Evelson de Freitas/Estadão
Evelson de Freitas/Estadão
Imagem Cristina Padiglione
Colunista
Cristina Padiglione
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Zico Góes revela, em livro, bastidores da MTV

Ex-diretor de programação do canal conta histórias sobre artistas, audiência e 'uma era que não volta mais'

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

21 Fevereiro 2014 | 22h55

Foi no VMB de 2004, premiação do videoclipe que fez história na MTV Brasil, que Caetano Veloso presenteou o canal com um dos episódios mais emblemáticos de sua história. Durante um show seu com o escocês David Byrne, uma microfonia ensurdecedora levou a MTV a chamar dois breaks comerciais fora do script, até que se identificasse o problema: um músico da banda do baiano havia esquecido um microfone aberto atrás do palco. “Ele ficou irritadíssimo. Deu um chilique, xingou todo mundo. Batendo palmas, ele se virou para uma das câmeras e disse, a altos brados: ‘Pessoal da Emetevê, vergonha na cara! Vamos começar de novo! Bota essa p... pra funcionar!”.

O piti de Caetano batiza o livro que Zico Goes, ex-diretor de Programação do canal, lança agora pela Panda Books. O tributo não é pelo chilique, e sim pelo efeito que representa para a trajetória de 23 anos de uma TV apresentada como uma “não TV”, disposta a zombar de suas falhas, em vez de cortá-las na edição, de rir de si e de encerrar seus programas no auge. “Havia uma regra oculta: quando o programa realmente amadurece, e você já o faz com os pés nas costas, é porque está na hora de mudar”, ensina Zico.

Em 168 páginas, o autor narra saborosas cenas de bastidores, modos e temperamentos de VJs, fala sobre as drogas de Thunderbird e João Gordo, as exigências de diva de Fernanda Lima, as birras de Daniella Cicarelli, os chiliques de Toni Garrido no Rockgol, a obsessão de Penélope Nova com o corpo e assume a manipulação de votações.

“A MTV interferia na contagem dos votos do Disk MTV. As pessoas de fato ligavam para pedir o clipe, mas nós tentávamos ajustar a parada para que ela tivesse certa regularidade. Até tentamos ser 100% democráticos, mas não deu certo: o programa ficou irregular e a audiência caiu”. Zico também faz mea-culpa sobre o período em que o canal ficou adolescente demais, com febre de banda Restart.

Não que a audiência fosse assim toda tatuada como seus VJs. Longe disso. Na análise do diretor, seu público era muito mais conservador do que a equipe do canal imaginava. Se nos Estados Unidos o jovem logo é incentivado a morar fora, o oposto acontece aqui, numa espécie de superproteção que só acomoda as novas gerações, sem que elas tenham contra o que se revoltar, observa.

“Quando você faz as pesquisas, começa a se decepcionar: caramba, então a minha audiência não é tão moderninha quanto eu acho que sou e quanto eu achava que ela era!”, argumenta Zico em conversa com o Estado em uma mesa da Real, a lendária lanchonete frequentada por televisivos ao lado do edifício que serviu de sede para a Tupi e, depois, para a MTV Brasil.

“Isso é uma lição pra quem faz televisão. A gente superestimava a nossa audiência: achava que ela era incrível, antenada, enquanto nós é que éramos antenados. E aí a gente ficava surpreso, ‘puxa, nossa audiência é careta, o mesmo cara que gosta do João Gordo gosta do Luciano Huck...’”

Analisar o nascimento da MTV na era pré-internet e todas as tentativas do canal de não perder público para a nova plataforma também merece o olhar de quem trafegou nesse universo antes e depois da web. Quem hoje precisa de um canal de TV para encontrar as músicas que lhe interessa, se o YouTube oferece o que se quer, quando e como se quer?

Zico lembra ainda a relação do intervalo comercial com a audiência e um modelo até então inexistente no Brasil. A MTV foi, afinal, o primeiro canal segmentado do País, e vinha em sinal aberto. Era preciso vender uma relação com a audiência e algumas marcas perceberam isso. Em contrapartida, o intervalo ficou tão casado ao conteúdo do canal, que quando alguém lá pagou para anunciar a Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos, houve telespectador que chiou.

“No fundo, o que eu queria dizer é: a MTV foi única, foi uma comunidade, foi um encontro de pessoas e nunca mais vai acontecer”, completa. “É um livro muito pessoal, de memória seletiva, inclusive esqueci de falar de algumas coisas: não falei de 20 e Poucos Anos, uma das coisas mais importantes que a MTV já fez. Acho que as críticas virão muito mais pelo que deixei de falar do que pelo que contei.”

Trechos:

João Gordo

“Houve uma série de episódios polêmicos envolvendo João Gordo na MTV (...), mas nada se compara ao caso Dado Dolabella. (...) Quando o clima já estava pegando fogo, Dado (...) pegou a machadinha e Pá! – quebrou a mesa de vidro! O Gordo ficou p...: “Você quebrou a minha mesa, playboy?!”. Pegou o porrete e os dois ficaram se xingando cara a cara, um segurando a machadinha e o outro, o porrete. Os seguranças então entraram para separar a briga, (...) e o programa foi cancelado. (...) João Gordo teve uma série de piripaques relacionados à saúde. Quem o salvou foi sua mulher, Viviane Torrico, que se apaixonou por ele durante uma entrevista. Por causa dela, ele conseguiu largar o vício, operou o estômago, entrou na autoescola e aprendeu a nadar. Antes, não conseguia nem dormir deitado: seu peso soterrava os pulmões. Usava drogas pra ca...”

O primeiro beijo gay

“Nossos próprios patrocinadores pularam fora da edição gay do ‘Fica Comigo’ (em 2000). Até hoje, não tenho certeza se foram eles que se negaram a participar ou se foi o departamento comercial da MTV que não quis vender o programa. A edição gay teve de ser feita em outro dia e horário para ficar longe dos anunciantes. (...) Outra reação que me deixou decepcionado foi a do público. Quando anunciamos a edição gay, choveram e-mails de reclamação. Uma estudante de jornalismo da PUC escreveu: ‘Isso é uma doença, vocês têm de tomar cuidado’.”

Daniella Cicarelli

“Os atritos entre Daniella e a MTV começaram em 2004. Fazíamos um programa em que alguns VJs discutiam temas da atualidade. Daniella foi convidada, pintou o assunto do seu noivado com o Ronaldo, ela ficou p... com a abordagem do tema durante o programa e foi embora. A verdade era que o príncipe da Daniella já tinha se mostrado sapo: os dois tinham uma relação bastante conturbada. (...) Daniella não soube lidar com a invasão de privacidade (após ser flagrada por um paparazzo transando na praia com o namorado, Tato Malzoni)... Ela me ligou na véspera do VMB, pedindo para não tocarmos no assunto. Eu fiquei p...: ‘Se barrar as brincadeiras que já combinamos, você está fora da MTV’. Fizemos as piadinhas no VMB, mas o clima não foi muito bom. Havia uma clara tensão entre a Cicarelli e o Marcos Mion (...) Eles brigaram nos bastidores. Lembro-me de ela ter chutado a porta do camarim e gritado: ‘Seus chupins!’.”

Mais conteúdo sobre:
Televisão

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.