AP Photo/Noreen Nasir
AP Photo/Noreen Nasir

‘Vila Sésamo’ estreia Ji-Young, sua primeira boneca asiática-americana

Com apenas 7 anos de idade, Ji-Young está fazendo história como a primeira boneca americana de origem asiática no cânone da ‘Vila Sésamo’

Terry Tang*, Associated Press

17 de novembro de 2021 | 20h00

O que significa um nome? Bom, no caso de Ji-Young, a mais nova moradora da Vila Sésamo, seu nome é um sinal de que ela deveria morar lá mesmo.

“Então, em coreano as duas sílabas tradicionalmente significam coisas diferentes. Ji quer dizer, tipo, inteligente ou sábia. E Young significa, tipo, corajosa e forte”, explicou Ji-Young durante uma entrevista recente. “Mas estávamos procurando e adivinha só? Ji também significa gergelim, ou seja, sésamo”.

Com apenas 7 anos de idade, Ji-Young está fazendo história como a primeira muppet asiática-americana no cânone da Vila Sésamo. Ela é americana de origem coreana e tem duas paixões: tocar guitarra e andar de skate. O programa de TV infantil, que este mês completa 52 anos no ar, fez à Associated Press uma primeira apresentação de sua adorável moradora recém-chegada.

Ji-Young será formalmente apresentada em See Us Coming Together: A Sesame Street Special. Simu Liu, Padma Lakshmi e Naomi Osaka estão entre as celebridades que aparecerão no especial, que vai estrear no Dia de Ação de Graças na HBO Max, nas redes sociais da Vila Sésamo e em canais locais da PBS.



Parte da personalidade de Ji-Young vem de sua titereira. Kathleen Kim, que tem 41 anos e também é americana de origem coreana, entrou no teatro de fantoches depois dos 30. Em 2014, ela fez uma oficina da Vila Sésamo. A coisa evoluiu para uma mentoria e no ano seguinte ela passou a fazer parte da equipe. Para Kim, ser titereira de um programa que ela passara a infância assistindo foi um sonho que virou realidade. Mas ajudar a moldar uma boneca original é outra façanha.

“Sinto que estou botando muito peso nas minhas costas para ensinar essas lições e ser essa representante que não tive quando era criança”, disse Kim. Mas a colega titereira Leslie Carrara-Rudolph - que interpreta Abby Cadabby - a lembrou: “O importante não somos nós. O importante é a mensagem”.

A existência de Ji-Young é o ponto culminante de muitas discussões que se desenrolaram após os eventos de 2020 - a morte de George Floyd e os incidentes de ódio contra asiáticos. Como muitas outras empresas, Vila Sésamo refletiu sobre maneiras de “incorporar o momento”, disse Kay Wilson Stallings, vice-presidente executiva de criação e produção da Sesame Workshop, organização sem fins lucrativos por trás da Vila Sésamo.

A Sesame Workshop estabeleceu duas forças-tarefa: uma para examinar seu conteúdo e outra para examinar sua própria diversidade. O que se desenvolveu foi o Coming Together, uma iniciativa de vários anos que pensa em maneiras de falar com as crianças sobre raça, etnia e cultura.

Um dos resultados foi Tamir, de 8 anos. Embora não seja o primeiro boneco negro do programa, ele foi um dos primeiros a falar sobre assuntos como racismo.

“Quando sabíamos que faríamos este trabalho que se concentraria na experiência dos asiáticos e das pessoas das ilhas do Pacífico, é claro que sabíamos que precisávamos criar um muppet asiático também”, disse Stallings.

Esses bonecos mais novos - suas personalidades e sua aparência - foram construídos de maneira notável em questão de meses. O processo normalmente leva pelo menos alguns anos. Existem especialistas externos e um grupo de funcionários conhecido como “conselho de cultura” que avaliam todos os aspectos de um novo boneco, disse Stallings.

Para Kim, era crucial que Ji-Young não fosse “genericamente pan-asiática”.

“Porque isso é uma coisa que todos os americanos de origem asiática já sentiram na pele. Eles meio que querem nos agrupar nesse grupo ‘asiático’ monolítico”, disse Kim. “Então foi muito importante que ela fosse especificamente coreana-americana, não apenas genericamente coreana. Mas ela nasceu aqui”.

Uma coisa que Ji-Young ajudará a ensinar as crianças é como ser uma boa “defensora”.

Vila Sésamo usou o termo pela primeira vez em seu especial de TV O Poder do Nós no ano passado, no qual Tamir estreou. “Ser um defensor significa apontar coisas que estão erradas ou alguma coisa que alguém faz ou diz que se baseia numa atitude negativa, por causa da cor da pele de alguém, ou da língua que fala ou do lugar de onde vem”, disse Stallings. “Queremos que nosso público entenda que eles podem ser defensores”.

Em See Us Coming Together, a Vila Sésamo está se preparando para o Dia do Vizinho, onde todos compartilham comidas, músicas e danças de sua cultura. Ji-Young fica chateada quando uma criança, fora da tela, diz para ela “voltar para casa” - insulto comumente lançado contra americanos de origem asiática ou das ilhas do Pacífico. Mas ela se sente fortalecida depois que outros moradores asiático-americanos da Vila Sésamo, estrelas convidadas e amigos como Elmo garantem que ela pertence àquele lugar tanto quanto qualquer outra pessoa.

 


O fato de Ji-Young ter sido criada para combater o ódio aos asiáticos a torna ainda mais especial para Kim.

“Eu me lembro dos tiros em Atlanta e de como eles foram aterrorizantes”, disse Kim. “Minha única esperança, obviamente, é ajudar a ensinar o que é racismo, ajudar a ensinar as crianças a serem capazes de reconhecer o racismo e então se posicionarem contra o racismo. Mas minha outra esperança para Ji-Young é que ela simplesmente normalize a ideia de vermos crianças de diferentes tipos de aparência na TV”.

Vanessa Leung, codiretora executiva da Coalition for Asian American Children and Families, está entusiasmada com Ji-Young. A organização não esteve envolvida na criação de Ji-Young, mas já foi consultada sobre conteúdo antirracismo para a Sesame Workshop. É importante quando as famílias asiático-americanas, especialmente com muitas delas sendo famílias de imigrantes, podem se ver refletidas numa instituição como a Vila Sésamo, disse Leung.

“Isso desperta desde cedo curiosidade e compreensão sobre a diversidade de nossa comunidade, a beleza da diversidade de nossa comunidade”, disse Leung. Ji-Young estará muito presente ao longo da 53ª temporada do programa no ano que vem, Stallings assegurou. E não será utilizada apenas para conteúdo relacionado à justiça racial. Ela também aparecerá em vários programas digitais, live-action e animados.

Por ser a mais nova criança na rua, Ji-Young está ansiosa para mostrar a seus amigos e vizinhos aspectos da cultura coreana, como a comida. Ela adora cozinhar pratos como o tteokbokki (bolinhos de arroz) com sua halmoni (avó). E ela já tem um amigo da Vila Sésamo que quer um bocado.

“Eu adoraria experimentar”, disse Ernie, que se juntou à entrevista de Ji-Young. “Você sabe, eu experimentei bulgogi. E realmente gosto de bulgogi. E acho que meu velho amigo Bert ainda não provou comida coreana”.

Depois de fazer vários amigos famosos na ‘Vila Sésamo’, será que tem alguém que Ji-Young ainda queira conhecer?

“As Linda Lindas porque elas são muito legais”, disse Ji-Young, referindo-se à banda adolescente de punk rock. “E elas mandam ver e são garotas bacanas e quase todas são asiáticas. São minhas heroínas. Se pudermos trazer as Linda Lindas aqui, eu vou mostrar a vila para elas”.

---

* Terry Tang é membro da equipe de raça e etnia da Associated Press


 TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.