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Uma história de intolerância e poder pauta 'Wild Wild Country'

Ao falar sobre o guru Bagwan, série expõe conflitos de cidade dos EUA contra novos moradores

Pedro Venceslau , O Estado de S.Paulo

12 Maio 2018 | 20h01

Nas primeiras cenas de Wild Wild Country fica a impressão que o debate de fundo da série documental da Netflix é sobre tolerância. 

Os Estados Unidos ainda não tinham digerido o suicídio coletivo de 918 pessoas promovido em 1979 pelo pastor Jim Jones quando o carismático guru indiano Bagwan Shree Rajneesh levou sua seita da Índia para o interior do Oregon. 

As frases de autoajuda do “guia” espiritual morto em 1990, hoje chamado de Osho, ainda frequentam as timelines das redes sociais. 

A série promove uma imersão no culto ao cruzar um rico acervo de imagens de época com depoimentos dos personagens principais nos dias atuais. 

A pequena e pacata Antelope, cidade com 40 habitantes no Oregon – todos brancos, conservadores, republicanos e de classe média – se insurge contra a chegada dos seguidores de Bagwan. 

Do dia para a noite, milhares de fiéis descolados, adeptos do amor livre e de rituais exóticos catárticos, tomam conta da região. Lá pelo segundo episódio, quando o documentário ameaça andar de lado na disputa entre os dois mundos, a narrativa entra em uma espiral de loucura, disputas políticas e violência. 

É nesse momento que a série se torna um daqueles assuntos com potencial de incendiar qualquer debate. Há quem veja paralelos entre a saga do guru indiano e a militância apaixonada dos petistas leais ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 

O terreno é perigoso, mas as semelhanças existem. 

+ Wild Wild Country: fanatismo religioso, sexo, violência, luxo e uma reflexão sobre o “bem”

Assim como em Antelope, o pacato bairro Santa Cândida, em Curitiba, recebeu do dia para noite centenas de “moradores” de vermelho. Houve um inevitável choque cultural. 

Quem chegou reclamou de intolerância de quem veio, quem veio acusou o preconceito dos que lá estavam. Dois mundos completamente diferentes dividindo o mesmo território. 

Para quem não conhece a história e não viu a série, a partir de agora entram os spoilers.  A seita mudou-se para os Estados Unidos porque o país conta com uma Constituição que garante a liberdade religiosa, de expressão e agrupamento. 

Lá estariam, em tese, seguros. Mas não foi isso o que aconteceu. A disputa local se expandiu para uma batalha nacional dos “sannyasins”, como são chamados os seguidores do líder, e o establishment após os primeiros registros de violência. 

Em retaliação aos ataques contra seus fiéis, que incluem um incêndio criminoso, os até então seguidores pacifistas pegaram em armas e ameaçaram responder na mesma moeda. Entra em cena o fanatismo. 

Os Estados Unidos ficaram em alerta. Na disputa judicial que se segue até a prisão do guru, muitas são as semelhanças com os desdobramentos do caso Lula: a fé absoluta na inocência do líder que, uma vez preso, é colocado em isolamento total para evitar romarias e culto a personalidade, a indignação versus a exaltação ao judiciário e as estratégias para atingir um objetivo como se os fins justificassem os meios. 

Antes que joguem a primeira pedra, é claro que não há comparação entre os dois líderes: Lula foi um presidente eleito com mais 40 milhões de votos e, mesmo preso, lidera as pesquisas de intenção de voto. Bagwan era um guru excêntrico e milionário, que colecionava carros de luxo e relógios de ouro e atraía multidões oferecendo meditação e rituais estranhos. 

Mas há muito mais a ser digerido em Wild Wild Country. Braço direito de Bagwan, a encantadora Ma Anand Sheela faz um depoimento que conduz a narrativa. Ponto para os irmãos Jay e Mark Duplass, produtores do documentário, que a encontraram cuidando de doentes mentais em uma clínica na Europa. No quarto onde Sheela concedeu a entrevista estão pendurados quadros e fotos do guru.  Na reta final da série, os acontecimentos deixam no ar a pergunta: estamos diante de uma psicopata?

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