‘Tudo o que faço é afetado pelo sofrimento de meu país’, diz pianista anti-Maduro

‘Tudo o que faço é afetado pelo sofrimento de meu país’, diz pianista anti-Maduro

Sonia Racy

14 Abril 2018 | 00h55

GABRIELA MONTERO

GABRIELA MONTERO. FOTO: EDUARDO TARDIN/OSESP

Concertista consagrada, habituada aos aplausos em salas de Viena, Nova York, Londres ou Salzburgo, a pianista venezuelana Gabriela Montero – que chegou na quinta-feira a SP e faz hoje sua última apresentação na Osesp – divide sua vida, na última década, entre a música e uma persistente militância política contra o chavismo, contra Nicolas Maduro e seu governo. “Tudo o que tenho feito, nos últimos nove anos, como performer, compositora e ser humano, foi afetado pelo enorme sofrimento de meu país. A cada dia isso me corta o coração”, disse ela à coluna.

Por segurança, Gabriela, hoje com 47 anos, teve de abandonar Caracas, em 2010, e instalou-se em Barcelona. “Foi o preço que tive de pagar. Mas, para mim, o silêncio nunca foi uma opção.” Mudar seu país, admite, “não será tarefa fácil”. A seguir, trechos da entrevista da venezuelana — que, entre outras coisas, foi a convidada oficial a tocar na posse de Barack Obama, em 2009.

Como você consegue conciliar a agenda de artista, os ensaios, com a militância política?
Não é fácil. Tenho passado um enorme tempo respondendo a mensagens de gente que me pede ajuda, providenciando remédios para quem precisa, falando a jornalistas, usando meus contatos nas redes para conscientizar os outros e ajudando nas campanhas humanitárias. E então me dou conta de que sou também artista e tenho de entrar num palco com esse peso nos ombros. Felizmente, tenho a música para exprimir o tsunami de sentimentos que carrego em mim e que percebo no contato com gente desesperada.

Qual o seu balanço dessa militância? A causa está avançando?
Hoje (ontem), acordei vendo um vídeo da presidente da (ONG) Ajuda Humanitária para Venezuela, Marisol Dieguez, em lágrimas, avisando que não tinha mais tempo ou recursos para mandar remédios para crianças e pessoas de todas as idades que estão morrendo a cada dia por falta de suprimentos. Como cônsul honorária da Anistia Internacional, meu papel é denunciar ao mundo a realidade vivida pela Venezuela. Preferia não ter de fazer isso, mas é preciso. Sei que sou uma “combatente da liberdade” visível, mas atrás de mim existem milhares de  pessoas como Marisol trabalhando todos os dias para ajudar os necessitados. Se vocês puderem, ajudem, porque estarão salvando vidas.

De que forma acha que seu país vai sair da crise? Tem esperança de que Maduro vá embora?
O modo mais claro de definir a Venezuela é dizer que não temos lá um governo, nem uma democracia. É um Estado narcomafioso, um cartel das drogas no poder. Não é fácil responder se Maduro vai ficar no poder ou não. Eles ficarão enquanto esse poder lhes garantir a impunidade. E não acredito que haja uma solução eleitoral viável. Não perco a esperança, mas temos de batalhar rumo a uma mudança – e não será uma mudança fácil.

Gustavo Dudamel é um regente famoso, que dirige um projeto educacional para jovens em parceria com o governo. Que acha dessa escolha?
Tenho escrito seguidamente sobre Dudamel. Tudo o que tenho feito é apontar o dedo contra suas ações e alianças com o governo Maduro. Depois de anos se beneficiando  do regime que levou o país ao colapso, entendo que o que ele disse recentemente foi muito pouco e muito tarde, são declarações vagas. A música é uma ferramenta maravilhosa  quando usada em benefício da humanidade e elevar nossa consciência como seres humanos, mas não quando usada como cortina de fumaça para proselitismo político. Suas turnês vendendo o chavismo permitiram ao regime uma década de popularidade mundial que não teria acontecido se o mundp não se encantasse com “El Sistema”. Foi a mais eficaz máquina de propaganda que o governo de Caracas poderia ter montado. /GABRIEL MANZANO

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