RICARDO BRAJTERMAN
RICARDO BRAJTERMAN

Espetáculo documentário mergulha no álbum ‘Cabeça Dinossauro’, dos Titãs

Oito atores relembram formação do álbum de rock-veneno lançado há 30 anos

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2018 | 03h00

O silêncio repentino dos jovens delatava o desconforto durante uma festa de aniversário. Segundos antes, eles se divertiam ouvindo a sensação dos anos 1980, o álbum Cabeça Dinossauro, até que um dos parentes tomou a liberdade e interrompeu a música Aa Uu, por não achá-la de bom tom. 

Essas e outras memórias são compartilhadas no espetáculo Cabeça (Um Documentário Cênico) que estreia no Itaú Cultural neste sábado, 15, tendo em perspectiva o icônico álbum da banda Titãs, festejado em 2016 pelos 30 anos de lançamento. É a primeira vez que o espetáculo do coletivo Complexo Duplo passa por São Paulo, em apenas duas apresentações.

Composto por oito atores-músicos – como na formação original da banda paulista –, o espetáculo do grupo carioca parte das treze letras cruas e contestatórias do álbum para traçar um ambicioso olhar que permeia esse Brasil de três década, conta o autor e diretor Felipe Vidal. “O disco possui um caráter que atingiu toda aquela geração recém-saída da ditadura. A começar pelos nomes da canções, que debatiam de maneira muito direta temas, as instituições e os costumes do País. Seu potente viés político nos interessou pelas memórias.” 

A instabilidade no fim de regime militar ainda se arrastava desde a morte de Tancredo Neves, que levou, em 1985, o então vice José Sarney ao poder. Um esboço de Da Vinci intitulado Expressão de Um Homem Urrando foi escolhido como capa do disco, um retrato do Brasil. “O álbum carrega uma energia de contestação, de crítica aberta tanto nas letras quanto na rebeldia proposta pelo rock”, afirma Vidal.

No palco, a montagem segue a ordem das músicas como no vinil e se divide em dois atos: Lado A (Cabeça Dinossauro, Aa Uu, Igreja, Polícia, Estado Violência, A Face do Destruidor, Porrada, Tô Cansado) e Lado B (Bichos Escrotos, Família, Homem Primata, Dívidas, O Quê). Ao invés de improvisar, o grupo buscou ser fiel ao arranjo original dos Titãs. “Além da letra, a musicalidade é responsável por despertar nossas memórias e já criar um laço afetivo com a plateia.”

Cabeça é a segunda empreitada da trilogia Paramusical, quando estreou, em 2015, o espetáculo Contra o Vento, inspirado na musicalidade exuberante e libertária da Tropicália e dividida em três atos: Sinal Fechado, Três da Madrugada e Panis et Circenses. 

A partir de um universo musical tão rico e recente na memória nacional, Cabeça já fez cinco temporadas no Rio e viajou pelas principais capitais, como Curitiba, Porto Alegre, Salvador, Fortaleza e Belo Horizonte. O que é de se estranhar, por ainda não ter desembarcado em São Paulo, ao menos para uma temporada na terra dos Titãs (lembrando que são apenas duas apresentações no Itaú Cultural). “Em todas as viagens, percebemos que o trabalho se conecta com quem também viveu esse Brasil, de quem estava lá”, conta Vidal. “Muitas pessoas nos procuram para compartilhar histórias que se misturam às canções. De todo modo, o álbum funciona como um interlocutor de toda essa memória nacional e coletiva.”

‘Tem que ter ambulância do lado de fora’

No Rio, espetáculo foi aplaudido pelo baterista Charles Gavin, que subiu ao palco para tocar com os atores

“O espetáculo é perigoso para o coração, avisa o Branco Mello”, brinca o baterista dos Titãs Charles Gavin após assistir a Cabeça (Um Documentário Cênico), em um vídeo divulgado pelo grupo Complexo Duplo. 

No vídeo, ele também cita uma das cenas que narra a vinda do televangelista Jimmy Swaggart ao Rio, em 1987, onde lotou o estádio do Maracanã com mais de 100 mil pessoas. É como funciona a estrutura do espetáculo, conta o autor e diretor Felipe Vidal. “Cada faixa envolve uma história pessoal, uma memória em diálogo com aquele momento.” 

Nos 30 anos que Cabeça Dinossauro completou em 2016, sobram histórias para se relacionarem às faixas como Estado Violência, Família e a famosa Polícia. “O Brasil ainda segue nos projetos de poder das igrejas neopentecostais, além da violência praticada pelo Estado e polícia. É uma sensação amarga que avança e involui, como eles cantam em Homem Primata.” 

Cercado pelos atores, no vídeo, Gavin desabafa: “É assustador como tudo permanece.”

CABEÇA. Itaú Cultural. Av. Paulista, 149. Tel.: 2168-1776. Sáb., (15/12), 20h. Dom., (16/12), 19h. Grátis

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