Vai saber se é mesmo mera coincidência

Sabe quando, nos créditos finais de uma novela, filme ou série, sobe aquela mensagem "qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais é mera coincidência"? Em alguns casos, seria mais adequado um "pode ser coincidência" ou "deve ser coincidência" ou "vai saber se é coincidência?", já que, muitas vezes, o limite entre ficção e realidade é quase intangível.

Patrícia Villalba, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2009 | 01h55

Eu, por exemplo, me pego várias vezes falando com o Luiz Alfredo Garcia-Roza como se ele fosse o detetive Espinosa, protagonista da sua série de livros policiais. E quando leio os livros dele e imagino as cenas, é o Luiz Alfredo que vejo perseguindo meliantes pelas ruas do Bairro Peixoto.

Benedito Ruy Barbosa, notório contador de histórias deliciosas, me contou uma vez a anedota incrível de uma senhora que conheceu na Itália, logo depois do final de Terra Nostra, em 2000. Dona do restaurante onde ele almoçava, ela foi falar com o autor muito emocionada, pois achava que o personagem de Gianfrancesco Guarnieri na novela (Giulio, que morria na viagem de navio até o Brasil e era jogado no mar) era "suo nonno". E como convencê-la de que se tratava de uma obra de ficção, caspita?

Mas quem ficou mesmo bem em cima da fronteira entre ficção e realidade foi minha amiga Mafalda. Baladeira convicta, ela adorou ver a noite paulistana retratada na série Alice, da HBO - dizia-se "passada" com a autenticidade das cenas, em boates onde ela batia cartão, tipo a D-Edge. Pois foi lá no D-Edge que ela teve uma bad trip, logo depois do fim da série. No bar, engatou conversa com um dos atores que interpretava um amigo da Alice, a personagem. E conversou durante um bom tempo, achando que falava com o personagem, não com o ator. Em certo momento, disse onde trabalhava. E o cara, num lance inacreditável, soltou: "Ah, jura? Uma amiga minha trabalha lá também, a Alice. Conhece a Alice?". Mafalda, coitada, perdeu a noção tempo-espaço: "Conheço, mas acho que não estamos falando da mesma Alice. Porque a Alice que você conhece veio do Tocantins - lembra? - e não consegue emprego aqui em São Paulo."E o cara, já meio bravo: "Gata, você sabe que eu sou o ator, né? Não sou o personagem."

Na meia-luz da boate, não deu para ver que Mafalda corou. Ainda bem, porque na vida real, não sobem as letrinhas com aquela mensagem sobre a "mera coincidência".

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