Vivinho da Silva

BUUU!: Como coadjuvantes ou até mesmo protagonistas, personagens do além dão sabor especial à ficção das mais variadas formas

Patrícia Villalba, de O Estado de S. Paulo

09 de maio de 2010 | 16h00

Longe de assustar quem quer que seja, os personagens fantasmas ultrapassaram de vez as barreiras do terror e se divertem em seriados e novelas dos mais variados naipes. Ao que parece, um personagem fantasma cai bem em todo tipo de produção, das mais fantasiosas até as de corte totalmente realista.

 

Sem concorrentes em sua categoria - a do "fantasma gatinho" -, o Daniel da novela das 6 da Globo, Escrito nas Estrelas faz as moças suspirarem mesmo tendo morrido logo no primeiro capítulo. A morte dele, surpreendentemente, foi bastante lamentada - "Ai, eu não gostei que o Daniel morreu logo no primeiro dia. Fiquei bem decepcionada", desabafou a leitora Iara no blog do TV.

 

Jayme Matarazzo, que interpreta Daniel, ouviu muitos comentários do tipo, ainda que estivesse bem claro que a morte do personagem era crucial para o argumento da novela. "Foi o comentário geral, todo mundo lamentava a morte dele, ainda mais ele sendo um jovem tão cheio de vida", observa o ator, em conversa pelo telefone com o Estado. "Mas acho que, aos poucos, as pessoas passaram a ver o personagem de outro jeito e prestar mais atenção no tipo de mensagem que ele passa. É uma mensagem de esperança, de que a vida não acaba quando a morte chega. É essa a minha intenção com esse personagem, pelo menos."

 

Com jeito de anjo e bem longe de parecer uma alma penada - como o inesquecível Alexandre (Guilherme Fontes) de A Viagem (1994) -, Daniel tem rendido bons índices de audiência à Globo no horário - média de 26 pontos no Ibope. Um passo e tanto na carreira de Jayminho, que após uma participação na minissérie Maysa, no ano passado, interpreta seu primeiro protagonista. "A composição do personagem foi difícil, algo que tive de procurar dentro de mim porque não tinha como ter referências externas", explica o ator. "Afinal, não conheço ninguém que já morreu e que possa me contar como é do lado de lá, né?"

 

Tendência. No clima do centenário de nascimento de Chico Xavier, comemorado no dia 2 de abril, e no embalo da impressionante bilheteria que a cinebiografia do médium vem alcançando no cinemas, além da boa audiência de Escrito nas Estrelas, pode-se arriscar dizer que há uma moda fantasma na ficção - e não é só no Brasil (veja na página seguinte).

 

 

O autor Tiago Santiago não esconde que pensou em atrair mais audiência para o remake de Uma Rosa Com Amor (SBT, 20h15) ao introduzir elementos sobrenaturais na trama - que não haviam no original escrito por Vicente Sesso, em 1972. A partir desta semana, Joãozinho (João Paulo Carvalho) descobre que consegue ver e ouvir os mortos. "Ele vê o Fantasma do Cortiço, que foi morto depois de enterrar as joias do Barão do Bexiga, que também vai aparecer na novela", detalha Tiago. "Joãozinho começa a procurar as joias, o que irrita os fantasmas, que passam a persegui-lo."

 

O autor diz ter ficado inspirado por histórias do além quando leu Histórias de Fantasmas, de Charles Dickens. "Quem gosta do gênero vai poder se divertir com esta parte da trama", aposta. "Fiz isso para atrair mais audiência de crianças e jovens, além de amar o suspense e os sustos desse tipo de história."

 

Espectro. Bem menos doce do que o Daniel de Escrito nas Estrelas - para não dizer ácido -, Jonas (Rogério Trindade) assombra o tenente Wilson (Murilo Benício) no seriado Força-Tarefa, que vai ao ar nas noites de terça-feira na Globo. Farda da polícia empoeirada e cigarro sempre aceso, Jonas cometeu suicídio com medo de ser apanhado, depois de ter tomado atitudes pouco honestas. Meteu-se uma bala na cabeça, e o buraco permanece ali, como marca registrada. Nos momentos mais difíceis, ele aparece para confrontar Wilson e, de certa forma, acaba atuando como a consciência do herói.

 

Foi o diretor do seriado, José Alvarenga Jr., que sugeriu a criação do personagem aos roteiristas Marçal Aquino e Fernando Bonassi. "Achamos maravilhosa a possibilidade de introduzir um elemento irreal numa obra que é evidentemente de corte realista", conta Marçal. "Daí porque, até agora, optamos por uma certa ambiguidade na hora de defini-lo. Alucinação ou consciência crítica exacerbada do nosso perturbado personagem central? O mistério é sempre mais saboroso."

 

Entre representar um espectro e a alucinação, o ator Rogério Trindade, que interpreta Jonas, prefere compor o personagem a partir da primeira opção. "Não tenho dúvida de que ele é mesmo um fantasma. Na verdade, a minha visão é de que ele é um anjo, que mostra como as coisas poderiam ficar pior", opina o ator. "Com aquele sarcasmo todo, ele acaba pondo o Wilson no caminho certo."

 

A ligação dos dois é especial - e, aí, uma grande sacada dos criadores da série - porque foi Jonas que levou Wilson para a polícia. E, hoje tenente da Corregedoria, a polícia que investiga crimes cometidos por policiais, é simbólico que justamente esse padrinho tenha morrido após se envolver em maracutaias. "Numa cena, o Wilson diz: ‘acho que não vou aguentar’. Jonas fala: ‘eu tenho a solução’, e aponta para o buraco de bala que tem na cabeça", diverte-se Rogério. "Desde o começo ele dá palpites até na vida sexual do Wilson. No primeiro episódio, por exemplo, no banheiro, manda ele abaixar a tampa da privada ‘porque as mulheres gostam disso’. Não é mesmo um fantasma qualquer."

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