A fúria volátil de ‘Leite Derramado’

A fúria volátil de ‘Leite Derramado’

Leandro Nunes

15 de novembro de 2016 | 16h36

Talvez a mais difícil tarefa do teatro contemporâneo seja a de não se apresentar como uma plataforma desejada de realidades pré-moldadas. Tampouco a de armadilha expositiva de um real falsamente coletivo, ou ainda, da concepção de um imaginário coxo de singularidades. Isso porque o presente que o palco tenta apreender tem, anterior a sim, uma casca dura de antecedentes, sejam históricos, culturais, políticos, sociais e estéticos. Assim, as contradições precisam penetrar e é nessa combinação invulgar que a vida se prolifera.

Por assim dizer, Leite Derramado, do encenador Roberto Alvim, vai em busca de uma brecha para que o presente que cabe ao teatro ultrapasse e sobreviva. A obra de Chico Buarque é um desafio dado o desmantelamento do tempo histórico e da fundição da memória nacional no corpo de um só homem.

Jardim de espécies – FOTO: EDSON KUMASAKA/DIVULGAÇÃO

O que torna a narrativa original e interessante se configura na direção de Alvim para a adaptação. Eulálio está em descontrole visível. Sua insustentável realeza o abandonou no hospital. O legado histórico que pesa sobra suas costas não é não espúrio quanto a identidade do Brasil. Aliás, os elementos trazidos na encenação surgem como sustos do que somos. O encenador transporta os tempos com a brutalidade natural dos trópicos. O que temos é uma espiral fantasmagórica. Tudo é mito fabricado para encobrir o rosto de quem domina os dominados.

Em um campo apinhado de símbolos, a ironia está menos no texto falado que nos elementos visuais e sonoros. O País deixado às moscas não significa um país infértil. Seus insetos são abundantemente fecundos. Pequenas prisões do presente que roubam do passado a chance de não sermos eternos. São eles que velam por Eulálio. Eles e a assombrosa enfermeira/índia, que em uma aparição curtida de vermelho chapado se aglutina em sonho e pesadelo.

Delírio de Juliana Galdino – EDSON KUMASAKA/DIVULGAÇÃO

Quem dera o cuidado com o visual prosseguisse de maneira igual em todo o figurino. Inclusive, a apresentação das peças carece cuidado e esmero, já que alguns tecidos se amarrotam facilmente. Fica evidente que o elenco troca de roupa às pressas em prejuízo de alguns quadros almejados como o do personagem francês e da enfermeira. Nesse sentido, é preciso compreender que a substância deve prevalecer a textura, que se completa na iluminação.

Por outro lado, a figura de Xangô é aguda na força buscada. Suas vestes remontam o culto egun que louva os ancestrais masculinos. Não é pouco. O princípio de incorporação de Eulálio é capaz de fatiar, tal qual na iluminação de Domingos Quintiliano, a atriz Juliana Galdino em uma entidade maior. Ela ordena um campo de vibração –  que tem como epicentro a voz – que espraia para o corpo morto do velho homem passando pelo palco e atingindo a plateia. Uma pena que esse terremoto é quase incapaz de sacudir grande parte do elenco, que só se servem de execuções em movimentos frouxos, exceto José Renato Forner.

Xangô e seu culto – FOTO: EDSON KUMASAKA/DIVULGAÇÃO

Ainda é preciso considerar que Alvim conquista um raro estado de imanência do palco. Mas conquistar não significa dominar. E isso é muito bom. Falar do Brasil para o Brasil exige uma bagagem de interrogações e dúvidas honestas. O desvelamento da política nesse 2016 deveria nublar mais que acalmar. Se o teatro se fizesse de colagens automáticas, seria preciso reconsiderar não a arte, mas o artista. Leite Derramado intenta em uma estética que reinventa o próprio opróbrio. Uma armadilha que morde e assopra.

Por fim, no espetáculo cabem todas as fraquezas e as potências de suas próprias fantasmagorias. Nas mãos de Alvim, Leite Derramado é puro espectro. Essência complexa de invocar porque não se trata de um teatro espetacular, mas do louvor e deleite na vulnerabilidade de um país que não existe.