, como propõe no título. O que talvez falte seja certo acabamento estético e visual, desde os figurinos, luz, adereços, recursos multimídia, que ampliem as possibilidades de narrar tudo isso que foi dito.

Cabeça Dinossauro, do Complexo Duplo, é um alerta cheio de som para três décadas de um Brasil viciado em seu próprio passado.