Divulgação/TV Globo
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'Velho Chico' chega ao fim afastando melancolia com final feliz

Novela não merece ser só lembrada pelas tragédias, mas por ser uma produção primorosa

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2016 | 05h00

Velho Chico chega ao fim nesta sexta-feira, 30, em tom melancólico. Pela morte de Domingos Montagner, que construiu um Santo digno da força que o protagonista pedia. E pela tristeza que paira sobre equipe e elenco nessa reta final – é possível ver olhares emocionados dos atores mirando a câmera subjetiva, que, desde o começo desta semana, substitui Santo nas cenas que Domingos não teve tempo de gravar. Mesmo com essa atmosfera que não pode ser evitada, os autores Benedito Ruy Barbosa e Bruno Luperi, seu neto, mantêm o caminho da felicidade e da redenção no último capítulo.

Santo ainda vive, o que foi uma solução acertada dos autores. O desfecho do personagem será como ele sonhara: se casará com a amada Tereza (Camila Pitanga), com direito à festa com todos presentes. Aliás, é aguardada uma homenagem a Domingos. O final feliz na ficção aplacará, mesmo que por alguns minutos, a dor da vida real. E a redenção já chegou ao coronel Afrânio, de Antônio Fagundes, que ‘matou’ simbolicamente o odiado Saruê que habitava seu corpo enquanto tentava encontrar o filho Martim (Lee Taylor), que, morto, fazia a travessia espiritual para o outro lado numa embarcação fantasma. Nesse momento, os dois se reconectaram.

Martim terá também a chance de ver sua família unida novamente, algo que tanto desejava em vida. Luzia (Lucy Alves), que não foi propriamente uma vilã, mas cometeu atos insanos em nome de seu amor por Santo, como destruir as cartas que Tereza escreveu para ele na juventude – o que os separou por anos –, é outra que terá uma segunda chance. Ela, que foi adotada bebê pelo casal Eulália (Fabiula Nascimento) e capitão Rosa (Rodrigo Lombardi) na primeira fase, nunca se sentiu parte da família. Agora, Lucy adotará uma criança e perceberá que ela própria recebeu amor, mesmo não havendo ligação de sangue com o clã que a acolheu.

Apesar de ser marcada pelas mortes de Umberto Magnani, que interpretou padre Romão, e Domingos Montagner, Velho Chico não merece só ser lembrada pelo lado trágico. A começar pelas grandes interpretações do elenco, como Rodrigo Santoro, na primeira fase, e Domingos Montagner e Camila Pitanga na segunda. Camila, como Tereza, protagonizou embates emblemáticos na telinha, tanto com o pai Afrânio quanto com o marido Carlos Eduardo (Marcelo Serrado). A novela proporcionou à atriz um dos grandes momentos da carreira. Se não, o maior. Houve ainda os temas ambientais e sociais que trouxe à tona em horário nobre – transformando, por exemplo, o Rio São Francisco em um cenário-personagem.

Outro ponto a ser destacado é a estética criada pelo diretor Luiz Fernando Carvalho, que levou para essa novela das 9 contemporânea e realista – com alguns momentos de fantasia – sua câmera lúdica, a mesma que já havia encantado o público em produções mais poéticas dirigidas por ele na TV, como Hoje é Dia de Maria e A Pedra do Reino. Mesmo antes de sair do ar, Velho Chico já marcou a história da teledramaturgia.

Trama teve execução complexa e conturbada

Na tentativa de brecar temas vanguardistas e polêmicos em sua faixa nobre, responsáveis pelo afugentamento de uma parcela considerável de sua audiência, a Globo trouxe Benedito Ruy Barbosa de volta ao rodízio de autores de novelas das nove e promoveu uma série de adaptações em Velho Chico, concebida originalmente para a faixa das 18h. A ideia, com esta ação, era iniciar uma linha de tramas ‘simples’, de fácil assimilação por parte do público, investindo em histórias de amor e conflitos familiares.

A execução, no entanto, passou longe de ser simples. Embora o discurso oficial da emissora seja outro, os bastidores tiveram pontos de tensão. A começar pelo orçamento da primeira fase, que quase atingiu o dobro do previsto. As gravações no Nordeste encareceram a obra, e não houveram as habituais ações de merchandising que costumam ser embutidas para amenizar os custos.

Em termos de caracterização, a segunda fase exigiu trabalho extra dos maquiadores, que demorou a encontrar o meio ideal para reproduzir o suor quente, e natural, que os atores da primeira etapa derramaram em suas cenas.

No âmbito criativo, os embates frequentes entre Luiz Fernando Carvalho e Edmara Barbosa culminaram na saída da autora no meio da novela, que ficou a cargo de Bruno Luperi. Benedito Ruy Barbosa, que havia deixado o desenrolar da trama sob a responsabilidade da filha e do neto, precisou voltar à roteirização e dar suporte ao parente.

A baixa audiência também foi motivo de discussões entre Carvalho e Silvio de Abreu, diretor geral de dramaturgia da Globo. Mudanças foram encomendadas para reverter o quadro e a maioria foi negada pelo diretor da novela. / GABRIEL PERLINE

SOBE

Estética

A estética lúdica e atraente criada por Luiz Fernando Carvalho para contar uma trama realista; e a revelação de talentos, como Lucy Alves.

DESCE

Personagens

Na mudança da 1ª para a 2ª fase, faltou coerência na composição de alguns personagens; e a forma de abordar temas ambientais foi, por vezes, demasiadamente didática.

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