Richard Termine/Sesame Workshop
Richard Termine/Sesame Workshop

'Vila Sésamo' completa 50 anos com participações especiais

Atração que uniu educação infantil, marionetes e canções recebeu grandes astros da música, como Ed Sheeran, Bruno Mars e Diana Ross

Melena Ryzik, The New York Times

28 de agosto de 2019 | 07h00

De quantas maneiras você pode cantar sobre a letra B? Na Vila Sésamo, essa pergunta tem muitas respostas peludas.

Desde a sua criação, em 1969, o programa da televisão pública redefiniu o que significa ensinar às crianças pela TV, com a música como sua voz retumbante. Antes de Vila Sésamo, nem estava claro se era possível fazer isso; quando a série começou, como um experimento radical que uniu pesquisa educacional e idealismo social com a insanidade de marionetes e a animação de jingles publicitários, provou que as crianças são muito receptivas a uma lição de gramática embrulhada em uma música.

Astros importantes alinhados para fazer aparições como convidados que se tornaram o material da lenda (Stevie Wonder e Grover; Loretta Lynn e o Conde; Smokey Robinson e uma letra U enganosa). E muito antes de a inclusão tornar-se uma meta curricular, a Vila Sésamo fez questão de mostrar ritmos afro-caribenhos, potências operísticas, batidas latinas, sucessos interrompidos por aplausos na Broadway e bebop ao lado de seu elenco diversificado.

“Vila Sésamo é um dos primeiros exemplos de um musical que experimentei”, disse Lin-Manuel Miranda, que cresceu adorando I Love Trash e chamou o cantor Oscar the Grouch (Oscar ou Grouch no Brasil), “um personagem tão singular que muda a maneira como você vê o mundo”.

“Aprendi com Vila Sésamo que a música não é apenas incrivelmente divertida, mas também uma narrativa e ferramenta de ensino extremamente eficaz”, acrescentou em e-mail. “Além disso, as músicas são a coisa mais próxima que temos de um livro de canções infantil compartilhado.”

Miranda começou a compor para Vila Sésamo pouco depois da sua primeira vitória no Tony em 2008; seu amigo Bill Sherman, um colega vencedor do Tony, tornou-se o diretor musical de Vila Sésamo no ano seguinte. Hoje, com audiência online em centenas de milhões, a série ainda abriga as superestrelas do pop – Janelle Monáe, Romeo Santos, Ed Sheeran, Sia, Katy Perry e Bruno Mars – e uma atualização da paisagem urbana atual onde Nina Simone cantou, em 1972, To Be Young, Gifted and Black

Agora, ao completar 50 anos – depois de 4.526 episódios, sem contar especiais, filmes, álbuns e muito mais – o legado de Vila Sésamo é claro: influenciou o mundo da música tanto quanto moldou a história da TV, inspirando muitos fãs e gerações de artistas. 

No final da década de 1960, quando Joan Ganz Cooney, produtora de TV e Lloyd Morrisett, psicólogo e executivo de filantropia, começaram a desenvolver a Vila Sésamo, seu objetivo era gerar a preparação da escola e diminuir o fosso educacional entre as crianças dos níveis inferiores e superiores. Eles trouxeram um professor de Harvard para aconselhamento em pedagogia e pegaram emprestado da TV comercial a criação de personagens memoráveis, incluindo os Muppets de Jim Henson.

Depois surgiram as participações de celebridades (no segundo episódio, James Earl Jones enuncia o alfabeto em tons teatralmente lentos).

A identidade sonora de Vila Sésamo teve muitos criadores: Jon Stone, o primeiro roteirista principal e produtor e diretor de longa data, ajudou a conceber a música-tema, e o escritor Jeff Moss nos deu Rubber Duckie (O patinho de borracha), As Pessoas na Sua Vizinhança e Eu Amo Lixo.

Mas a pessoa mais associada ao estilo musical do programa foi o diretor musical inicial, o compositor e pianista de jazz com formação clássica de Harvard, Joe Raposo. Nos primeiros anos, quando Vila Sésamo fazia inacreditáveis episódios inéditos de 130 horas por ano (às vezes transmitido cinco vezes por dia), a produção de Raposo era prodigiosa: ele escreveu mais de três mil peças para o programa, composições originais que poderiam variar de alguns segundos a números de produção completa. “As primeiras temporadas foram definitivamente malucas; você pode culpar a época ou o ritmo. Naqueles primeiros anos, ele estava no estúdio ou no set provavelmente 18 horas por dia”, disse Nick Raposo, filho de Joe.

A música em Vila Sésamo funcionava de três maneiras: como faixas de apoio para clipes de animação e filme; como performances ao vivo de artistas convidados conhecidos; e como músicas para os atores e os Muppets cantarem. 

Entre as descobertas de Vila Sésamo estava a crença de que – em um programa que tinha personagens de diferentes etnias vivendo em harmoniosa convivência – a música deveria ser multicultural também. 

À medida que o universo Vila Sésamo se expandia, ele atraía talentos musicais cada vez mais importantes para sua órbita. O músico de jazz Toots Thielemans, que se apresentou com Benny Goodman, Ella Fitzgerald e Charlie Parker, tocou a música tema na gaita. 

O primeiro ano do programa deu o tom à sua missão de elevação social e emocional, com convidados folk como Pete Seeger e Odetta. Mas depois o firmamento pop entrou em cena. Em 1973, Stevie Wonder chegou como convidado musical de um episódio, para ensinar Grover sobre dinâmica vocal. Com sua banda completa no set, ele tocou Superstition ao vivo para um público de criança batendo cabeça e tocando maracas em seus acrílicos dos anos 1970.

Em sua primeira aparição, em 1973, Johnny Cash levou seu filho para a gravação e nos anos 1990 voltou com neta e filha. Ao longo dos anos 1970 e 1980, os artistas que enfeitaram a varanda da Vila Sésamo fizeram um cruzamento com as paradas da Billboard: Carly Simon, Linda Ronstadt (fazendo um número de mariachi!), Diana Ross, Paul Simon (ofuscado por uma garotinha), Billy Joel. Nos anos 1990 e 2000, houve Celine Dion, as Dixie Chicks e Destiny’s Child. Norah Jones ainda lembra da performance do cantor de jazz -Cab Calloway, em 1981.

O show permaneceu comprometido em destacar artistas que podem não estar familiarizados com o grande público. O percussionista de jazz Max Roach apareceu em 2000; a rainha latina Celia Cruz em 1987.

E sempre havia espaço para estrelas clássicas, frequentemente visitantes repetidos. O violinista Itzhak Perlman teve várias participações na década de 1980. Perlman, que usa muletas pois teve poliomielite na infância, também participou de um influente segmento de 1981 que abordava diferenças físicas.

Lang Lang, o astro pianista da China, começou a assistir ao show aos 15 anos, quando chegou aos EUA, especialmente por ter visto pessoas como Perlman nele. “Vila Sésamo ligava a música clássica ao cotidiano das crianças, de uma maneira que despojava sua conotação intelectual”, afirmou Lang Lang. 

Estar em Vila Sésamo é simultaneamente surreal e reconfortante. Se você cresceu com ela, é tão familiar quanto o seu quarto de infância – mas uma versão de sonho febril, com um elenco de adultos andando ao redor em bonecas almofadadas, olhando para os monitores enquanto falam em vozes agudas ou graves que saem de seus braços perpetuamente suspensos.

E, no entanto, artistas convidados quase instantaneamente esquecem que há alguém dentro do Ênio (Elmo) ou Abby Cadabby, no original. “Eu sabia, é claro, que era uma marionetista”, disse Jones, de sua parte de 2004, falsificando seu Don’t Know Why, vencedor do Grammy, com uma música chamada Don’t Know Y.

Explodir em lágrimas também é comum, como Tracy Chapman e Gloria Estefan, que se emocionaram muito em sua apresentação. Entre tantas estrelas fazendo questão de estar na Vila Sésamo, há alguns nomes famosos que permaneceram fora de alcance. Apesar dos pedidos, o Boss nunca apareceu. Nem Madonna, Paul McCartney ou os Rolling Stones. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

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