Vinícius Coimbra e Manuela Dias reinventam ‘Ligações Perigosas’ com técnica de ponta

Nova minissérie da Globo transpõe o romance epistolar de Chordelos de Laclos para os anos 1920 com forte dramaturgia

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

02 Janeiro 2016 | 16h00

Luiz Fernando Carvalho tornou-se uma grife da Globo com suas minisséries e novelas. Fez também um filme aclamado – Lavoura Arcaica – e ganhou status de ‘autor’ numa mídia atrelada ao gosto do público, via medições do ibope. Vinícius Coimbra também está se colocando no mesmo patamar, mas, no caso dele, a atividade na televisão vem sendo mediada com a do cinema. Coimbra fez, há quatro anos, um filme que, apesar de vencedor do Festival do Rio, demorou todo este tempo para chegar ao circuito, mas valeu a espera. A Hora e a Vez de Augusto Matraga, que ele adaptou de Guimarães Rosa, foi um dos grandes filmes, não apenas brasileiros, do ano e João Miguel o indiscutível melhor ator, a menos que você ache que tenha sido o oscarizado Eddie Redmayne de A Teoria de Tudo.

Por conta do mercado, Matraga estreou junto com Floresta Que se Move, o Macbeth de Coimbra, que não chegou a obter muita repercussão de público e crítica, mas o problema não era dele. Poucas vezes se viu no cinema brasileiro uma representação tão acurada do mundo do poder e do dinheiro e, fossem o País e a crítica mais sérios – no velho sentido da formulação do General De Gaulle –, e a Lady Macbeth de Ana Paula Arósio teria sido incensada muito melhor do que foi. Dois filmes, dois grandes textos. Coimbra já explicou ao repórter que, tendo se formado em cinema, foi parar na TV já com o objetivo declarado de fazer filmes. Tem trilhado um caminho difícil, escolhendo textos fortes, e dramáticos, num momento em que o mercado celebra a comédia. O corpo a corpo de Vinícius Coimbra com grandes textos prossegue agora na Globo, na faixa das onze, com Ligações Perigosas.

Até aqui, boa parte do que se tem falado da minissérie em dez capítulos que começa na segunda-feira, 4, destaca o aspecto técnico. Ligações Perigosas foi gravada em 4K com um apuro raro, mesmo para os padrões globais. A minissérie também fez história porque a Globo, que criou o aplicativo Globo Play, no estilo Netflix, que transmite sua grade na internet, liberou o primeiro capítulo de Ligações Perigosas na rede, durante a semana, antecipando a exibição de amanhã. Tudo isso tem merecido destaque na mídia, mas é tempo de encarar o conteúdo, e voltar ao texto. Vinícius Coimbra adora esses desafios. Não é qualquer um que encara a prosódia de Guimarães Rosa e o verso sombrio de Shakespeare. Em ambas as aventuras, Coimbra teve a parceria da ex-mulher e eterna escritora, Manuela Dias. É ela que assina a transposição do romance epistolar de Choderlos de Laclos para os anos 1920.

Existem referências – o filme abre-se com a exibição do Nosferatu de Friedrich W. Murnau, de 1922, e cita o movimento modernista como um evento contemporâneo – que apontam para uma época e, talvez, lugar, mas, assim como Floresta ganhava uma cena detalhada para situar as maquinações de Macbeth e sua lady, Ligações superpõe a natureza dos personagens a um tempo preciso. O livro foi publicado em 1782, no começo da década que terminaria sangrenta, com a queda da Bastilha e a Revolução Francesa. Choderlos de Laclos era um general do Exército francês e o que ele fez foi criar personagens emblemáticos – o Visconte de Valmont e a Marquesa de Merteuil – que encaram o amor e o sexo como uma guerra, planejando movimentos de sedução como se fossem estratégias para um combate,

Em 1960, em plena ‘nouvelle vague’, Roger Vadim fez As Ligações Amorosas (título brasileiro), com Gérard Philippe e Jeanne Moreau. Quase 30 anos depois, em 1988, surgiram as versões de Stephen Frears (Ligações Perigosas) e Milos Forman (Valmont), a primeira com John Malkovich e Glenn Close e a segunda com Colin Firth e Annette Benning. Em 1999, o roteirista Roger Kumble, estreando na direção, fez o Ligações Perigosas teen – Segundas Intenções, com Ryan Philippe e Sarah Michelle Gellar. Todas essas versões diferem umas das outras e mostram como o mesmo material presta-se a abordagens variadas. Vadim transpôs a ação para a Paris de seu tempo e filmou em preto e branco, com, acompanhamento de jazz. Frears e e o dramaturgo Christopher Hampton (premiado com o Oscar) mantiveram a época, mas realçaram o que há de contemporâneo no cinismo da dupla de protagonistas. Forman, com seu elenco jovem, investiu no erotismo.

Os dois primeiros capítulos da minissérie de Vinícius Coimbra e Manuela Dias estabelecem a cumplicidade e o clima de disputa entre Valmont e Merteuil, que agora se chamam Augusto e Isabel. Ela quer se vingar do amante que a trocou por uma jovem. Ele aceita a aposta – seduzir a noivinha para que ela chegue ao casamento desvirginada. O amor entra e subverte a equação. Para Coimbra, Manuela Dias é uma grande frasista, que cria diálogos densaos e vivos. Como ele disse ao repórter, havia todo um aspecto técnico importante (e inovador), mas, para o público, tudo isso será, quando muito, uma curiosidade. O que importa é a história. E o elenco. Selton Mello, Patricia Pillar, Marjorie Estiano, Jesuíta Barbosa etc. “Eles são tão bons que eu só precisava não errar”, diz Coimbra.

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