Divulgação
Divulgação

Walter Carvalho explora enquadramentos requintados e iluminação reveladora na TV

Diretor de fotografia é responsável por cenas marcantes das séries

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2016 | 04h00

Os espectadores mais atentos devem ter notado uma sutil, mas importante mudança que vem marcando a imagem das produções da Globo: foco mais próximo do rosto dos atores, que lhes permite expressar melhor seu talento; enquadramentos requintados; iluminação reveladora. Os detalhes marcam Nada Será Como Antes, exibida na emissora às terças-feiras e que trata do início da televisão no Brasil, nos anos 1950, e já era uma característica fundamental de Justiça, série curta, mas de grande alcance artístico.

Ambos trabalhos têm as mesmas assinaturas: José Luiz Villamarim na direção e Walter Carvalho na direção de fotografia e iluminação – na verdade, uma espécie de codireção, tamanha importância que a contribuição de um tem para o outro. O sucesso de tal parceria está no ar, com Nada Será Como Antes, em que decidiram substituir a ideia de representar uma época pela ideia de falar sobre ela. “Em vez de retratar um passado, a gente fala da memória. Convida o espectador a fazer uma viagem regressiva, onde ele possa – a partir das imagens que geramos, da concepção artística do Zé (Villamarim) e do texto – imaginar a nossa história”, comenta Carvalho, que desenvolveu com o diretor uma produtiva relação profissional. “Entre nós, há um complemento que deu certo.”

Um exemplo: a concepção que ambos têm de se contar uma história. “Existe uma dramaturgia que imita a vida, o que não é o nosso caso”, diz Carvalho. “Não nos interessa a realidade, mas o mundo real para refletir sobre a vida.” Isso se torna evidente nos trabalhos televisivos, mas essencialmente no primeiro encontro dos dois no cinema, no filme Redemoinho – lá, a narrativa visual não é televisiva.

O que impressiona no trabalho de Walter Carvalho é seu envolvimento com os projetos em que está ligado – para cada um, ele desenvolve uma tessitura para imagem, uma forma de contar a história por meio de sua câmera que inevitavelmente transforma aquele produto em algo particular.

No filme Heleno, por exemplo, dirigido José Henrique Fonseca, ele trabalhou com as cores a fim de retratar o saudosismo provocado pelos anos 1950. Já na minissérie Rebu, também dirigida por Villamarim, o desafio era narrar a história de uma festa ao longo de uma única madrugada. “Eram 11 personagens e tínhamos de apresentá-los como potenciais assassinos. Assim, tive de ‘dançar’ com eles até o último aparecer”, lembra Carvalho que, como o venerado diretor de fotografia Dib Lutfi, captou cenas íntimas e delicadas com a câmera no ombro, registrando momentos antológicos – como a cena em que acompanhou o ator Jesuíta Barbosa, em Justiça. “Procuro estabelecer um ponto de contato a fim de encontrar a transcendência”, explica. “Às vezes, consigo até sentir a respiração do ator.”

Para Nada Será Como Antes, os desafios foram mais sofisticados. Como a trama se passa durante a implementação da TV no Brasil, em 1950, Carvalho e Villamarim evitaram uma simples ambientação – a rusticidade técnica da televisão na época (era praticamente quadrada e com uso exagerado do zoom) é lembrada apenas nas cenas que mostram uma encenação das novelas produzidas pela fictícia TV Guanabara. Somente nesses momentos, a imagem é em preto e branco.

“O zoom era bastante utilizado nos anos 1950”, observa Carvalho. “Apesar de a televisão não se valer deste recurso naquele tempo, lançamos mão desse efeito. Fechando-o ou abrindo-o, conseguimos enfatizar a leitura de um objeto ou da emoção do ator. Há um certo preconceito sobre essa lente, mas a utilizamos propositalmente.”

Mais conteúdo sobre:
Televisão Walter Carvalho

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.