Fox Film
Fox Film

Ira e vingança movem 'Três Anúncios para Um Crime'

Cineasta e dramaturgo Martin McDonagh fala sobre seu novo filme, um dos principais indicados ao Oscar

Entrevista com

Martin McDonagh

Michael O'Sullivan, The Washington Post

14 Fevereiro 2018 | 06h00

Martin McDonagh é conhecido por trabalhos no palco e no cinema em que predomina a carnificina. Em seus filmes Sete Psicopatas e um Shih Tzu, Na Mira do Chefe, e até mesmo em seu curta premiado com o Oscar, Six Shooter, o sangue jorra livremente, como também nas peças algumas já premiadas com o Tony. Sua obra não só é divertida, mas também macabra.

+ GOSTEI: 'Três Anúncios para Um Crime' mostra uma América profunda, com violência e humor

+ 'Três Anúncios Para Um Crime' é o grande vencedor do prêmio SAG

Seu filme mais recente, Três Anúncios para Um Crime, que estreia no Brasil nesta quinta, 15, não é exceção, sinistramente cômico e com o desempenho genial de Frances McDormand no papel de uma mãe inconformada e rude. O filme valeu uma indicação para o Oscar de atriz para Frances. Mas o trabalho de Martin é mais substancial do que seus filmes anteriores.

+ NÃO GOSTEI: Soluções absurdas de 'Três Anúncios para Um Crime' fazem filme desandar

O filme tem por foco Mildred, interpretada por McDormand, uma mulher cuja filha foi brutalmente assassinada, e o título foi baseado numa série de cartazes que Mildred expõe para cobrar o delegado de polícia local (Woody Harrelson), que, meses depois do crime, não avançou em nada no caso. “Estuprada quando morria”, é o primeiro, escrito em letras gigantescas brancas e vermelhas, seguido por “E ainda, nada?” e “Como é que é, delegado Willoughby?”.

+ Críticos do 'Estado' avaliam indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro

O diretor irlandês radicado em Londres, de 47 anos, que, como seu irmão mais velho, o cineasta John Michael McDonagh (O Guarda) deixou a escola aos 16 anos para seguir a carreira de roteirista, conversou ao telefone sobre seu novo filme.

+ ESPECIAL: Os 83 melhores filmes da história do Oscar

Seu novo filme é uma resposta aos críticos que se insurgiram contra a violência nos seus filmes ou os descartaram como entretenimento sem valor?

Acho que todos os filmes envolvem essa batalha, essa dualidade. Minhas peças também. Existe sempre um pouco de violência em todos eles. Ao mesmo tempo, eu penso, há sempre um desejo de humanidade em todas as peças e filmes. Em Três Anúncios para Um Crime, o clima de dor e tristeza em que ele começa tinha de envolver humanidade, esperança. Estava fora de questão fazer um filme de violência, ou melhor, violência cinematográfica. Tinha de ser algo melhor do que isso.

Teve a ideia para o filme depois de ver cartazes como os que aparecem no filme quando viajava pelos EUA, há alguns anos. Na época, disse que, quando decidiu que o personagem seria uma mãe, a história praticamente surgiu sozinha. Verdade?

Exatamente. Quando eu me sentei para escrever, a voz de Frances McDormand e sua personalidade vieram à minha cabeça desde o início. Acho que não existe outra atriz tão boa, com tanta integridade - dentro e fora da tela - e sabia que ela não seria condescendente ou sentimental no caso de uma mãe proletária nessa situação. É uma das grandes forças do filme. Não nos preocupamos em tornar Mildred uma mãe mais maternal ou como são esses estereótipos habituais de Hollywood 

Em que ponto está Mildred, do ponto de vista emocional, quando o filme começa?

Desde o início ela está num caminho sem volta. Ou morre ou resolve o caso. Não há concessões. O dano colateral emocional é algo sobre o qual discutimos. Mesmo o seu filho sofre. Ela está em guerra. Por mais horrível e trágico que possa ser, os inocentes vão sofrer nessa guerra. Uma das coisas que gosto em Mildred é que ela não é uma heroína perfeita. Por outro lado, alguns dos seus inimigos não são maus também. No final, o sentimento de compaixão de todos transparece e pode ser visto.

O filme tem muito a ver com assumir posições e tomar partido: brancos contra negros, marido contra mulher, pais contra filhos, policial contra cidadão, o homem clamando contra Deus. O personagem de Sam Rockwell, um policial racista e violento, acaba mostrando dois lados distintos, o herói e o vilão. Você gostaria de falar sobre esse aspecto mais latente do filme e como a questão se insere no contexto atual de guerras culturais?

Não é latente. Está bem à vista. Uma das primeiras ideias foi mostrar o que ocorre quando duas pessoas entram em guerra. Ambas estão no seu direito? A personagem de Frances está certa, mas o personagem de Woody (Harrelson, o xerife) também está. É um crime insolúvel. O que ocorre quando a guerra se intensifica entre dois lados que são muito honestos, que é o acontece em muitos casos? Certamente, este país está bastante polarizado atualmente, mas é ridículo achar que há cinco ou dez anos as coisas eram mais amistosas. O roteiro do filme foi escrito há oito anos, portanto não é um comentário sobre a América de Trump. O filme tem situações ambíguas. Por mais que tentemos ser verdadeiros com relação à ira e a dor de Mildred, no final o filme tem mais a ver com um recuo disso tudo, para mostrar que pessoas são pessoas, mas não de uma maneira cegamente idealista. Não é tão simples.

No início a história vai na direção de um crime misterioso, mas depois há uma reviravolta.

Como escritor, sabia que o crime nunca foi solucionado. Mas a questão importante é: como você lida com a perda? Como enfrentar a vida quando ela é extremamente injusta? Isso era mais importante para mim do que o crime.

Você já disse que este seria o seu filme mais raivoso. Tem fascinação particular pela cólera? 

Acho que sim. Mas fazendo uma retrospectiva, quando realizei o filme não pensei absolutamente nisso. Ele talvez comece da maneira mais enfurecida possível, mas não termina assim. Talvez eu tenha crescido um pouco, e acho ótimo que não seja simplesmente um filme em que o ódio prevalece. É interessante explorar esse aspecto porque de hábito sou muito furioso, artisticamente falando, não como pessoa. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.