Zé Paulo Cardeal/Divulgação
Zé Paulo Cardeal/Divulgação

Um centro para sonhar

Tempos Modernos, que estreia amanhã, mostra a degradada região central como um bairro de cultura fervilhante – exatamente como todos gostariam

Patrícia Villalba,

09 de janeiro de 2010 | 16h00

Autor experiente de teatro, Bosco Brasil diz que se a gente bobear, a tragédia vira comédia. Por isso, ele não teve dúvidas em transformar Rei Lear, de Shakespeare, em ponto de partida para a leve e bem-humorada Tempos Modernos, que estreia amanhã na Globo, às 19h15, no lugar de Caras & Bocas. É a primeira novela dele como autor titular, depois de ter sido colaborador de Silvio de Abreu e Maria Adelaide Amaral, na qual fala sobre a relação entre pai e filha e a paranoia moderna em torno da segurança.

 

"Sou bastante curioso sobre a relação entre pai e filha. Quando ouço amigas falando sobre isso, é quase como se eu ouvisse uma música", diz Bosco ao Estado.

 

"Há muito tempo também penso sobre como as pessoas abrem mão de sua liberdade para ter segurança. Isso para mim é absurdo."

 

O Rei Lear de Bosco é Leal. É um sujeito de origem humilde, que é dono de um prédio no centro de São Paulo, o Titã, um monstrengo imenso controlado por um computador, Frank. "A ideia deste prédio surgiu quando eu li sobre um empreendimento que seria construído no Pari. Uma frase que falaram na época não saía da minha cabeça - que você poderia nascer, viver e morrer sem precisar sair dali."

 

Leal é interpretado por Antônio Fagundes, que encabeça um elenco repleto de nomes do teatro. "É um papel que pede um ator forte, que também possa ser galã, sem perder o prumo. O Fagundes é esse cara", define o autor.

 

Tempos Modernos é ambientada no centro velho de São Paulo, que contrasta de maneira perfeita com a modernidade do Titã. "Fizemos uma leitura lúdica do centro, que aparece na novela tomado por todo tipo de manifestação artística", explica o diretor-geral, José Luiz Villamarim.

 

Não é o caso de levantar uma bandeira, mas autor e diretor admitem que mostrar um centro recuperado, limpo e respirando cultura não é mera questão de plasticidade. "Há uma movimentação da população para ter o centro de volta, meio surda num certo sentido, mas constante", observa Bosco, paulistano que estudou no Colégio São Bento, foi office-boy e hoje vive no Rio. "A minha geração sofreu o impacto de perder aquele espaço, presenciei o sumiço de várias praças."

 

Para criar o clima da novela, Bosco aproveita algumas ideias do projeto de revitalização da região e da construção da Praça das Artes, de autoria do arquiteto Marcos Cartum, que a Prefeitura tenta por em prática há alguns anos. "O projeto prevê que a área seja ocupada culturalmente. Tomei a ideia para mim e estou fazendo na novela o que eu acho que o centro vai ser daqui a quatro anos", explica o autor. "Espero que a novela instigue quem assiste a frequentar aquele espaço. O meu sonho é que a novela deixe essa herança."

 

A produção passou 40 dias gravando em pontos como Vale do Anhangabaú, Viaduto do Chá, Praça Ramos de Azevedo e Rua Líbero Badaró. Mas como é impossível gravar todos os dias nas ruas de São Paulo, a equipe de cenografia reconstruiu no Projac, no Rio, um trecho da Libero Badaró, onde fica a entrada do Titã, e uma inacreditável Galeria do Rock - qualquer paulistano que a visite ficará chocado com a semelhança.

 

Mas tanto a galeria quanto as ruas montadas no Projac são feitas a partir de uma "licença poética". Dessa forma, o cinema pornô da vida real, vizinho à galeria, foi promovido a cinema de arte e uma loja de sapatos de fachada poluída virou uma charmosa livraria. "A gente não quis reproduzir a rua real, não temos esse compromisso documental com o espaço. Ainda mais numa novela das 7", resume o diretor.

 

 

'Tomara que a novela sensibilize as autoridades'

 

Um dos atores mais carismáticos da TV, capaz de atrair atenção para qualquer produção, Antônio Fagundes não é figura fácil às 19 horas. Com quase 30 novelas no currículo, fez apenas uma no horário, A Viagem (1994), onde interpretou o charmoso Otávio César Jordão. Aliás, cabe até perguntar: quando Fagundes viveu algum personagem que não fosse absolutamente charmoso?

 

Talvez nunca, porque mesmo quando o sujeito é bastante desajeitado, como o Caio de Rainha da Sucata (1990), acaba sendo inevitável que ele se torne charmoso – no caso de Caio, ninguém pode negar que até o esparadrapo remendando a armação dos óculos caía bem.

 

Desta vez, Fagundes não deve tentar disfarçar nenhum pouco seu charme para encabeçar o elenco de Tempos Modernos. Leal, seu personagem, é uma espécie de Rei Lear do centrão paulistano, dono de um edifício gigantesco que tem vida própria e é controlado por um computador, Frank, criado nos moldes do Hal-9000, de 2001 – Uma Odisseia no Espaço, mas com humor.

 

Nascido no bairro carioca do Leblon, Fagundes conta nesta entrevista ao Estado que, graças à novela, ele se reencontra agora com o centro de São Paulo que conheceu há 40 anos, quando sua família se mudou para a cidade – um bairro de cultura fervilhante, onde se concentravam as melhores salas paulistanas de cinema e teatro. E fala também das suas primeiras impressões sobre o Leal, que começa a levar para a TV amanhã.

 

A história de Tempos Modernos parte de Rei Lear, de Shakespeare. Como é essa interpretação, numa novela das 7?

 

É uma referência bastante distante, apenas serve de base para o personagem. Por um acaso, o Leal tem um reino e três filhas, e está prestes a dividir esse reino entre elas. Acabam aí as relações com a peça. Até porque o Rei Lear é uma tragédia, e o Leal é um personagem com muito humor, que vai enveredar por outros caminhos, com certeza.

 

O Leal é um mandachuva como o Juvenal Antena, seu personagem em Duas Caras (2007). Comparando um com o outro, ele é uma figura mais leve, menos controversa do que seu personagem anterior?

 

Eu diria que ele tem um império, é uma pessoa poderosa, de origem humilde, um mestre-de-obras que cresceu na vida. Mas tem uma diferença básica entre ele o Juvenal: é, digamos, o lado ético da questão. Há uma lenda na novela de que o Leal jamais deu uma propina em sua vida, ele age totalmente dentro da ética. Nesse sentido, é um personagem radicalmente oposto ao Juvenal Antena, que não tinha escrúpulos para chegar onde quisesse. O Leal é super correto em suas atitudes. Ele usa sempre a frase "palavra de rei não volta atrás". É como aquele famoso fio de barba.

 

É mais difícil ver você numa novela das 7. Sente diferença entre estar às 7 ou às 9?

 

Só fiz uma novela das 7 até hoje, A Viagem. Acho que é uma novela mais leve, né? Ela tende mais para a comédia e é uma coisa que eu gosto bastante de fazer. Acho que, sempre que possível, é bom trazer humor para os nossos personagens. O Leal é um cara muito divertido, está sendo ótimo fazer. Outra coisa é que a novela tem vários atores de teatro e o texto é do Bosco Brasil, que também um homem de teatro. Está muito bom mesmo, porque o Bosco faz os personagens percorrerem uma gama extensa de possibilidades. Por isso, o Leal é um personagem rico. Já gravei cenas muito românticas, outras de muita emoção e outras muito engraçadas.

 

Sempre achei que você fosse paulista, mas descobri que você é carioca. Qual é a sua relação, então, com o centro paulistano, que é praticamente um personagem da novela?

 

Nasci no Leblon, mas digamos que eu moro em São Paulo, no Leblon e na Ponte Aérea. Na verdade, nasci no Rio, mas vim para São Paulo com uns 6 anos de idade. Passei a minha adolescência inteira em São Paulo, especificamente no centro que, há 30, 40 anos, tinha outro perfil. Os grandes cinemas ficavam ali – Marrocos, Metro, Marabá, Astor, uma série de salas. Era um lugar muito gostoso de frequentar. É exatamente nessa área que a novela é ambientada. Então, de certa forma, estou bem inserido ali.

 

E a novela remete a esse centro que você tem na memória.

 

Sim, e mais do que isso, a novela tenta revigorar esse centro. Talvez ela seja um pontapé inicial para sensibilizar as autoridades de que o centro precisa ser revitalizado. O projeto sempre emperra em alguma coisa. Quem sabe agora, com a novela, ele aconteça.

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