Suzanne Tenner/Showtime
Suzanne Tenner/Showtime

'Twin Peaks' volta depois de 25 anos: 'Era o momento certo', diz cocriador

‘Twin Peaks’, novamente com David Lynch e Mark Frost, retorna à TV

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2017 | 06h00

O vice-presidente de desenvolvimento de conteúdo da emissora norte-americana ABC Gary Levine temia encontrar com David Lynch. O cineasta havia impressionado o executivo com Veludo Azul, filme escrito e dirigido por ele, de 1986, com uma trama de visual noir, suspense psicológico e escolhas estéticas e narrativas bastante peculiares e surrealistas. “Aquele filme me assustou”, confessa Levine. “Quando ele entrou em contato conosco para mostrar Twin Peaks, morri de medo. Não queria.” 

O ar pacato e tranquilo de Lynch e de seu companheiro de trabalho Mark Frost tiraram a má impressão. A ideia deles do que seria o seriado, com toda a inovação e, por que não, loucura foi aprovada por uma emissora de TV aberta nos Estados Unidos, algo bastante incomum para uma época de produções bastante deficitárias no quesito básico de criatividade. 

O depoimento de Levine foi gravado para um vídeo promocional da terceira temporada de Twin Peaks, de volta à ativa depois de 25 anos, com transmissão neste domingo, 21, pelo canal norte-americano Showtime – emissora na qual o executivo atualmente tem a função de presidente de programação. Até o fechamento da edição, nenhum canal ou serviço de streaming brasileiro informou a intenção de retransmitir o seriado para telinhas locais. 

A primeira temporada de Twin Peaks foi ao ar em 1990 – o episódio piloto foi exibido em 8 de abril. A série chegou a ser uma das mais assistidas dos Estados Unidos, no nobre horário das quintas-feiras, dividindo as atenções com a aclamada sitcom Cheers. O mistério em torno do assassinato da jovem Laura Palmer, interpretada por Sheryl Lee, rodou o país. No Brasil, a série chegou a ser exibida nas noites de domingo, pela TV Globo, em 1991, depois do Fantástico. O horário ruim prejudicou a audiência e, por fim, foi cancelada pela emissora. 

Por diferenças criativas, Lynch abandonaria o projeto no segundo ano e Frost, sozinho, segurou o rojão que era a questão da identidade do assassino. A moça, responsável por desencadear os acontecimentos da trama, também foi o epicentro da desavença entre os dois criadores da série. Lynch não queria revelar o autor do crime. Frost, sujeito com bagagem na TV, entendia a descoberta da identidade do assassino como algo crucial para o seguimento do seriado. 

Sem a presença do “assustador” Lynch e com a revelação do assassino, a audiência despencou. Twin Peaks foi transferida para as noites de sábado, uma faixa horária que contava com poucos jovens diante da telinha. A TV aberta funcionava (e funciona) com números. Sem televisores conectados no canal, diminuem os anúncios. Sem anúncios, sem série. Twin Peaks ainda ganhou sobrevida com o filme Fire Walks with Me, que no Brasil ganhou o autoexplicativo título de Os Últimos Dias de Laura Palmer, em 1992.

25 anos depois

Mark Frost, metade criativa da série Twin Peaks, se mostrou surpreso – e por que não irritado? – ao descobrir a falta de informação sobre a chegada da série ao Brasil por vias legais. Descobriu na entrevista por telefone anterior à concedida ao Estado. “Espero que vocês tenham a oportunidade de assistir. Estamos muito felizes em ver que isso realmente aconteceu, depois de tanto tempo.” 

Há pelo menos dois anos, oficialmente, Frost e David Lynch trabalhavam com a emissora Showtime para desenvolver o retorno do seriado 25 depois do filme Fire Walks with Me, filme dedicado a contar os dias anteriores da personagem Laura Palmer, cujo assassinato levou o agente do FBI Dale Cooper, interpretado por Kyle MacLachlan, para a misteriosa cidade de Twin Peaks. A dupla voltou a se encontrar em 2015 para elaborar a ideia básica da trama depois de tanto tempo distante. “Só entendi que de fato tudo iria acontecer quando conseguimos um acordo com o Showtime. Foi ali, naquele momento, que percebemos que a série estaria de volta”, relembra Frost. “Sei que os fãs ficaram felizes com o anúncio do retorno da série, mas ninguém no mundo estava mais radiante do que nós mesmos.” 

Twin Peaks revolucionou o modo de fazer TV porque levou o estranho para as emissoras abertas, no caso, a série era transmitida pela ABC. Mais do que isso, contou uma história contínua ao longo dos episódios, algo pouco comum ate então. Principalmente, trouxe um lado ainda mais autoral para uma cadeia de produção televisiva quase fordista. Diante de David Lynch e seu universo criativo muito particular, o público norte-americano se rendeu. 

Talvez Twin Peaks tivesse atingido níveis de aceitação e aclamação ainda mais altos se viesse depois, e não em 1990 e 1991, quando as duas temporadas fossem ao ar. A própria indústria não estava devidamente preparara para uma narrativa que deixava tantas pontas soltas, questões em aberto e, principalmente, cercava-se de personagens misteriosos e interesses escusos por todos os lados. Em contrapartida, a tal era de ouro da TV, iniciada a partir dos anos 2000, com séries da HBO como Oz, Família Soprano e The Wire, seria diferente se Twin Peaks não tivesse desbravado o caminho. Encontrar o assassino de Laura Palmer, a jovem encontrada na beira do rio, enrolada em plástico, era apenas a pontinha do iceberg que Twin Peaks propunha. Cada habitante da cidade, assim como o recém-chegado agente Cooper, pareciam desconectados do mundo real. 

Para Frost, contudo, a Twin Peaks da ficção, localizada no estado de Washington, no noroeste dos Estados Unidos, é tão real quanto qualquer outra pequena cidade norte-americana. “Definitivamente, o mundo de Twin Peaks é o nosso mundo”, conclui o roteirista. Depois de ter recebido o “sim” do Showtime, ele e Lynch voltaram a olhar para a Twin Peaks e suas peculiaridades. A questão, conta ele, era entender como estaria aquele ambiente nos tempos atuais. Existiriam telefones celulares? A internet funcionaria bem no alto daquelas montanhas? O gravador de fita cassete agente Cooper, chamado por ele de Diane, teria sido trocado por um aplicativo baixado no smartphone dele? 

Frost foge de responder às questões da série ao máximo que pode. “A ideia é não entregar muitos detalhes. Afinal, isso faz parte da série, o mistério”, despista. “Mas eu acho que assim como nós andamos 25 anos no futuro, a série também o fez. O que está acontecendo no ano de 2017 em Twin Peaks me parece muito interessante para os fãs da série. A cidade que conhecemos mudou tanto quanto o mundo que está ao nosso redor. É o que posso dizer”, conclui. 

Voltar a frequentar à essa história incentivou o roteirista a se aprofundar mais do que os 18 novos episódios, todos dirigidos por Lynch. Depois de escrever os roteiros, Frost se debruçou sobre uma história paralela a Twin Peaks, com intersecções com a trama da série, no livro A História Secreta de Twin Peaks, lançado no Brasil nesta segunda-feira, 22, pela Companhia das Letras – leia mais abaixo. 

A terceira e nova temporada de Twin Peaks, ao que se sabe, emula diretamente as suas antecessoras. Kyle MacLachlan, que volta à trama como o agente Cooper, disse ao programa The Tonight Show Starring Jimmy Fallon não foi capaz de dizer nada mais além de que “será algo que vocês nunca viram na televisão”. 

O fato é que nem mesmo MacLachlan, quem trabalhou com Lynch nos filmes Duna e Veludo Azul, sabe muito sobre a nova narrativa. Cada ator recebeu o roteiro apenas das cenas das quais participa, nada mais. No time de veteranos, que estiveram no ar há 25 anos, retornam: Dana Ashbrook (no papel Bobby Briggs), Ray Wise (Leland Palmer), David Duchovny (Agente Denise Bryson), Harry Dean Stanton (Carl Rodd) e os já citados MacLachlan e Sheryl Lee. Já os novatos incluem Michael Cera, Monica Belluci, Tim Roth, Naomi Watts e os roqueiros Trent Reznor (do Nine Inch Nails) e Eddie Vedder (Pearl Jam). Os personagens deles só serão revelados na TV. 

“Foi incrível reencontrar todas essas pessoas”, diz Frost. “Senti falta dessa gente com quem trabalhei naquela primeira vez. Voltar a fazer tudo isso com eles é uma maravilha”, conclui. Como diz a própria Laura Palmer ao Cooper em um sonho devaneado: “Vejo você em 25 anos”. O tempo chegou, enfim. “Definitivamente, acredito na ideia de que tudo tem o momento certo para acontecer.”

Livro traz  história paralela que se funde com a da TV 

Dezoito episódios da nova temporada de Twin Peaks escritos depois, Mark Frost percebeu ainda existir mais espaço para criar narrativas a partir da série elaborada por ele e David Lynch, entre 1990 e 1991. Nasceu dessa vontade de entrelaçar uma nova ficção ao mundo surrealista já estabelecido nas telinhas. Assim surgiu A História Secreta de Twin Peaks, livro lançado aqui pela Companhia das Letras, disponível nas livrarias a partir desta segunda-feira, 22. “Tenho trabalhado nisso desde 2015”, recorda Frost. 

De acordo com ele, a nova temporada da série, que estreia neste domingo, já estava sendo filmada quando ele passou a se dedicar ao novo texto. A História Secreta... não se passa diretamente com os personagens da série, mas envolve o leitor na mesma aura mística recorrente na produção televisiva. Na literatura, Frost vai até onde os orçamentos de séries de TV não podem chegar – e isso significa, entre outras maluquices, até o monstro Pé Grande. A narrativa é criada em forma de um dossiê de uma investigação a ser concluída. “Sempre achei que deveria ser diferente da série”, conta Frost. “Foi um processo interessante pensar em como contar uma história com essas características.” 

 

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