Edson Kumasaka/Divulgação
Edson Kumasaka/Divulgação

Roberto Alvim dirige versão teatral de 'Leite Derramado', de Chico Buarque

Ao elaborar sua versão do romance, diretor sentiu-se fortemente influenciado pelos turbulentos acontecimentos no País

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

11 Outubro 2016 | 05h00

A entrada em cena da atriz Juliana Galdino provoca um forte impacto - cabelos grisalhos, feições rústicas e esbranquiçadas pela maquiagem, ela (em mais um grande desempenho) vive Eulálio, oligarca centenário que, à beira da morte, reflete sobre a própria existência, marcada pelo avô, um latifundiário escravagista, e pelo pai, senador corrupto. “Eulálio corporifica mais de 200 anos de história do Brasil, marcada por racismo e corrupção”, comenta Roberto Alvim, que adaptou e dirige a versão teatral de Leite Derramado, que estreia sexta-feira, 14, no Sesc Consolação. “Enquanto agoniza no hospital, ele se descobre vítima da própria trajetória, criada, ao longo de anos, por sua própria classe social.”

Trata-se da primeira adaptação para o palco de um romance de Chico Buarque de Holanda. Publicado em 2009, Leite Derramado reproduz o monólogo de um homem muito velho, que está no leito de um hospital. Dirigida à filha e às enfermeiras, a fala desarticulada do ancião cria dúvidas e suspenses e é por meio desse labirinto que Alvim retrabalhou o texto original, transformando-o em um espetáculo para 8 atores, além de música original criada pelo filósofo Vladimir Safatle.

“O livro traz uma leitura do inconsciente do nosso País”, argumenta Alvim, que trabalhou em oito versões até atingir o formato que considerou ideal. “A mais recente é uma adaptação cênica dessa inconsciência, o que me permitiu chegar às forças subterrâneas que constroem o Brasil. Cheguei a uma versão sintética, uma espécie de haicai do romance.”

O encenador conta que recebeu carta branca do romancista para explorar os simbolismos do livro. “Em nossas conversas, mostrei a Chico certas camadas do texto que nem ele tinha percebido”, observa Alvim que, depois de uma troca de telefonemas, conseguiu o consentimento do autor para transpor a obra para o teatro. No primeiro encontro, ele levou um esboço com 18 páginas que continha seu projeto de adaptação. Segundo ele, Chico gostou da forma com que pretendia retrabalhar o ethos nacional de uma forma diferente do que fizeram outros. “Mostrei a ele que pretendia trabalhar o nosso tempo a partir do delírio do velho Eulálio.”

Chico Buarque, que pretende assistir à estreia de Leite Derramado na sexta-feira, 14, não participou diretamente da transposição da obra para o teatro. Tampouco auxiliou na trilha sonora original, mas liberou o uso de alguns de seus clássicos, como Deus lhe Pague. “Trocamos muitas ideias ao longo do processo, que começou no ano passado”, conta o diretor Roberto Alvim que, ao trabalhar em sua versão, sentiu-se irremediavelmente influenciado pelos acontecimentos turbulentos que vêm marcando a sociedade brasileira nos últimos anos. “A reinvenção do País em várias direções tornou a peça uma ferramenta capaz de catapultar diferentes formas de se pensar a nação”, afirma. “Como o personagem Eulálio, cujos delírios fazem confundir o consciente com o inconsciente, também o Brasil passa por um momento de destruição e reconstrução.”

Firme em suas convicções, Alvim pretende, com a montagem, escancarar sombras. “É preciso mostrar que o Brasil não existe – o que existe são os brasileiros”, argumenta. E é esse país em constante modificação que se vê simbolicamente na figura de Eulálio, cujas nuances, tanto de um homem acostumado a mandar como a de um velho agora totalmente dependente dos outros, são perceptíveis no trabalho de interpretação de Juliana Galdino. Com a postura de um homem enfraquecido, mas que ainda busca sustentar a majestade, fumando freneticamente e com um tom de voz que exibe débeis vestígios de um passado glorioso, a atriz é um dos grandes trunfos da peça, promovendo com talento a fusão da figura de Eulálio e sua representação do Brasil atual.

Inicialmente, Alvim pretendia comandar um elenco de 14 atores e dez músicos, mas o constante refazer e enxugar do texto (uma versão chegou a ter 80 páginas) o levou a mudar a escala da produção.

O que sempre pontuou o projeto era a melodia especialmente composta para o espetáculo por Vladimir Safatle. Filósofo e encenador trabalharam juntos em 2014 na peça Caesar – Como Construir um Império, um estimulante debate sobre o jogo das palavras. Ali, Safatle não se limitou a criar apenas uma trilha incidental, mas canções que também antecipavam a ação dos personagens.

Em Leite Derramado, o compositor desejou trabalhar com a ideia de plasticidade temporal e de presença espectral. “A música partirá de uma concepção de tempo própria ao romance Leite Derramado e que, a meu ver, é uma expressão maior da temporalidade histórica brasileira”, contou Safatle ao Estado, no início deste ano.

“O romance explora a sobreposição e a contração de tempos, a multiplicidade de velocidades que ocorrem simultaneamente, isso a fim de mostrar a experiência de um tempo que nunca passa por completo, que parece sempre retornar, como se o passado estivesse sempre a assombrar os vivos. Neste sentido, o romance expõe este tempo de pedra que parece ser a marca do Brasil. Eu queria ser fiel a tal compreensão formal, fazendo da música um tecido de tempos em imbricação, de velocidades simultâneas. Um tecido no qual mortos e vivos convivem em uma espessura espectral”, continuou.

Em cena, além de Juliana Galdino, estão também Renato Forner, Diego Machado, Taynã Marquezone, Caio D’Aguilar, Marcel Gritten, Luis Fernando Pasquarelli e Nathalia Manocchio. Juntos, eles buscam, no entender de Alvim, “a imperiosa tarefa de presentificar em nossa brutal contemporaneidade a exata, impossível e transfiguradora encenação [ENCENAÇÃO]da poesia”.

LEITE DERRAMADO

Teatro Anchieta. Sesc Consolação. R. Dr. Vila Nova, 245, tel. 3234-3000. 5ª a sáb., 21h; dom., 18h. R$ 12/ R$ 40. Até 13/11. 

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