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Na corda bamba e sem apoio financeiro, editoras independentes já sofrem com atrasos e inadimplência

Pesquisa da Liga Brasileira de Editores mostra que 80% das editoras independentes estão recebendo seus pagamentos com atraso

Maria Fernanda Rodrigues

29 de abril de 2020 | 14h55

Para entender o impacto financeiro da pandemia do coronavírus no mercado editorial e identificar os caminhos que as editoras independentes estão buscando para superar a crise, a Liga Brasileira de Editoras fez uma pesquisa que revelou que 80,3% das editoras, associadas à entidade ou não, estão sendo pagas com atraso e que 20% delas disseram que mais de 50% de sua receita já sofre com a inadimplência do setor. 

Coordenada por Whaner Endo, publisher da W4, a pesquisa ouviu 75 editoras em abril. Apesar de não estarem recebendo como o esperado, 64% delas disseram que mantiveram os seus pagamentos a fornecedores em dia enquanto 16% afirmaram que vão precisar atrasá-los pelo período de 30 a 90 dias. A grande maioria, 98%, já alterou a previsão de faturamento para 2020 e 78% prevê queda anual de mais de 25%. Além disso, 81,4% das editoras ainda não buscaram linhas de crédito adicionais para combater as consequências da pandemia. A complexidade do processo foi um dos motivos apontados.

crise livrarias

Livraria Cultura está em recuperação judicial (Foto: Hévio Romero/Estadão)

Na área editorial, o impacto se reflete no adiamento de parte ou de todos os lançamentos programados para este ano – algo feito por 88% das editoras ouvidas. 34,7% delas adiaram os lançamentos em mais de seis meses ou não têm previsão para os lançamentos programados anteriormente. Outros dois dados interessantes: 37,4% das editoras decidiram antecipar o lançamento de títulos no formato digital e 39% passaram a incluir edições em e-books que não eram planejadas.

O momento é delicado, reconhece Tomaz Adour, presidente da Libre. Ele explica que além da livraria, outro importante canal de venda de livros para as editoras independentes é a compra governamental, que não deve ocorrer este ano por causa das eleições municipais e porque, no caso do governo federal, elas serão adiadas.

“E as livrarias, principalmente as grandes, disseram que não vão pagar ou pediram prazo de 60, 90 ou 120 dias. As editoras independentes que têm parte do seu estoque nessas livrarias não vão receber nada, não têm outras fontes de receitas imediatas e estão numa situação muito complicada para continuar editando”, explica Adour. “Algumas vão se segurar, de pernas bambas até o final do ano, e outras, que já têm um endividamento alto, vão ficar mais endividadas”, prevê. 

É hora, ele diz, de apoiar cada vez mais as livrarias pequenas e as de nicho, que são boas pagadoras, têm seu público-alvo mais cativo e querem manter uma relação boa com as editoras. São elas que devem sair fortalecidas da crise, enquanto as maiores seguirão com suas dificuldades (também porque agora o foco dos gastos das famílias está em moradia, alimentação e saúde). Dificuldades ainda maiores para a Cultura e Saraiva, que estão em recuperação judicial. Outra novidade da semana neste imbróglio, aliás, é que a justiça ordenou na segunda, 27, que a Saraiva devolvesse os livros que consignou de 21 editoras, entre as quais Moderna, Companhia das Letras, Sextante, Planeta, Melhoramentos, Ediouro e Globo, num total de um milhão de exemplares.

Adour tem esperança e acredita que as editoras independentes também sairão fortalecidas lá na frente, mas é preciso, neste momento, de apoio. “Para as editoras sobreviverem, elas vão precisar continuar investindo. Muitas delas se voltaram para o digital, fazendo seus e-books, para tentar aumentar sua receita. Mas isso também exige investimento e recursos”. De acordo com Adour, editoras estão tendo dificuldades em conseguir financiamento por causa, por exemplo, da impossibilidade de ter como garantia a movimentação, que no caso delas é baixa. “Se não houver verba de governo, muitas editoras vão fechar, ou as pessoas vão precisar procurar emprego e fazer outras coisas para gerar renda para segurar a editora até a crise passar”, comentou. 

Na quinta, 23, o senador Jean Paul Prates (PT/RN), presidente da Frente Parlamentar Mista em Defesa do Livro, da Leitura e da Biblioteca, apresentou um projeto de lei que pretende ajudar o mercado editorial a enfrentar a pandemia do coronavírus. Um dos pedidos tem a ver, justamente, com essas linhas de crédito para os pequenos e médios livreiros e escritores.

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