CAIUÁ FRANCO/DIVULGAÇÃO
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'Velho Chico' injeta sustentabilidade no melodrama, com eficácia

Sintropia, técnica de reflorestamento com recursos naturais, é inserida em meio aos conflitos dramáticos, desperta a atenção do meio acadêmico e ganha mais fôlego nos próximos capítulos

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

06 Julho 2016 | 05h00

Mais que um merchandising social, Velho Chico, a novela das 9 da Globo, tem desfilado um merchandising ambiental como nunca antes se viu em telenovela. E vem mais por aí. O resultado de toda uma reflexão trazida por Miguel (Gabriel Leone) ganha força de resultados nos próximos capítulos, com um projeto de agrofloresta que visa à recuperação de um solo desgastado pela ganância dos Saruês, como dizem na trama de Benedito Ruy Barbosa, Bruno Luperi e Edmara Barbosa – que deixou o roteiro, mas participou dessa concepção – e direção de Luiz Fernando Carvalho.

Não é obra simples permear um enredo de ficção pincelando dicas sobre o dano dos pesticidas, o valor dos orgânicos, da agricultura familiar. A tal sintropia engloba técnicas de recuperação do solo com métodos de plantio capazes de produzir a regeneração de florestas, com uso de recursos naturais e sem uso de fertilizantes ou devastação da mata.

Parece conversa de Globo Rural, mas vale muito mais: o recado captura uma audiência quatro vezes maior e vem embalado em meio aos conflitos do melodrama gerido pelo amor impossível de Santo (Domingos Montagner) e Tereza (Camila Pitanga), dos quais faz parte o apaixonado combate à oligarquia e à ganância do coronelismo representado pelo Saruê (Antônio Fagundes), com envolvimento só dos personagens que estão do lado bom da força do enredo.

Leone participou de workshop sobre o assunto e passou três dias imerso na fazenda do suíço Ernest Gotsch, que resgatou uma área relevante na Bahia, ao longo de 30 anos. “O ponto-chave da sintropia é a questão do homem rever sua relação com a natureza, de a gente parar de se enxergar como ser superior”, diz ele, carioca, que só conhecia boa parte desse assunto pelo lado teórico. “A novela vem apontando alguns dramas reais. Estamos tendo uma oportunidade muito rara, num esforço maior com os autores e a direção, para que a mensagem seja informativa, que conscientize, que ela comunique, sem que as pessoas tratem como assunto chato.” Leone conta que tem recebido retorno de estudantes de agronomia citando a novela como espelho para novo aprendizado acadêmico.

Domingos Montagner conta que o colega Marcos Palmeira, que na novela vive Ciço e na vida real cultiva produtos orgânicos, tem funcionado quase como um consultor no set. “Ele comenta a dramaturgia, dá sugestões sobre o assunto, é muito bom”, diz. O ator concorda que a novela não tem função documental, mas tudo o que ali é abordado é feito “de forma muito responsável”. “No nosso caso”, continua Montagner, “estamos levantando de um ponto muito positivo, um dos mais fortes desse núcleo, que é ver como se trata a terra, por que ela está esgotada, o rio, a maneira como eles estão sofrendo, os peixes, a intenção da dramaturgia é ver que tudo está interligado”.

Nascida e criada em Campina Grande, como Lucas Veloso, também dito Lucas na ficção, Luci Pereira, a dona Ceci, veio pronta para o papel. Curandeira, é ela quem dará o conhecimento prático das ervas a serem adotadas nas técnicas científicas trazidas por Miguel. “Fui criada por meus bisavós”, ela conta, “e cresci vendo meu bisavô fazer garrafadas (de ervas) para problemas de próstata”.

Lucas e Giullia Buscaio, a Olívia, também participaram do workshop de Ernest. “É muito bom que a gente esteja falando disso numa novela”, endossa Giullia, com eco de Montagner, Lucas, Gabriel e Luci. "O primeiro contato que eu tive com esse tema foi na novela, nunca lidei com isso antes, mas abriu os meus olhos", diz Giullia, que emenda: "A gente ficou impressionado como era uma coisa simples e a se perguntar como as pessos não fazem isso, usando recursos naturais.

Lucas, que também cresceu em quintal de ervas, criado pelo avô, traz de lá o encantamento pelo assunto. “Você é o que você come. Velho Chico trata de várias denúncias, inclusive da falta de amor, dos maus-tratos com o Rio São Francisco, do nosso descuido com o verde, afetando a saúde. Se você tratar a natureza melhor, vai tratar as pessoas melhor e vai se tratar melhor. É um efeito dominó.”

Com a palavra, o autor, Bruno Luperi:

"Desde o princípio, em Velho Chico, tratamos da relação do homem e a natureza. Tanto por isso o rio é um dos protagonistas da trama. Desde a sinopse era sabido que Olívia e Miguel iriam representar a busca por novos meios de produção sustentável. A produção orgânica era um caminho pelo qual eles iriam desbravar. Uma das propostas de Velho Chico é deixar um legado ambiental e eu considero que a sintropia seja parte deste legado. Mas junto dela queremos abrir os olhos para todas outras formas de lidar com a terra, água e a natureza de maneira consciente e sustentável. Uma mensagem de que é possível construir um mundo melhor. A proposta que estamos buscando é de reflexão e não de vilanização. Velho Chico não se propõe a apontar dedos para criticar e recriminar, mas sim usar esse mesmo dedo para apontar novos caminhos. E percebo que isso tem sido bem recebido. Há um grupo incrível de pessoas que militavam há muito tempo por um mundo melhor e mais consciente e que viram na novela um pouco daquilo que sempre defenderam. Não foram poucas as vezes que fui abordado por esse carinho, bem como não foram as vezes que o testemunho deles me levou as lágrimas também. Recebi notícias de que Velho Chico foi objeto de estudo em algumas universidades, bem como que universidades de agronomia trouxeram a sintropia para a grade curricular. Espero nesses próximos meses que nos restam no ar poder atingir e despertar um pouco mais a consciência dos espectadores".

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