Alex Carvalho/Divulgação
Alex Carvalho/Divulgação

Yes, nós temos séries

Com TV paga aquecida pela lei e seu 1º Emmy em mãos, gênero ganha peso no país da telenovela

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

02 de dezembro de 2012 | 11h29

SÃO PAULO - Sócio e diretor do núcleo de TV da produtora Conspiração Filmes, Luiz Noronha passou os dois dias que antecediam o Emmy Internacional, em Nova York, ouvindo de especialistas que a brasileira A Mulher Invisível não tinha a menor chance de levar a estatueta de melhor série de comédia de TV, já que concorria com duas produções inglesas. Em anos anteriores, quando séries da O2 Filmes como Filhos do Carnaval e Som & Fúria também foram finalistas, Andréa Barata Ribeiro, sócia de Fernando Meirelles na produtora, brincava que ia a Nova York para disputar o "geme" - "A gente chega lá e geme, geme", diz, imitando o acento de "Emmy": "Os ingleses sempre levavam tudo".

Parceria da Globo com a Conspiração, Mulher Invisível derrotou não uma, mas duas produções britânicas: Absolutely Fabulous e Spy, além da belga What If. "O fato de o Brasil estar chegando lá todo ano, com os ingleses, que são muito bons, e de agora ter conquistado um Emmy, mostra um conta-gotas que pode vir a ser uma indústria", acredita Andréa. "Mas uma andorinha só não faz verão." Como testemunha de Cidade dos Homens, primeira manifestação de qualidade que se distinguia do engessado padrão Globo de teledramaturgia, dentro da Globo, a executiva sabe que houve largo avanço, mas há mais a fazer.

Parece cinema. No país da telenovela, a produção de séries deu outros contornos à indústria de TV. Se o autor é o dono da novela no canal aberto e o diretor tem o domínio do filme no cinema, aqui quem manda é o produtor. Ele dá as rédeas e, salvo raras exceções, pauta o roteirista. Hoje, apesar do volume de produção em crescimento, a maioria das produtoras trabalha sem roteiristas fixos. Prefere escolher o profissional que mais se ajusta a cada encomenda. A exceção é justamente a Conspiração, que tem 15 profissionais em casa e investe em criações coletivas, de olho no volume industrial.

"O padrão Globo é bom", reconhece Luiz Noronha, com concordância de Giuliano Cedroni, da Pródigo. "Não dá para falar do audiovisual que se criou no Brasil sem citar a Globo como referencial", completa Cedroni. E não há preconceito algum em dizer que tal série é tão boa que se parece com cinema.

É uma questão técnica, explica Noronha. Mulher Invisível, por exemplo, segue o estilo que os americanos chamam de "single camera". "Quando se tem uma câmera só, você faz a luz para aquele ângulo, desenha sombra, trabalha profundidade". É diferente da dramaturgia televisiva clássica, feita pelas grandes redes, onde a multicâmera domina. Ali, a urgência do negócio pede que várias câmeras funcionem ao mesmo tempo, com cenário todo iluminado, o que dá a sensação de algo mais "chapado", como acontece na novela convencional ou em seriados como Two And a Half Men.

Da Primo Filmes, Matias Mariani acredita que ainda é preciso fazer concessões ao tradicional gosto do público brasileiro, "não vale simplesmente jogar um produto mais contemporâneo e tentar impor isso ao espectador". Mas ficou surpreso com a boa aceitação da audiência à inovação de linguagem vista em Avenida Brasil, sinal de que até a Globo, no mais tradicional de seus produtos, tem encontrado aprovação para uma renovação de linguagem na teledramaturgia. "Foi um fenômeno, foi de uma ousadia estrondosa para um segmento tão conservador", reconhece.

Andréa, da O2, acrescenta que a chegada de muitos canais internacionais e a crescente oferta de séries vindas de fora para um público cada vez maior também foram acostumando o brasileiro a apreciar e a pedir outro cardápio. "O crescimento da TV a cabo vai mostrando que é possível produzir para nichos, e isso vai desenhando novos modelos, diferentes dos que se fazem para a televisão de massa", cita Cedroni.

O que demorou a ocorrer no Brasil, em relação a outros países, lembra Paulo Schmidt, da Academia de Filmes/Grupo Ink, foi a abertura de mercado a produtores independentes, feito que, todos concordam, só se deu em função do crescimento da TV paga e das leis de fomento para incentivar a produção nacional. Grupos internacionais como HBO, Fox, Discovery e Turner intensificaram suas produções no País a partir do artigo 39, em que o dinheiro antes destinado a impostos passou a ser direcionado a produções nacionais. "É quase uma punição", compara Andréa: se não gastar em produção, ele gasta em imposto.

A nova lei da TV paga, estabelecendo cotas de produções nacionais na faixa nobre, veio acelerar ainda mais esse movimento. Para Noronha, o aquecimento se consolidará de fato a partir de 2013, porque "muita gente ainda não acreditava que a lei fosse entrar em vigor ou ficou esperando para ver no que iria dar". "E não me parece que seja uma lei para inglês ver."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.