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Uma dupla unida pelo erro

Ilana e César poderiam ser intragáveis, mas, com humor, ganham público em 'Caminho das Índias'

Patrícia Villalba, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2009 | 08h25

Todo gatão de meia-idade, esbanjando jovialidade, o César de Caminho das Índias (Globo) pode se gabar de ser parceiro do filho, Zeca (Duda Nagle). Mas numa total deturpação de conduta paterna, o personagem de Antonio Calloni na novela das 9 é mais do que um pai amigo e herói - é um pai adolescente, um sujeito que esqueceu de crescer. E, por isso, incapaz de educar e impor limites. "O César é infantil. Ele age como se tivesse a mesma idade do filho", analisa Calloni, em entrevista ao Estado.

 

Advogado inescrupuloso, César forma uma dupla e tanto com a mulher, Ilana, perua interpretada por Ana Beatriz Nogueira. A parceria com Calloni é uma das que mais chamam a atenção na trama de Glória Perez, tanto pela diversão das cenas protagonizadas pelos dois quanto pela fagulha que põe na discussão sobre a educação permissiva e a violência nas escolas, que está quase todos os dias nos jornais. "O humor é uma coisa sedutora, bacana", observa Calloni. "Se não fosse o humor, eles seriam rejeitados logo de cara, e o público não discutiria a falta de ética, o abuso do poder e a falta de limites na criação do filho. Sem falar que as cenas ficariam muito pesadas."

 

É um típico caso de rir para não chorar, quando Ilana diz na cara de Berê, professora valente e sofrida interpretada por Silvia Buarque, que não tem culpa se o salário dela não compra o tênis que Zeca tem nos pés.

 

É novela, claro. Mas não é muito difícil esbarrar em uma Ilana dando barraco na porta de alguma escola de verdade - na vida real, a coisa é bem menos engraçada, lógico. "Tem várias Ilanas e pedacinhos de Ilana. Tem gente que eu encontro e penso ‘se a gente fizesse isso na novela, iam dizer que é exagero’", diz Ana Beatriz.

 

Ilana e César são alpinistas, golpistas, aproveitadores, amorais e tremendos caras de pau. À risca, seguem a cartilha daquele "malandro é malandro, mané é mané", da música de Bezerra da Silva que, na voz de Diogo Nogueira, emoldura os diálogos ácidos e absurdos do casal.

 

Como resultado do método "malandro é malandro" de educação, vem o comportamento indócil de Zeca - sem limites, sem respeito, quase sem coração e com energia de sobra para gastar em arruaças pelas madrugadas da Lapa carioca. Acha que é malandro, mas tão despreparado, é no fundo um grande mané.

 

Garotos-problema não são exatamente uma novidade em novelas, vira e mexe aparece um menino mal em busca de redenção. A novidade dos personagens de Caminho das Índias está não na maneira como o garoto se comporta, mas na reação dos pais, que chegam a apoiar os erros do filho. "Não acho que a Ilana seja omissa. Muito pelo contrário, ela é superprotetora. A família deles é muito unida. Só que é unida pelo erro!", opina Ana Beatriz.

 

Nestas entrevistas, os atores falam sobre o sucesso do casal e a discussão ética que levantam na novela das 9.

 

'ELES FORMAM UMA TURMINHA'

Do núcleo brasileiro de Caminho das Índias, Ana Beatriz Nogueira estava feliz da vida quando conversou com o Estado, porque sua Ilana se encontrava no meio de uma viagem divertidíssima à "Índia de Jacarepaguá". "É como ir para um parque temático. Há muito tempo não me divertia tanto", diz.

 

Na gravação, dá para ver o quanto você e o Calloni se divertem. O humor das cenas já vem todo marcado no texto da Glória Perez ou há criação de vocês?

O humor é uma sacada da Glória, que a gente tenta aproveitar ao máximo. Muita coisa é mesmo dela, mas quando a gente cria alguma coisa, ela é generosa e logo incorpora. O "cobra de jaleco", que a Ilana chama a Aída (Totia Meirelles), por exemplo, foi criado por ela. Mas outro dia eu chamei a Leinha (Júlia Almeida) de "cobra júnior" e a Glória começou a usar no texto.

 

Como é fazer merchandising social?

Você pode até achar bacana dar um recado, mas se o personagem não for bom, ele não será transmitido. O César e a Ilana são personagens muito qualitativos, cheios de recursos. E a gente aproveita, para que o recado da Glória chegue. Por isso, eles têm humor.

 

Você acha que a Ilana pode ter defesa?

A pergunta que eu me faço sempre é "essa gente, essa Ilana e esse César da vida, é julgada?" Há alguma reflexão sobre isso? Imagine há quantas gerações a família do César e da Ilana está errada... Será que os pais deles eram assim também? Quando o Calloni e eu dizemos que não há vilania nos dois, partimos do princípio de que eles não ficam arquitetando maldades. Eles vivem daquela maneira absurda e politicamente incorreta.

 

É um estilo de vida.

É! Eles deixam muito claro o que estão fazendo, dizem absurdos para os outros, na cara. Agora que eu gravei na Índia de Jacarepaguá e conheci alguns indianos que participam da novela, percebi que O César e a Ilana são mesmo o outro lado do barbante. Todo mundo cresce e cria um filtro para o que diz. Eles, não.

 

O Calloni disse que o César parece ter a mesma idade mental do Zeca.

É, exatamente. É uma turminha! Eles veem o mundo da mesma maneira, são camaradas, os três.

 

***

 

'O CÉSAR É PIOR QUE UM VILÃO'

Para Antonio Calloni, César é tão mau caráter que é capaz de vender a mulher:

 

Como você e a Ana Beatriz encontraram o caminho do humor para personagens que poderiam ser totalmente intragáveis?

O humor está presente desde o início. É que agora, com a ida à Índia, o humor ficou mais evidente. O importante é que ele continua sendo amoral, como no início. Acho que ele é ainda pior do que um vilão, porque simplesmente não tem caráter nenhum - pode até vender a Ilana para conseguir o que quer.

 

Ser do núcleo do merchandising social de uma novela faz alguma diferença no seu trabalho?

Nenhuma. Para mim, o fundamental da televisão é o entretenimento. E entretenimento é uma coisa divina, não é pouca coisa entreter alguém durante meia hora. Agora, se existe um merchandising social, é uma contribuição a mais e é bem-vinda. Mas, repito: o mais importante é a diversão que novela proporciona.

 

Acontece muito de um ator que vive um personagem como o César passe a entendê-lo. Você vê alguma coisa boa nele?

Ah, sem dúvida! Acho inclusive que o César não cresceu direito, parece mais um amigo do Zeca do que pai dele. Tem uma afetividade deformada com relação àquele filho, por isso não sabe impor limites. Mas, pode reparar: ele curte tudo, estava superfeliz na Índia. Mas é o tipo do cara que pode levar um susto na vida e melhorar. Não sei se ele vai passar por isso. Mas é um cara que tem salvação.

 

Se bobear, ele e a Ilana são o casal mais bem casado da novela...

A Ilana e o César são absolutamente felizes, têm tudo a ver um com o outro. Mas eles são absolutamente amorais, os dois.

 

Até que ponto você põe o César num registro realista?

Nossa, os Césares estão sobrando por aí! Acho até que tem piores do que ele na nossa sociedade, pessoas que usam a esperteza, no mau sentido, para se dar bem. Ele é um tremendo cara de pau, um sedutor que você vê em todas as camadas sociais. Nesse ponto, é bastante realista. Na interpretação, estou pondo um pouco de composição, como o jeito dele de andar e falar. São coisas onde pus uma tinta um pouquinho mais forte.

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