Frederico Rozario/Estadão
Frederico Rozario/Estadão

Vida que inspira arte

Ao chamar doença de 'meu Parkinson de diversões', Paulo José procura ver com humor questão que levará à novela de Manoel Carlos

Cristina Padiglione/ Enviada especial/ RIO, O Estado de S. Paulo

16 de novembro de 2013 | 20h17

Há alguns meses, o autor Manoel Carlos perguntou a Paulo José se ele poderia escalá-lo para sua próxima novela das 9 na Globo, Em Família, e colocar em cena uma delicada reflexão sobre o Mal de Parkinson. “Sim”, respondeu, solícito, o ator e diretor que vem convivendo com a doença nos últimos 20 de seus 76 anos.

Passos curtos, voz de timbre baixinho – mas não tímida –, Paulo encontra a reportagem do Estado na sala de estar de sua casa e logo vai explicando que sua eloquência não está nos melhores dias. Conta que acabou de fazer um relaxamento e isso não conspira a favor da voz, mas surpreende quando brinca que deveria dar entrevista cantando, e de fato canta, escancarando uma voz que parecia oculta.

Também avisa, de início, que não gosta de dar entrevistas. Fica tenso, o que não acontece quando recita seus poemas, quando canta ou interpreta um texto decorado. Mesmo assim, concordou em receber a repórter em seu paraíso, no alto da Gávea, onde vive cercado de livros – muitos livros –, cachorros, gatos e pelo menos dez pessoas que circulam por ali diariamente, entre os filhos, a mulher Kika Lopes e alguns poucos amigos.

Há ainda os terapeutas, que se encarregam de uma rigorosa agenda de atividades. Faz fisioterapia duas vezes ao dia, tem aulas de voz três vezes na semana, toca piano para exercitar os dedos, nada, faz fonoaudiologia às quintas e terapia corporal às terças. “E tomo remédios, muitos, cinco vezes ao dia”, conta.

Depois das aulas de canto, grava poemas num estúdio que mantém em casa, o que vai render um audiobook. Fala que tem se dedicado muito a escrever. Como sempre lhe perguntam como lida com a doença, resolveu escrever um depoimento em primeira pessoa, relatando altos e baixos vividos nesses 20 anos. “Isso tudo faz parte da minha luta diária para manter o Parkinson como um coadjuvante – um coadjuvante de peso –, mas nunca um protagonista.”

Antes mesmo de receber os primeiros scripts de Manoel Carlos sobre seu personagem na novela Em Família, que estreia em janeiro, sob direção de Jayme Monjardim, Paulo José tem uma ideia do que o aguarda. Foi ele, afinal, quem sugeriu ao autor algumas situações "humilhantes" para retratar constrangimentos vividos por um portador de Parkinson. Para dar veracidade ao discurso, Paulo José terá liberdade de improvisar à vontade.

Em depoimento escrito recentemente sobre a doença, Paulo diz que a Globo pagou os tratamentos mais caros. Lembra que José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, o enviou para Nova York, assim que soube do diagnóstico. Lembra da infância, entre Bagé e Lavras do Sul (RS), da mãe de suas três filhas, Dina Sfat, das outras mulheres, do filho, e conclui: "Acho que sempre estive com alguém. Sou passional, mas gosto de fingir que não sou. Sinto ciúmes, mas finjo que não sinto. Se me perguntarem, nego tudo".

Há 15 anos, soube também que tinha enfisema pulmonar, mas ainda se permite fumar até cinco cigarros por dia.

Nessas duas décadas, dirigiu 10 peças de teatro, participou de 19 filmes e 18 programas de TV, dirigiu mais de 200 comerciais e prepara a reedição de um livro que norteou o curso de direção e atuação que criou na Globo, em 1988, e na Escuela Internacional de Cine Y Televisión, de Cuba.

De quem foi a ideia de levar o Parkinson à novela das 9?

O Maneco me procurou. Perguntou se eu me importaria de ele me usar para falarmos do Parkinson, que seria bom para a novela. E como eu tenho obrigação de fazer coisas pra televisão – tenho contrato, a cada três anos tenho que fazer uma novela –, achei que essa era uma boa ideia. E, coincidência, o Michael J. Fox está fazendo um programa nos Estados Unidos, com grande sucesso, em que ele é protagonista, com todos os problemas do Parkinson.

A proposta dele é tratar o Parkinson com humor. É possível?

Como o Michael J. Fox é um otimista, ele diz que ficou muito melhor depois que teve Parkinson. Eu costumo chamar de "Meu Parkinson de diversões", chamo mesmo, porque para algumas pessoas, o Parkinson é um problema sério, impede de trabalhar, corta atividades, dá a sensação de que o mundo acabou. Pra mim, não.

Como vocês vão desenvolver esse personagem na novela?

Ainda não sabemos. Não é letal, você não morre de Parkinson, mas o Parkinson ajuda a te enfraquecer, vai minando os teus alicerces. Eu, por exemplo, tenho uma voz muito fraca. Posso fazer esforço, faço aulas de voz duas vezes por semana, faço exercício todos os dias. Eu, estando descansado, a voz sai mais forte e mais articulada. Mas agora, por exemplo, estou com dificuldade de falar. Tomei banho e fiz um relaxamento preguiçoso, dá uma sonolência, os remédios são muito fortes, atacam muito o sistema nervoso central. O problema do Parkinson é a ausência de dopamina. A dopamina é euforizante, a droga da alegria. Se você não tem dopamina, fica caído, sem humor. Se você olhar, o parkinsoniano tem cara de jogador de pôquer: você não sabe o que ele está pensando. Puxa a carta, olha pra você sem nenhuma reação, é um jogador de pôquer.

E para quem vive de expressão, isso pode ser um degrau a mais para a depressão?

Não sou de natureza deprimido, sou otimista, irremediavelmente. Eu tenho dificuldade em certas coisas. Dar entrevista, por exemplo, é uma coisa que me custa muito. Eu prefiro fazer por escrito. Estou escrevendo muito mais do que falando e estou escrevendo bem. Estou revendo e revisando tudo que tenho no computador, as aulas, os cursos de dramaturgia, as oficinas de direção... Eu dei oficina para diretores da Globo. Estou passando tudo para um livro. É um pot-pourri, uma mistura. Também tem frases soltas, como uma do Zico: "quanto mais eu treino, mais sorte tenho". Ou uma do roteirista Eugênio Valle: "Não tenha medo de ser um bom artesão, isso não o impedirá de ser um gênio".

Você será poupado dos longos expedientes de gravação?

Comigo não tem importância. O meu personagem vai ser bastante flexível. Conversando com o Maneco, ele já falou para eu usar bastante da improvisação, para eu poder expor a questão, sem ficar chato. Mas sei que vão ter um cuidado especial comigo.

Você sugeriu situações a serem abordadas na novela?

Sim, citei algumas situações. Por exemplo, o freezing, que causa um congelamento. O personagem entra no ônibus e trava na porta. Em vez de entrar, não pode sair dali, há uma desconexão entre movimento e vontade. Ele quer entrar, mas não consegue, e as pessoas reclamando, "eh, eh". Tem a situação de assalto, em que o assaltante manda o sujeito ficar quieto, parar de se mexer, e ele não consegue, fica tremendo. E o cara se sente mais ameaçado pelo fato de não poder parar os movimentos – "mas eu sou doente" –, e o assaltante não acredita. Tem situações do episódicas do parkinsonismo, que ocorrem com algumas pessoas, como incontinência urinária, que eu não tenho, mas tem gente que tem. São situações humilhantes. E tem a fala: tem dias que está mais baixa, tem dias que é mais eloquente. E aí cansa quando ficam te perguntando: "o quê?", "o quê?", não te entendem, porque você articula mal, fala para dentro.

Com tudo isso, é difícil não se trancar em casa, não?

Você vai ficando arredio, tem medo de muita gente. Mais de três pessoas é multidão. Aqui em casa tem muito movimento, mas são pessoas que são muito conhecidas, me respeitam, têm carinho por mim, isso é importante também. Quando tem muita badalação, é desagradável. Não gosto.

O Maneco vai ‘maltratar’ você, como fazia com os velhinhos em Mulheres Apaixonadas?

Isso é inevitável. Para criar uma empatia do público com esse personagem, ele me maltrata. O público sofre junto. Assim tem empatia. Se o personagem for antipático, o público vai dizer "quero que se ferre, pode sofrer". Eles (telespectadores) têm que ficar condoídos.

Você tem visto televisão?

Flamengo.

Só jogo do Flamengo? E novelas, séries?

Assisto Tapas & Beijos, minha filha Clara que dirige. E estou interessadíssimo em acompanhar a novela das 9 (onde sua filha Bel Kutner vive a enfermeira Joana). Aliás, todo mundo na novela tem um lado podre. Mas tem os velhos – o Ary Fontoura e a Nathália Timberg –, que são jovens.

Você não gosta de dar entrevista, mas não se importa em se submeter à maratona de gravações e exposição de uma novela. Não é contraditório?

Mas a vantagem do trabalho de novela é que você já sabe o que vai fazer naquele dia, texto decorado é muito mais fácil. Na entrevista, sempre tem uma tensão. Hoje, por exemplo, estou num dia apático.

E sobre essas oscilações, não há controle medicinal?

O que existe de novo nesse tratamento é o marca-passo que eu tenho – cerebral, não cardíaco, mas que é também instalado no peito. Isso aqui (aponta para o pescoço, do lado esquerdo) não é uma veia, é um tubo, um fio elétrico, que entra no cérebro por aqui e isso tira os tremores, os movimentos involuntários.

Há quanto tempo você colocou o marca-passo?

Há cinco anos. Quando fiz Por Amor, ainda não tinha, mas eu usava os tremores a favor do personagem, que era bêbado.

Desde o diagnóstico do Parkinson, do que sente mais falta?

Do fato de não jogar futebol, por exemplo. Eu jogava mal. Mas corria muito, com muita velocidade.

Então, para a sorte do Flamengo, ganhamos um grande ator?

(Risos) Se bem que tem gente no Flamengo que é pior que eu.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.