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Região especial da China, Macau sedia evento literário em busca de maior internacionalização

- Atualizado: 19 Março 2016 | 05h 02

Rota das Letras chega ao quinto ano e quer expandir suas próprias fronteiras; 'Estado' acompanhou dois dias do evento

MACAU (CHINA) - Num lugar destacado entre as ruas estreitas do centro de Macau – a região especial da China que durante 4 séculos foi colônia portuguesa –, a Livraria Portuguesa sobrevive e pode ser usada como um microcosmo para começar a entender o local. A livraria, propriedade do governo português, é administrada pelo jornalista Ricardo Pinto, de 53 anos, também ele criador do Rota das Letras (The Script Road), o festival literário de Macau, que encerrou neste sábado, 19, sua quinta edição.

Com 40 autores de várias nacionalidades participando de painéis, mesas de discussão, eventos em escolas e universidades, leituras de poesias e apresentações artísticas, o festival se dá a árdua missão de colaborar na integração entre as comunidades chinesa e portuguesa do local – fenômeno que, anacronicamente, tem se reforçado nos últimos anos. O Estado acompanhou dois dias do evento em Macau.

Em Macau. Livraria portuguesa é um microcosmo do país, autônomo até 2049
Em Macau. Livraria portuguesa é um microcosmo do país, autônomo até 2049
“A ideia nunca foi ser um festival para a língua portuguesa, mas um festival para Macau”, diz o cocriador, em um dos muitos cafés que se espalham pela cidade. “O impacto maior, porventura, será aquele que decorre das visitas às escolas e universidades de Macau, porque são acompanhados por milhares de alunos todos os anos. Não apenas torna as pessoas mais atentas à necessidade de lerem, terem maior conhecimento, mas sobretudo a problemas atuais.”

Em Macau, o português ainda é língua oficial, pelo menos até 2049, quando se encerra um período de transição que começou em 1999 e o controle do país volta à China. Hoje, a localidade é uma região administrativa especial, como Hong Kong, e tem um governo próprio, autônomo. Em 2002, com a regularização dos jogos, houve um boom econômico, e a comunidade lusófona voltou a crescer e se “recuperou” do êxodo que a desvinculação do governo português havia causado no fim do século 20. 

Como as leis e a doutrina jurídica são as mesmas de Portugal, mas localizadas, o mercado editorial jurídico em português ganha destaque no estoque da Livraria. Volumes destinados para o ensino do idioma luso também ocupam as prateleiras (“há mais gente a aprender português hoje, o que tem a ver com o crescimento da relação da China com os países lusófonos, e Macau tem sido utilizado como um centro de língua, embora possa ser mais”, diz Ricardo). Livros em inglês também são encontrados sobre as questões da região – porque é “difícil” encontrar quem saiba chinês e português ao mesmo tempo. Estima-se que 3% da população local domine a língua de Camões.

Festival Literário de Macau (China) chega à quinta edição em 2016
Eduardo Martins/The Script Road/Divulgação
Festival Literário de Macau

Hélder Beja, Ricardo Pinto e Yao Feng, os três diretores do Festival Literário de Macau, na abertura do evento, no dia 5 de março

E há a literatura, claro, consumida pelo que Ricardo chama de um núcleo duro da comunidade portuguesa, “fidelíssimos”. 

Com o objetivo de espalhar o gosto pelo livro e pela leitura e inspirados em eventos de outros países, inclusive a brasileira Flip, ele e Hélder Beja, de 31, também jornalista português residente em Macau, criaram o agora maior evento do país dedicado às letras, preocupados em compatibilizar as diferenças de idioma.

Uma das realizações do Rota das Letras é a publicação anual, em português, inglês e chinês, de um volume de textos (poesias, contos, ensaios e crônicas) produzidos pelos autores convidados. O livro é editado pela Praia Grande, uma das editoras privadas e comerciais do local, que também faz rodar o jornal Ponto Final (em português).

“Nossa esperança é que desses encontros em Macau resultem projetos em comum”, diz Ricardo. “Já aconteceu. Temos convidados editores e tradutores, organizadores de outros eventos.” Ao olhar para o futuro, o festival está otimista com uma maior internacionalização. “Temos convidados a visitar eventos semelhantes que se realizam na região. Nomeadamente, o Ondjaki, autor angolano e nosso convidado, esteve no festival literário de Pequim no ano passado. A ideia é que este festival de Macau possa ter pequenas extensões em outros espaços, não apenas aqui na região, mas eventualmente em países lusófonos”, prospecta, já para o próximo ano. 

+ LEIA MAIS: No festival literário de Macau, autores brasileiros discutiram a situação política do País

Entrevista: Andrea Del Fuego, escritora

A escritora brasileira Andrea Del Fuego visitou Macau em 2014, na terceira edição do Rota das Letras – e a experiência lhe serviu para a escritura de seu próximo romance, já concluído e ainda sem previsão de lançamento. Ela respondeu a algumas questões.

Fale um pouco sobre o enredo do novo livro.

Acabei de dar as últimas linhas ao livro, há um título provisório e não tenho ainda previsão de lançamento. O livro se passa em São Paulo e em Macau. Trata-se de um brasileiro, filho de pai chileno, que se envolve com o universo do Kung Fu e, por consequência, com a comunidade chinesa, conhece um mestre nascido em Macau e acaba indo com ele para a China. 

Por que Macau?

Macau foi determinante porque o mestre seria mesmo de lá desde o momento da ideia inicial, mas, quando veio o convite para o Rota das Letras, eu teria a oportunidade de conhecer a cidade, o que foi definitivo para uma descrição mais segura sobre a região. Respirar a umidade asiática foi determinante. / G.S.

*O repórter viajou a convite do Festival Rota das Letras

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