Um vespeiro aqui, outro acolá

Aguinaldo Silva testa limites e, de choque em choque, faz o sucesso da sua 'Duas Caras'

Patrícia Villalba, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2008 | 22h14

Os mestres noveleiros sabem que novela boa não é necessariamente a que dá grande audiência, mas a que repercute. É aquela que, vendo ou não, a gente vai saber o que houve no capítulo da véspera. Pode ser a invasão da Portelinha ou a tentativa de linchamento promovida por evangélicos. De repercussão, o ex-jornalista e hoje autor Aguinaldo Silva entende bem. Tanto, que a sua Duas Caras dá a impressão de estar há um ano no ar, tantos foram os acontecimentos mirabolantes. Na reta final da trama, que termina no próximo mês, o autor fala ao Estado.De todos os vespeiros que você tem mexido em Duas Caras, qual foi o mais difícil de tocar?A história do que eu chamo de "novíssima família", o triângulo amoroso entre Bernardinho, Dália e Heraldo. Eu esperava que a história merecesse rejeição imediata. Não foi o que aconteceu, todo mundo acha os três "uns fofos". Antes, os personagens de novela eram lineares. O que mudou para que chegássemos a uma estrutura como a de Duas Caras, onde os personagens são essencialmente ambíguos?A própria vida. As pessoas até pouco tempo eram lineares, ou pelo menos se imaginavam desse jeito. A realidade, e o excelente trabalho realizado pela imprensa nos últimos anos no Brasil, mostrou que não é nada disso. As pessoas são boas ou más dependendo das circunstâncias, falham e se contradizem a toda hora.Qual foi a maior dificuldade de escrever uma novela como essa, tendo personagens ambíguos como matéria-prima?O folhetim, deixando de ser linear, torna-se bem mais complexo. O autor faz suas escolhas: quem será o próximo a mostrar sua segunda cara? E ele nunca sabe se vai dar certo. Às vezes, se surpreende. Vou citar um caso interessante. O site da novela vem fazendo uma enquete: "Com quem deve ficar Maria Paula?" Claro, Ferraço é quem tinha a menor chance, mas eu precisava fazer com que Maria Paula casasse com ele, e então passei a manipular a história para que o público não a rejeitasse. Pelos meus cálculos, Ferraço assumiria o primeiro lugar na enquete no dia em que salvasse o filho da morte por afogamento (dia 3 de abril). Mas isso aconteceu três dias antes, em 31 de março. A gente sempre ouve falar que a novela, obra aberta, pode mudar conforme os mandos e desmandos da audiência. Já fez alterações por causa dela?Não por causa da repercussão entre os telespectadores, mas sim por causa da repercussão em alguns corredores mais escuros de Brasília. Alzira, sem meias palavras ou eufemismos, deixou de dançar por causa disso. Pela mesma razão eu tive que descobrir, no prazo de uma noite, um jeito de tirar a uisqueria da história. Antes, havia a censura. Agora, há a reclamação generalizada - os sindicatos, as igrejas e qualquer um que se sinta ofendido por uma trama de novela. Você se sente patrulhado? Não me sinto patrulhado, mas esbulhado. Pois em geral, o que essas pessoas pretendem é alcançar a plena exposição na mídia. Não há como o autor da novela lidar com isso, infelizmente.Quando a Gioconda diz "A culpa é do Fernando Henrique" é elogio ou ironia?É ironia. Na época em que ela disse a frase, estava na moda atribuir ao governo de Fernando Henrique todos os males e percalços por que passa o Brasil atualmente. E parece que essa moda ainda existe, tanto que vou dar um jeito de fazer a Gioconda repetir a frase...

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